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O poder do saber, compreender e sentir

Coluna
14 de abril de 2021

Antonio Francesco Gramsci nasceu em Ales, Itália, em 22 de janeiro de 1891, vindo a falecer em Roma, em 27 de abril de 1937. Filósofo marxista, jornalista, crítico literário, linguista, historiador e político italiano, dedicou sua vida a analisar como os Estados contemporâneos utilizam-se da cultura para manter o poder.

A partir dessa premissa, Gramsci defendia que caberia às escolas (e, em especial, às universidades) criar o “novo intelectual”.

É certo que precisamos reconhecer que Gramsci, como marxista, teria enorme dificuldade de compreender como funciona o sistema educacional brasileiro, no qual a iniciativa privada a cada dia ganha mais destaque não apenas no ensino, mas também em pesquisa e extensão, mas me parece possível extrair de seus ensinamentos recomendações válidas para estudarmos os projetos de extensão e a sua importância na transformação da sociedade.

Inicialmente, importante esclarecer que ao conjunto de camponeses e demais pessoas que compõem o setor privado e sobre o qual o domínio do Estado é exercido, Gramsci atribui o nome de “sociedade civil”, que representaria o “elemento popular”, ou seja, o próprio povo de uma sociedade. Já aos dominantes nomina de “sociedade política ou Estado”, estes seriam os verdadeiros detentores do poder, dentre os quais poderiam, para Gramsci, serem incluídos os intelectuais tradicionais, que estariam mais preocupados em manter o status quo, sem qualquer compromisso com o efetivo desenvolvimento da sociedade.

Nesse sentido, Gramsci defende que o “elemento popular ‘sente’, mas nem sempre compreende e sabe; o elemento intelectual ‘sabe’, mas nem sempre compreende ou sobretudo ‘sente’”.

Assim, o povo, para Gramsci, sente na própria pele as angústias do dia a dia, mas nem sempre tem condições de compreender por que essa situação ocorre e tampouco sabe como adotar medidas para mudar a sua situação. Por outro lado, o intelectual, muitas vezes, vive em uma bolha, na qual o seu saber não lhe permite compreender e, tampouco, sentir como é a vida em sociedade.

Nesse cenário, o grande desafio das universidades, principalmente por meio de projetos e programas de extensão é permitir que os intelectuais, neles incluídos os professores e alunos, consigam transformar o seu saber em compreender e sentir, garantindo que eles vivenciem os desafios diários de sua profissão e como agir para melhorar a vida de toda a sociedade. Surgiriam os “novos intelectuais”. Por outro lado, quanto ao povo, o desafio é que além de sentir ele também possa compreender e saber, não apenas a sua atual situação, mas também os meios pelos quais ele pode transformar a sua vida para melhor.

Ao obter êxito nesses dois desafios, a universidade consegue bem desempenhar a sua função de promoção de educação de qualidade, contemplando o tripé acadêmico que envolve ensino, pesquisa e extensão.

A pandemia de Covid-19, nesse ponto, apesar de todas as tragédias que provocou, apresentou-se como uma grande oportunidade para que as universidades ampliassem os seus projetos e programas de extensão. Foi o que aconteceu com a Unimar Universidade de Marília), que desde março de 2020 tem desenvolvido importantes projetos e programas de combate à Covid-19, os quais, contudo, pretendo apresentar em um próximo artigo.