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Nem tudo é uma questão de opinião

Coluna
10 de maio de 2022

No Brasil há gente muito boa que pensa e escreve genialmente bem. Um deles, destes que eu sonho ver um dia, tirar uma foto junto, ficar admirando, é o professor Fernando Novais, um historiador de mão cheia. Ele disse certa vez, por exemplo, “eu escrevi pouco durante a minha vida, mas nunca me arrependi de nada que eu fiz”. Esta frase marcou para sempre, porque é de uma beleza retumbante olhar para a vida profissional com o zelo de não trocar a qualidade pela quantidade, e não perder o brilho no olho, mesmo no massacre que pode ser o dia a dia. Fernando Novais é, para mim e muitos outros, um monumento.

Foi em um texto do professor Novais também que eu entendi uma diferença abissal que existe na tessitura das ciências humanas, que eu nunca tinha entendido direito até lê-lo. Ele mostrou que, elucidando, as ciências sociais – a sociologia, a ciência política e a antropologia – têm todo seu esforço voltado para criar as teorias que explicam como a vida social funciona. Já a história, diferentemente, volta sua energia para outra missão, ela é a ciência que empresta das ciências sociais aquelas ideias explicativas que, entremeadas às fontes certas, permitem reconstruir o passado social.

Explicar a sociedade e reconstruir o passado não são a mesma coisa e, especialmente, nem uma nem a outra coisa não estão no campo da opinião. Pois, se é científico, tanto faz nossa opinião que fica completamente obsoleta, acerca de ciências que se fazem, e apenas se, forem dotadas de provas e metodologia. Opinião de ninguém não prova absolutamente nada e no mais das vezes não leva para lugar nenhum.

Mas, para demonstrar, nada como exemplos que facilitam. Imagina que diante de uma infecção grave no sistema digestório, por exemplo, não é usual questionar o que a medicina recomenda. Ou mesmo quando o motor do carro funde, também não é razoável implicar com a avaliação do mecânico sobre a manutenção das válvulas. E de repente para construir uma casa, não se costuma criticar o engenheiro por causa do diâmetro da coluna que sustenta o teto. E ninguém, da mesma maneira, dá pitaco na afinação do spalla da orquestra sinfônica. Entendeu até onde vai a opinião?

Agora, quando o tema são as ciências humanas… Aí a coisa, infelizmente, muda de figura. De repente parece que está todo mundo habilitado técnica e teoricamente para quaisquer assuntos econômicos, políticos, sociológicos, antropológicos, culturais e tudo o mais. Ledo, severo e perigoso engano. Pierre Bourdieu, ou o sociólogo de maior renome da segunda metade do século XX, sobre este hábito leviano da gente achar que tudo está no alcance da nossa opinião, escreveu na década de 1970 um clássico chamado ¨A opinião pública não existe¨ e, embora há 50 anos atrás o mundo fosse muito mais analógico do que digital, é impressionante como ainda faz o maior sentido a tese dele. São três os pressupostos desconcertantemente verdadeiros que embasam esta ideia célebre de Bourdieu.

Pressuposto um: não é correto supor que todo mundo está apto a opinar sobre quaisquer coisas, mesmo que esta premissa ocorra em nome de um sentimento falso de democracia. Em suma, só sei que nada sei, e quanto mais você se esforça em saber mais percebe, na mesma intensidade, que não importa o esforço de uma vida a gente necessariamente morrerá ignorante na maioria esmagadora dos assuntos todos.

Pressuposto dois: supor erroneamente que as opiniões equivalem-se, uma vez que são todas classificadas dentro do mesmo vocábulo: opinião. Trocando em miúdos, a forma como as opiniões se apresentam no debate público declaram muito mais sobre os interesses de quem enuncia, do que sobre a validade do conteúdo. O persistente hoje é, aliás, uma tentativa de fazer um monopólio moral das virtudes em dois polos, a esquerda e a direita, que remontam a divisão da Assembleia Nacional da Revolução Francesa no final do século XVIII. Tentar colocar alguém na gaveta acusando ser de um lado ou do outro não equivale a saber porque os lados existem, e mesmo de onde eles vieram ou o que ele têm a ver com girondinos e jacobinos, embora algumas pessoas o saibam em geral é só o uso de um bordão tosco e repetitivo.

Pressuposto três: o fato de haver a premissa que existem questões que são cabíveis para todo mundo escamoteia um outro fato, o de que não há, mesmo tacitamente, um acordo razoável sobre quais são as questões que podem ser universais. Como saber se é possível encontrar qualquer elemento de interesse comum, até no campo da opinião, entre centenas de milhões de pessoas, se é nas trajetórias pessoais que cada um elabora a individualidade sobre o que há de importante e o que há de banal?

Fernando Novais acertou em cheio quando disse que fazer ciência social não é fácil e tem especificidades. Pierre Bourdieu, o cientista social, arrematou com a ideia de que crer que tudo está ao alcance da opinião é produto da alienação e, sem embargo, da imodéstia, da empáfia, ou da simples falta de noção. E eu, mero mortal, jovem professor nômade do interior de São Paulo, só fico sonhando como nossa vida seria melhor, caso fôssemos ensinados que tudo bem não saber sobre tudo e, ao mesmo tempo, reconhecêssemos que o exercício da humildade de não saber e aquietar é dignificante.