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Entrevista da Semana
qui. 30 abr. 2026
ENTREVISTA DA SEMANA

‘Doava sangue mesmo com a rotina mais corrida’ diz superdoador de Marília

Bombeiro militar aposentado, Roberttino Santos é doador de sangue há mais de 50 anos.
por Alcyr Netto
Roberttino Santos começou a doar sangue em Assis, aos 18 anos (Foto: Alcyr Netto/Marília Notícia)

A história de solidariedade de Roberttino Santos começa ainda na juventude, quando – aos 18 anos -realizou sua primeira doação de sangue em Assis. Desde então, o gesto se transformou em um compromisso de vida, mantido ao longo de décadas, mesmo diante de rotinas profissionais intensas e desafiadoras.

Com uma trajetória marcada por diferentes trabalhos e, principalmente, por 30 anos de serviço na segurança pública, incluindo atuação no Corpo de Bombeiros, Roberttino conciliou a dedicação à profissão com o hábito contínuo de doar sangue. Ao longo dos anos, tornou-se referência entre colegas e conhecidos sempre que surgia a necessidade de um doador.

Nesta entrevista, ele relembra momentos marcantes dessa jornada, fala sobre sua vida pessoal e profissional, e compartilha a importância da solidariedade no dia a dia. Seu relato evidencia como um gesto simples pode impactar vidas e inspirar novas gerações a seguirem o mesmo caminho.

***

MN – Como e onde começou a sua história com a doação de sangue?

Roberttino Santos – Meu pai veio do norte e se mudou para Assis. Eu nasci lá, na região da Água do Platina. Em 1974, quando fiz 18 anos, fui para o Tiro de Guerra em Assis e doei sangue pela primeira vez. Depois disso, nunca mais parei.

MN – Como foi sua trajetória profissional desde então?

Roberttino Santos – Trabalhei em um frigorífico por dois anos e meio, mas minha vida sempre foi muito ativa. Trabalhei de pedreiro, cortador de árvores, segurança e até joguei muita bola na várzea, onde ganhei o apelido de ‘Bebeto’, por ser um zagueiro e lateral mais firme nas jogadas. Depois, fiz o concurso da PM. Fiquei 30 anos na polícia e hoje sou sargento aposentado do Corpo de Bombeiros. No começo, trabalhei na Força Tática em São Paulo por cerca de sete anos e doava sangue a cada quatro meses no Hospital do Câncer, na Liberdade. Quando vim para Marília, entre 1983 e 1984, pedi para entrar para os bombeiros.

Roberttino Santos é doador no Hemocentro de Marília desde o início de suas atividades (Foto: Alcyr Netto/Marília Notícia)

MN – A rotina no trabalho permitia continuar doando sangue?

Roberttino Santos – Era muito corrido. Teve um dia em que atendi 17 ocorrências só na minha viatura, pois ainda nem existia o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) na época. Mas eu sempre continuei doando. No quartel, os colegas já sabiam da minha disposição, então, sempre que precisavam de sangue para alguém doente, iam lá me pedir. Eu participava ativamente do projeto ‘Bombeiro Sangue Bom’, mas nunca doei visando a dispensa do serviço prevista em lei. Meu foco era apenas ajudar, tanto que após as doações eu continuava levando minha vida e trabalhando normalmente.

MN – O senhor tem noção de quantas vezes já doou sangue ao longo da vida?

Roberttino Santos – Não tenho noção, mas já tenho 71 anos e estou doando desde os 18 anos. Eu tinha o costume de ir a cada dois meses sem nem precisar que me chamassem. Acompanhei toda a evolução do serviço aqui na cidade. Comecei doando na Santa Casa, depois no Hospital da Mulher e finalmente no Hemocentro. Eu gostava tanto que cheguei a pedir ao diretor para fazer um requerimento para a Secretaria de Saúde do Estado, solicitando autorização para eu poder doar até os 75 anos de idade.

MN – Teve alguma história de doação que marcou mais o senhor nessas décadas?

Roberttino Santos – Teve o caso de um menininho chamado William. Ele era bem pequeno e precisava de sangue, mas só o plasma do meu tipo sanguíneo servia para ele. Aqui no município só existiam duas pessoas compatíveis, e como não encontravam o outro doador, ligaram no quartel dos bombeiros e me acharam rápido. Fui lá e doei.

MN – Ele ficou bem depois disso?

Roberttino Santos – Hoje ele já é um homem casado, com cerca de 30 e poucos anos. Certa vez, o antigo diretor do Hemocentro me disse que o William estava recebendo sangue lá no prédio e perguntou se eu queria descer para conhecê-lo. Pensei bem e acabei indo embora sem vê-lo, com receio de acharem que eu estava querendo alguma retribuição ou dinheiro. Não doei para isso, fiquei muito feliz e em paz só de saber que a vida dele foi salva.

MN – E como o senhor formou a sua família?

Roberttino Santos – Eu tenho quatro filhos. São dois adotivos do meu primeiro casamento e dois biológicos do segundo casamento. Minha primeira esposa não conseguia engravidar, e como nós adorávamos crianças, adotamos uma bebê recém-nascida em Garça e, após cinco anos, adotamos outra criança com o apoio de um juiz da cidade.

Roberttino Santos se aposentou no Corpo de Bombeiros, mas seguiu doando sangue (Foto: Alcyr Netto/Marília Notícia)

MN – Uma dessas filhas seguiu os seus passos na carreira militar, certo?

Roberttino Santos – Sim, a Vanessa. Ela queria fazer faculdade de Jornalismo e, para pagar os quatro anos de curso, decidiu prestar o concurso temporário da PM. Ela pegou tanto gosto pela profissão que fez o concurso novamente e hoje é cabo da PM em Garça. Ela me dá muito orgulho. Ela já trabalhou na ronda escolar em São Paulo, depois na distribuição de viaturas e helicópteros no Centro de Operações da Polícia Militar (Copom), e até chegou a prender um suspeito com 20 quilos de cocaína numa pousada na região, o que lhe rendeu elogios e a foto no mural da corporação.

MN – O senhor está aposentado, mas ainda segue trabalhando?

Roberttino Santos – Estou aposentado há 18 ou 19 anos. Logo que me aposentei, dirigi um caminhão por seis meses fazendo entregas de madrugada para Bauru. Depois, um colega me avisou de uma vaga, fui chamado para trabalhar como segurança em um cemitério e já estou lá prestando serviço há 18 anos.

MN – O ambiente de um cemitério muda sua perspectiva sobre a vida e a importância de ser solidário?

Roberttino Santos – Com certeza. Lá eu vejo na prática que somos todos iguais. Enterramos o rico, o pobre, o preto e o branco. O destino final de todos é a mesma coisa. Isso me ajuda a manter a minha humildade, do jeito que eu vim lá da roça. Por isso, doar sangue e poder ajudar as pessoas é algo que me deixa extremamente contente.

MN – O senhor também tem incentivado as novas gerações a seguirem o seu caminho da doação?

Roberttino Santos – Sim. O pessoal da polícia e dos bombeiros sempre me procura quando alguém da família precisa, e eu ajudo. Agora tenho conversado bastante com meu filho caçula, o João Vitor, que tem 29 anos. Sempre digo a ele para começar a doar sangue, porque a gente pega gosto pela coisa, e o mais gratificante é saber que uma única doação pode salvar quatro vidas.

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