Entre obras e ideologias, Marília desafia a lógica dos investimentos eleitorais

Desde a eleição presidencial de 2022, Marília passou a receber um volume expressivo de investimentos públicos dos governos federal e estadual, administrados por grupos políticos de diferentes orientações ideológicas.
A construção do Hospital da Mulher, a ampliação da rede de radioterapia pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a construção de novas unidades de saúde, obras de infraestrutura urbana, programas habitacionais, investimentos em educação, mobilidade e assistência social colocaram o município entre os beneficiados por diferentes políticas públicas nos últimos quatro anos.
Ao mesmo tempo, a cidade preserva um comportamento eleitoral relativamente estável nas disputas presidenciais. Nas duas últimas eleições, o eleitorado deu ampla vantagem aos candidatos da direita, mesmo diante da alternância de governos em Brasília e da continuidade de investimentos públicos destinados ao município.
Essa combinação desperta uma pergunta que extrapola a política local e interessa também à ciência política: até que ponto obras públicas e investimentos governamentais têm capacidade de alterar um comportamento eleitoral consolidado?
A resposta está longe de ser simples. O voto resulta da interação de fatores econômicos, sociais, culturais, religiosos, ideológicos e emocionais. Nesse contexto, Marília reúne características que a transformam em um interessante laboratório para observar como esses elementos se relacionam ao longo do tempo.
Perfil conservador nas urnas
Os resultados eleitorais demonstram um padrão relativamente consistente. Em 2018, Jair Bolsonaro (então no PSL) venceu o primeiro turno em Marília com 81.202 votos, equivalentes a 66,77% dos votos válidos. Fernando Haddad (PT) ficou em quarto lugar, com 9.865 votos (8,11%). No segundo turno, Bolsonaro ampliou a vantagem e alcançou 94.124 votos (80%), contra 23.536 votos (20%) de Haddad.

Quatro anos depois, o cenário permaneceu semelhante. No primeiro turno de 2022, Jair Bolsonaro (PL) recebeu 83.212 votos (62,87%), enquanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT) obteve 37.724 votos (28,50%). No segundo turno, Bolsonaro venceu novamente na cidade com 93.172 votos (69,43%), diante de 41.031 votos (30,57%) de Lula.
Embora a vantagem tenha diminuído em relação a 2018, o município manteve preferência clara pelo candidato da direita nas duas disputas presidenciais mais recentes. Enquanto isso, o volume de recursos públicos destinados ao município cresceu significativamente.
Entre 2023 e o primeiro semestre de 2026, Marília recebeu aproximadamente R$ 404 milhões em transferências constitucionais e legais da União, destinadas principalmente ao financiamento da saúde e da educação. Esses repasses seguem critérios previstos em lei e independem de decisões discricionárias do governo federal.
Paralelamente, o município também foi contemplado com investimentos específicos definidos pela União, entre eles recursos do Novo PAC, novas unidades de saúde, programas habitacionais, habilitação da radioterapia e emendas parlamentares, ampliando o volume de recursos destinados à cidade.
Investimentos federais
Além das transferências regulares, programas específicos ampliaram os investimentos na cidade. Pelo Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), Marília foi contemplada com R$ 42,5 milhões para obras de drenagem do Córrego do Pombo e outros R$ 17 milhões destinados à renovação da frota do transporte coletivo urbano.
Na área da saúde, destacam-se a construção da Policlínica da zona oeste, orçada em R$ 33 milhões; um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) na zona sul, com investimento de R$ 2,4 milhões; uma nova Unidade Básica de Saúde na zona norte, estimada em R$ 2,8 milhões; além da entrega de quatro novas ambulâncias para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), avaliadas em R$ 1,1 milhão.

Outro marco importante foi a habilitação definitiva do serviço de radioterapia do Hospital Oncológico da Unimar pelo SUS, ampliando o acesso ao tratamento oncológico para pacientes de Marília e de dezenas de municípios da região.
No campo habitacional, o programa Minha Casa, Minha Vida voltou a contemplar empreendimentos na cidade após anos sem novas contratações. Também foram destinados aproximadamente R$ 46,7 milhões por meio de emendas parlamentares entre 2023 e 2026, direcionadas principalmente às áreas de saúde, educação, assistência social e infraestrutura.
Investimentos estaduais
Nas eleições de 2022, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) também venceu em Marília. No segundo turno, o então candidato recebeu 72.969 votos (64,08%), enquanto Fernando Haddad (PT) obteve 40.899 votos (35,92%). No Estado de São Paulo, Tarcísio foi eleito com 55,27% dos votos válidos, consolidando um governo alinhado ao mesmo campo político que predominou entre os eleitores marilienses na disputa presidencial.
Paralelamente, o Governo do Estado de São Paulo – gerido pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) – concentrou investimentos relevantes em diferentes frentes. O principal deles é o Hospital da Mulher, cuja construção recebeu R$ 57,4 milhões, além da previsão de cerca de R$ 40 milhões para aquisição de equipamentos, totalizando mais de R$ 100 milhões.
Outra obra estruturante é o Ambulatório Médico de Especialidades (AME), em construção com investimento estimado em R$ 79,8 milhões. Na infraestrutura rodoviária, estão em andamento obras de recuperação de vicinais que somam aproximadamente R$ 46 milhões em Marília e municípios vizinhos.

A duplicação da Rodovia Dona Leonor Mendes de Barros (SP-333), embora financiada pela concessionária responsável pela rodovia, envolveu investimentos privados superiores a R$ 427 milhões dentro do programa de concessões do Governo do Estado.
Também foram destinados cerca de R$ 21 milhões para implantação do Parque da Criança e autorizado empréstimo estadual de R$ 78 milhões voltado a parques, praças e outras intervenções urbanas.
Somam-se ainda as transferências obrigatórias do Estado, compostas principalmente pelas cotas-partes de ICMS, IPVA e IPI. Os repasses atingiram R$ 241 milhões em 2023, R$ 259,9 milhões em 2024, R$ 269,8 milhões em 2025 e R$ 164,4 milhões apenas no primeiro semestre de 2026.
Análise política
O volume de investimentos evidencia que Marília esteve presente em diferentes agendas públicas dos governos estadual e federal durante o atual ciclo político. Mas isso significa que obras públicas geram votos?
Para o cientista social Anderson Deo, professor do Departamento de Ciências Políticas e Econômicas da Unesp de Marília, essa relação existe, mas é muito mais complexa do que normalmente se imagina. Segundo ele, atualmente há fatores mais determinantes para a definição do voto do que propriamente os investimentos públicos realizados pelos governos.
“O perfil ideológico do eleitor é influenciado por elementos muito mais complexos e determinantes do que, propriamente, o reconhecimento de investimentos públicos”, afirma. Na avaliação do pesquisador, São Paulo desenvolveu, nas últimas décadas, um ambiente político específico, marcado pela consolidação de um discurso fortemente conservador.

Colega de Deo na Unesp de Marília, o cientista político Paulo Cunha entende, por sua vez, que “alguns grupos mais politizados que os outros conseguem perceber a relação direta com a verba que a cidade recebe”.
“Mas os investimentos mais significativos não são capitalizados por aqueles que, em tese, os conquistou. No caso, os agentes políticos. Basta ver, na Câmara Municipal, há quantos anos não temos vereadores de oposição programática partidária”, ponderou.
Nesse contexto, segundo Deo, investimentos públicos dificilmente alteram posicionamentos ideológicos já consolidados. Mesmo quando a população reconhece a origem dos recursos, isso não necessariamente se converte em apoio eleitoral.
“O reconhecimento de quem financia determinada obra não significa automaticamente transferência de votos. Em muitos casos, quem executa os investimentos são as administrações municipais, que acabam apropriando politicamente essas realizações”, explica.
Percepções do eleitor
A literatura sobre comportamento eleitoral também demonstra que a percepção do eleitor desempenha papel decisivo. Nem toda obra produz dividendos políticos. Ao longo da história recente do país, existem exemplos de grandes programas públicos que fortaleceram governos nas urnas, especialmente quando produziram efeitos diretos e rapidamente percebidos pela população.
Em contrapartida, diversos investimentos de alto valor passaram praticamente despercebidos do ponto de vista eleitoral, seja porque demoraram anos para serem concluídos ou sua autoria acabou diluída entre diferentes esferas de governo.
Essa percepção depende de múltiplos fatores: comunicação institucional, identificação do responsável pela obra, visibilidade do investimento, impacto direto na vida cotidiana e ambiente político no momento da eleição. Em Marília, esses elementos convivem simultaneamente.

A cidade recebeu investimentos relevantes tanto do Governo Federal quanto do Governo do Estado, enquanto preservou, até o momento, um histórico consistente de votação majoritária em candidatos da direita nas eleições presidenciais.
Grande parte das principais obras ainda está em execução ou terá seus efeitos plenamente percebidos apenas nos próximos anos. Hospital da Mulher, AME, drenagem do Córrego do Pombo, novas unidades de saúde e programas habitacionais ainda atravessam diferentes fases de implantação.
Por isso, a eleição presidencial de 2026 poderá representar o primeiro grande teste para observar se esse conjunto de investimentos produziu alguma alteração na percepção do eleitorado local. Isso não significa que haverá mudança de comportamento nas urnas. Tampouco permite concluir que investimentos públicos sejam irrelevantes para a decisão do voto. O caso de Marília mostra justamente a complexidade dessa relação.