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Doria não consegue garantir maioria entre os tucanos de Marília

Cidade
25 de novembro de 2021

Prefeito aparece no palanque de Doria, mas não fala abertamente sobre seu voto (Foto: Divulgação)

Em prévias partidárias com jogo aberto – mesmo com a participação de um candidato paulista contra um gaúcho –, apontar o pré-candidato favorito no pleito interno do PSDB segue como aposta arriscada. Marília conta com 62 tucanos habilitados ao voto.

Poucos, entre filiados com cargos e/ou maior popularidade, deixam escapar a preferência para a indicação à corrida ao Planalto, em 2022. A direção nacional ainda busca um novo aplicativo para retomar as prévias, iniciadas e suspensas no domingo (21), após problemas no sistema de votação.

Disputam a indicação os pré-candidatos Arthur Virgílio Neto (AM), Eduardo Leite (RS) e João Doria (SP). Mesmo com o resultado pífio nas eleições de 2018, as prévias do partido atraem todos os holofotes do mundo político, pela capacidade do nome tucano constituir ou não uma terceira via.

O prefeito Daniel Alonso (PSDB) já votou. Ele esteve em Brasília/DF, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em evento da sigla, que reuniu os pré-candidatos, governadores, prefeitos e vices, senadores, deputados e dirigentes tucanos.

Eduardo Leite (RS) e João Doria (SP) são os favoritos nas prévias, que têm também governador do Amazonas (Foto: Divulgação)

Em uma foto obtida com exclusividade pelo Marília Notícia, Daniel aparece no palanque do governador João Doria, onde também estava o vice Rodrigo Garcia, com assessores de peso, como o secretário estadual de Desenvolvimento Regional e presidente estadual do PSDB, Marco Vinholi.

Alonso não revelou ao MN o seu voto e se limitou a relatar a participação no evento presencial. “Foi utilizado o sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e não fomos impactados por essa questão do aplicativo. Agora vamos aguardar em relação aos votos on-line”, disse o chefe do Executivo de Marília.

Interlocutores próximos de Alonso explicam que, apesar de usar a prerrogativa do voto secreto, os prefeitos paulistas – que dependem diretamente da relação com o governador em exercício – tendem a apoiar Doria nas prévias.

Por outro lado, o uso da mesma prerrogativa [voto secreto] indica que os tucanos paulistas acreditam que o resultado nacional pode apontar a escolha de Eduardo Leite, com quem ninguém gostaria de se indispor logo na largada.

TUCANOS DE PESO

Em Marília, o governador tem apoio declarado do ex-presidente da Câmara Municipal e atual secretário municipal de Direitos Humanos, Wilson Damasceno. O tucano já foi candidato a deputado pela legenda e tem forte ligação com lideranças estaduais do partido.

Wilson Damasceno, ex-presidente da Câmara, foi candidato a deputado e tem contato próximo com líderes estaduais da sigla (Foto: Marília Notícia/Arquivo)

Entre os atuais vereadores da legenda, também há quem não esconda a preferência. Questionado pelo Marília Notícia em outubro, Eduardo Nascimento revelou apoio a Leite. Já Evandro Galete prefere não se manifestar sobre a escolha.

O presidente do diretório municipal, o servidor público Matheus Panssonato, acredita que Doria deve vencer entre os 62 aptos ao voto na cidade, que conta com 61 filiados que se inscreveram até o dia 15 de novembro para as prévias, além do prefeito Daniel Alonso, que votou em Brasília.

“Internamente, existem as duas campanhas, mas elas estão trabalhando mais por telefone. Muita gente não comenta. Há um certo silêncio e não sabemos como vai terminar, por isso, fica a sensação de que tanto Doria quanto Leite pode sair como o pré-candidato”, afirma Matheus.

O presidente municipal também opta por manter o sigilo do voto, para não influenciar filiados. A expectativa, segundo Panssonato, é que o impasse em torno do aplicativo para sequência da votação seja resolvido o mais rapidamente possível, já que o PSDB acaba “sofrendo desgaste” pelo próprio processo interno. Pior com a demora.

Alguns tucanos ouvidos pela reportagem do MN citam a figura do ex-governador Geraldo Alckmin, que ainda segue no partido e declarou apoio a Eduardo Leite.

Ainda há a possibilidade do antigo tucano permanecer, mas isso vai depender do resultado das prévias. Além do ex-governador paulista, o senador José Aníbal, considerado uma voz relevante no partido – em âmbito nacional -, também se posicionou a favor da pré-candidatura do governador gaúcho, o que gera mais incertezas sobre a “vitória” de Doria dentro de casa.

Eduardo, que também vive conflitos ‘domésticos’ com chefe do Executivo, vota contra o atual governador nas prévias (Foto: Arquivo)

REGIÃO

Além de Marília, onde chegou ao poder com Daniel Alonso, o PSDB tem forte influência em Vera Cruz e Pompeia, onde não governa, mas tem líderes atuantes. São tucanos os prefeitos de Álvaro de Carvalho, Alvinlândia, Gália, Guaimbê e Guarantã.

Para o ex-prefeito de Vera Cruz, Rodolfo Devito, a maioria dos votantes na cidade vai de Doria. O tucano preserva sigilo do seu voto, mas é um crítico da realização de prévias.

“O partido tem mecanismo interno [para escolha de candidatos], em que votam os filiados, compondo o diretório municipal e os delegados estaduais que, por sua vez, elegem o diretório estadual e indicam os delegados nacionais”, justifica o político.

“As candidaturas majoritárias e proporcionais são decididas pelo diretório nacional, junto com os estaduais [diretórios] e os delegados nacionais. É um sistema democrático, que começa na base municipal”, defende.

Para o ex-prefeito, a exposição do partido a uma eleição prévia resulta em disputas acirradas, que “provocam fraturas, muitas vezes não calcificadas”. O risco é o partido ir “rachado para as eleições”.

“É bonito e politicamente correto defender as prévias, mas a teoria é uma coisa e a prática outra. A sociedade, o povo, não está envolvido com essas prévias. Não despertaram [as prévias] o interesse do eleitor. Virou notícia principalmente pelos confrontos entre os pré-candidatos, mostrando ao mundo político, desunião. É diferente dos EUA. Lá existe uma tradição de prévias partidárias”, destaca.

O MN também tentou contato com o médico e coordenador regional do partido, Roberto Borges, o “Tareco”, mas não teve retorno até a publicação desta reportagem.