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Coluna | Você já parou para pensar por que acredita em Deus?

Coluna
27 de março de 2022

Você já parou para pensar por que acredita em Deus? Escrevo aqui especificamente para aqueles que tem algum tipo de fé, seja no Deus cristão ou no de outras religiões. Seja em deuses, no plural, ou simplesmente Ele como uma força da natureza a qual não compreendemos.

Ao longo dos anos essa é uma das perguntas que mais me perturba. Eu acredito em Deus. Em uma mistura na verdade. Acredito em um Deus único, mas que também é uma entidade cósmica, um conjunto de todas as coisas.

Em tese falam que o mais fácil é acreditar em Deus. Ele dá sentido à vida. Aquieta o nosso coração principalmente em relação a morte, que imagino ser a maior dúvida do ser humano. O que vem depois da morte? Para quem tem fé, a resposta está na ponta da língua de acordo com o ensinamento da doutrina que acredita. Como diria Milton Nascimento em ‘Fé cega, faca amolada’: Agora não pergunto mais pra onde vai a estrada.

Não ter fé seria muito mais simples também. Consegue me provar? Se não consegue, não acredito e segue o jogo, correto? Errado, porque a partir disso você também precisa enfrentar a pergunta do sentido. Ok, se Deus não existe, o que estou fazendo aqui?

Mas eu tenho fé. Muito vacilante, é bem verdade, e confesso que isso se torna pior do que não acreditar em nada e muito pior do que a fé cega, infelizmente. Eis o maior mal filosófico: a fé vacilante. Por qual motivo eu acredito em Deus? Por que esse sentimento está enraizado em mim? Seria medo da punição?

Friedrich Nietzsche, filósofo alemão ateu e que fez diversas críticas demolidoras da religião, tem uma explicação para isso. Muito resumidamente ele diz que nosso sentimento de culpa, de compromisso pessoal, teve origem na mais antiga e primitiva relação pessoal que existe, na relação entre comprador e vendedor, credor e devedor. Segundo ele, foi então que, pela primeira vez, houve o confronto pessoa a pessoa, mediu-se uma pessoa com outra.

Essa relação deu origem ao acontecimento das dívidas, que quando não eram pagas, aplicava-se um castigo. A dívida e o consequente castigo geram ao devedor uma espécie de consciência de culpa e medo ao mesmo tempo.

Ainda para Nietzsche, a história mostra que a consciência de dívidas para com a divindade não se extinguiu nem mesmo após a decadência do tipo de organização de “comunidade” baseada no parentesco sanguíneo; da mesma maneira que a humanidade herdou os conceitos “bom” e “mau” da nobreza ancestral (junto com a tendência psicológica básica de estabelecer hierarquias), recebeu também, como herança das divindades de estirpe e da tribo, a pressão das dívidas não pagas e o desejo de resgatá-las.

Mas como se paga uma dívida impagável ao longo de milhares de gerações? É aí que está o pulo do gato.

O surgimento do Deus cristão, por exemplo, o deus máximo alcançado até agora, resultou por decorrência desse máximo do sentimento de culpa na Terra, segundo Nietzsche.

A humanidade torturada encontrou alívio temporário: Deus sacrificando a si próprio pela culpa do homem, o próprio Deus pagando a si próprio, Deus como criatura única capaz de redimir o homem daquilo tornado irredimível para o próprio homem– o credor se sacrificando por seu devedor, por amor.

Faz sentido essa crítica? Faz. Eu consigo não acreditar em Deus por isso? Não. Ó fé vacilante que me atormenta.

Sócrates, filósofo grego, falava que o início da sabedoria é admitir a própria ignorância. Bom, isso eu já fiz faz tempo. Como lidar como a infinidade de saber que quero conquistar agora? E como conquistar tudo isso? Sei que não terei 0,001% do saber em toda minha vida e busco atualmente a solução para essa perturbação.

Acabei me propondo recentemente a ler boa parte das doutrinas de fé e muita filosofia, para ver se ao longo dos anos encontro essa paz. Sigo com a Bíblia e alguns filósofos no momento. Por enquanto, minha calma e resiliência residem na esperança de que o sentido da vida, o sentido da existência, está justamente no caminho e não na chegada.

Até o final vou retomando Nascimento e Ronaldo Bastos. ‘Deixar a luz brilhar no pão de todo dia. Deixar o seu amor crescer na luz de cada dia. Vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai ser muito tranquilo”.

E você, caro leitor e estimada leitora? Acredita em Deus? Sabe o real motivo ou nunca fez uma reflexão mais profunda? Me conte nos comentários e até a próxima.