“Assumimos uma estrutura antiga e com alto índice de perdas”, diz engenheiro da RIC

A concessão dos serviços de água e esgoto em Marília segue cercada de debates sobre investimentos, perdas na rede e os desafios herdados do antigo sistema público.
Em entrevista ao Marília Notícia, o engenheiro da RIC Ambiental, Júlio Fagundes Neves, afirmou que a empresa assumiu uma estrutura defasada, com redes antigas, alto índice de vazamentos e necessidade urgente de modernização.
Segundo o engenheiro, a concessionária pretende substituir cerca de dois terços da rede de abastecimento da cidade nos próximos anos, além de investir em novas tecnologias, setorização do sistema e ampliação da captação de água, especialmente por meio de poços ligados ao Aquífero Guarani.
Ele também destacou que a operação ainda funciona no vermelho e depende de aportes dos acionistas para cumprir o cronograma previsto no contrato de concessão.
Durante a entrevista, Júlio comentou ainda sobre o combate às fraudes, as metas de universalização do saneamento até 2033 e as principais obras em andamento, como a revitalização do sistema Rio do Peixe e a conclusão do Poço Figueirinha, na zona norte de Marília.
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MN – Vocês encontraram uma estrutura do Daem muito complicada quando assumiram o serviço? Houve alguma surpresa?
Júlio – Não houve surpresa. Sabíamos exatamente o que estávamos assumindo, porque realizamos um estudo prévio detalhado desde o início das discussões sobre a concessão. Eu vinha de uma empresa parceira da Replan, e assessoramos a companhia em uma avaliação criteriosa do sistema. A estrutura era antiga, algo comum em muitas cidades, mas a tecnologia de saneamento evoluiu muito nos últimos 35 ou 40 anos, com painéis de controle, bombas e válvulas modernas, que têm custo elevado.
MN – E por que ocorreu essa defasagem estrutural ao longo dos anos?
Júlio – Como o serviço esteve muito centralizado nas mãos do poder público, acabou sendo usado para garantir simpatia popular, no chamado populismo tarifário. Cobrar pouco e manter, por exemplo, fontes de água gratuita espalhadas pela cidade tem custo. Essa água vem de poços, exige extração e tratamento, mas era contabilizada apenas como perda física ou administrativa. O saneamento foi subestimado politicamente ao longo dos anos porque é uma obra que não aparece; ela apenas é sentida. Muitas vezes, os gestores preferiam investir em pontes ou escolas.
MN – A questão das perdas na rede é considerada grave. Qual era o cenário encontrado e o que está sendo feito?
Júlio – O Plano Diretor de Água e Esgoto estimava cerca de 60% de perdas em Marília. Existem redes com mais de 40 anos e ramais individuais de dois ou três metros que chegam a ter quatro ou cinco remendos. A maior parte das perdas está justamente nessas conexões. Para piorar, a rede opera com pressão muito alta devido ao relevo da cidade. A água captada no Rio do Peixe, por exemplo, precisa ser bombeada cerca de 300 metros acima. Quanto maior a pressão, maior o número de vazamentos. Começamos atacando as regiões com mais reclamações de falta d’água e vazamentos, como Santa Antonieta e Palmital. A expectativa é reduzir as perdas em cerca de 10% já no primeiro ano de operação completa, entre janeiro e dezembro de 2025.
MN – Antigamente, para consertar um vazamento, era necessário desligar a água de bairros inteiros. Existe planejamento para setorizar a rede?
Júlio – Sim. Ao longo dos anos, não foi implantada a chamada macromedição, que consiste na instalação de medidores de vazão para dividir a rede em setores. Sem essa setorização, qualquer reparo provoca desperdício de água e afeta muitas pessoas. Com as melhorias, conseguiremos fechar apenas o trecho onde existe o problema, de forma pontual, permitindo um retorno mais rápido do abastecimento. Os investimentos nos próximos oito anos serão pesados justamente para reorganizar o sistema e atingir a meta de universalização prevista no marco regulatório até 2033.

MN – Falando em investimentos, quantos meses de concessão já se passaram? Como está a situação financeira?
Júlio – Estamos no 19º mês de concessão, ainda no começo da operação. Perdemos cerca de um ano por causa de intervenções, questionamentos da gestão municipal e insegurança jurídica, mas hoje a situação está pacificada junto ao gabinete do prefeito. Financeiramente, assumimos uma operação deficitária do Daem. Atualmente, a RIC Ambiental opera no vermelho e ainda não registra lucro. Os investimentos estão sendo mantidos por aportes dos acionistas para garantir o cumprimento da proposta técnica e do contrato. Nos primeiros oito anos, a previsão é continuar operando no vermelho, para só depois iniciar a amortização dos investimentos, o que justifica o prazo longo da concessão, de 35 anos.
MN – O que está sendo feito para modernizar efetivamente a rede de distribuição?
Júlio – Vamos substituir cerca de dois terços da rede de abastecimento de Marília. Estamos trocando redes antigas de PVC e até algumas de amianto por PEAD, o Polietileno de Alta Densidade. Esse material é muito mais flexível, e as tubulações chegam em rolos de até 100 metros, enquanto o PVC antigo vinha em barras de no máximo seis metros. Isso reduz drasticamente o número de conexões e, consequentemente, as perdas.
MN – Qual é hoje a obra considerada mais urgente?
Júlio – A principal é a revitalização do sistema Rio do Peixe, responsável pelo abastecimento de cerca de 50% da cidade. Precisamos realizar uma obra de sedimentologia para lidar com a areia que danifica as bombas a cada quatro meses. Também será necessário regularizar a barragem para aumentar a lâmina d’água e ampliar a outorga. Já iniciamos a revitalização da Estação de Tratamento de Água (ETA) Cascata e estamos programando melhorias permanentes na ETA Rio do Peixe.
MN – Houve uma discussão recente sobre a barragem do Ribeirão dos Índios, na zona norte. O que foi definido?
Júlio – Ficou entendido que utilizar aquela água seria inviável diante do alto custo de recuperação da estrutura e do baixo volume disponível, além do risco constante de estiagem. Em vez disso, optamos pela perfuração do Poço Figueirinha (PG9), ligado ao Aquífero Guarani. É um investimento de quase R$ 25 milhões que deve resolver o abastecimento da zona norte, oferecendo volume maior e mais estável. Tivemos um pequeno problema com presença de areia na parte final do poço, mas a expectativa é colocá-lo em operação nos próximos 90 dias.
MN – O Aquífero Guarani é considerado a principal solução para a cidade?
Júlio – Sem dúvida. O Aquífero Guarani é um enorme reservatório subterrâneo que se estende do Mato Grosso até a Argentina. Para Marília, que sofre frequentemente com estiagens severas, explorar esse aquífero representa um futuro muito promissor. A operação é complexa, e os custos com energia elétrica são elevados, tanto que buscamos alternativas no Mercado Livre de Energia, mas é um privilégio do qual dependemos. Inclusive, o Poço 8 (PG8), em Lácio, na zona sul, já está operando e injetando mais de 200 mil litros por hora no sistema, ajudando também a abastecer a zona leste.
MN – Em relação ao esgoto, qual é a responsabilidade da concessionária e como funcionam as tarifas?
Júlio – O esgoto costuma receber menos atenção que a água, mas o tratamento é muito mais caro. Na água, parte do trabalho já é feita pela natureza, e utilizamos cloro e floculadores. O esgoto precisa ser coletado, transportado, tratado e devolvido ao meio ambiente dentro dos padrões adequados. No Brasil, o mais comum é cobrar 100% da tarifa de água pelo serviço de esgoto, mas em Marília cobramos 75%, porque o ciclo completo ainda não atende toda a cidade. Do ponto de vista operacional, o ideal seria algo em torno de 150%, mas estamos trabalhando com transparência enquanto ampliamos a coleta e o tratamento.
MN – A concessionária também enfrentou problemas com ligações clandestinas e fraudes?
Júlio – Sim. Estamos combatendo fortemente as fraudes e os cortes burlados, porque isso representa perdas físicas e financeiras importantes para o equilíbrio do sistema. Ao mesmo tempo, mudamos nossa abordagem com a população. Hoje chamamos o munícipe de cliente, e não de contribuinte, porque água não é imposto; é serviço. Mais de 90% dos nossos colaboradores são marilienses, então conhecem a cultura local e as demandas da cidade. Temos uma média de 30 mil atendimentos por mês, sendo mais de 10 mil pelo WhatsApp, além das redes sociais. Também vamos lançar o projeto “RIC Itinerante”, com tendas nos bairros para facilitar atendimentos e atualização de cadastros.
MN – Como vocês lidam com as reclamações da população nas redes sociais?
Júlio – Para nós, reclamação é oportunidade de melhoria. Comentários negativos não assustam; respondemos a todos. Se recebemos 60 avaliações positivas e 10 críticas, consideramos um resultado positivo e buscamos contato direto com quem reclamou para resolver cada situação. No Reclame Aqui, somos a única concessionária de água com reputação verificada e já alcançamos nota 6,3 em menos de um ano.
MN – Por fim, qual é o impacto da entrada da iniciativa privada nesse setor e qual o principal objetivo da RIC em Marília?
Júlio – A iniciativa privada traz mais liberdade operacional e compromisso com eficiência, algo que muitas vezes a burocracia pública dificulta. Antigamente, o Daem levava meses para licitar uma simples bomba de água. Marília foi a primeira cidade do país a licitar o saneamento dentro das regras do Novo Marco do Saneamento, pela Lei 14.026/2020, e da nova lei de licitações. Nosso compromisso é muito sério. Queremos antecipar a meta de universalização prevista para 2033 e colocar Marília entre as cidades com os melhores serviços de saneamento do país. Assim como a cidade se orgulha do Bradesco, da Latam, da Marilan e da Dori, queremos que a RIC Ambiental também seja reconhecida pelos marilienses como uma empresa que gera orgulho para a cidade.