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O mercado bilionário liderado por um livro genuinamente brasileiro

Coluna
27 de janeiro de 2022

Ainda que possa parecer estranho para muita gente, principalmente às pessoas que não têm identidade com a leitura, os livros são frutos de uma indústria. Assim como o cinema, fonte geradora de empregos e negócios através da linguagem cinematográfica, a literatura alimenta uma cadeia produtiva e requer serviços de profissionais e empresas especializados.

O escritor, por exemplo, antes de iniciar a elaboração de sua obra – que pode ser um romance épico, um livro de contos, uma biografia ou uma produção literária de qualquer outro gênero – desenvolve pesquisas, estrutura a profundidade de seus personagens e cria tramas que irão dar suporte para o enredo. Pensa na mensagem que deseja transmitir com todo o conjunto de palavras e criações.

Depois da obra concluída, chega-se à fase de revisão, edição e preparação deste material. E, assim, segue-se um processo que vai ser concluído com os livros nas prateleiras das livrarias ou nas páginas das lojas virtuais. Por exemplo, até que “Segundos afora”, de Martin Kohan, chegasse às minhas mãos nesta quarta-feira (26), ao preço de R$ 15, a editora que o publicou – Companhia das Letras – teve todo este trabalho e, como se trata de um livro traduzido do espanhol para o português, além do trabalho original de Kohan, entrou em cena a tradução da obra.

No caso, coube à tradutora Heloísa Jahn verter “Segundos afuera” em “Segundos afora”. Também pode parecer inacreditável que num país cuja taxa de analfabetismo funcional é assustadora, o livro represente um mercado bilionário. Pois é, justamente isso e podem acreditar.

Dados divulgados pelo Sindicato Nacional dos Editores, com base no levantamento da agência Nielsen Bookscan, mostram que no ano passado foram comercializados em todo o território nacional 55 milhões de livros, o que gerou R$ 2,28 bilhões em volume financeiro. Livros de negócios e autoajuda predominaram.

Mas aqui, outro ponto deve ser exaltado e mencionado: o mercado bilionário do livro, em 2021, não foi liderado por um autor de língua estrangeira. E nem por campões de vendas, como o brasileiro Paulo Coelho – cuja estreia literária, na década de 1980, deu-se na companhia do jornalista mariliense Nelson Liano Júnior.

Quem liderou as vendas em 2021 foi um romance genuinamente brasileiro, nascido a partir das vivências de Itamar Vieira Júnior, que percorreu parte do Nordeste brasileiro antes de dar vida ao seu magnífico “Torto arado”. O romance esteve no topo das listas de mais vendidos.

Outros livros que foram comercializados com vigor, segundo os dados da Nielsen Bookscan, saíram da lavra de um autor inglês muito querido pelos brasileiros: George Orwell. “1984”, de Orwell, que deu origem ao termo “Big Brother”, e “Revolução dos bichos”, uma metáfora dos regimes totalitários, estiveram no top 10 das obras literárias mais consumidas em 2022. “Cem anos de solidão”, de Gabriel Garcia Márquez, e “O sol é para todos”, de Harper Lee também alcançaram cifras expressivas com suas respectivas vendas.

O consumo de livros cresceu 30% com relação a 2020, o que mostra que os brasileiros estão se tornando mais acessíveis ao mundo da leitura. E para encerrar a crônica desta semana, reproduzo uma frase muito conhecida de Monteiro Lobato, um dos primeiros empresários do mercado editorial brasileiro e autor do “Sítio do Pica-pau Amarelo”: “Uma nação se faz com homens e livros”. E se estes livros forem de autores brasileiros, melhor.