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O escritor proibido teria discursado em Marília?

Coluna
30 de setembro de 2021

Digamos, que, Orígenes Lessa não foi em suas longevas vida e carreira literária assim, tão proibido. “O escritor proibido” é o título de seu primeiro livro que, por sinal, foi publicado há mais de 90 anos. Saiu exatamente no ano em que Marília se tornou município, em 1929.

Lessa nasceu, praticamente na nossa região, em Lençóis Paulista, pertinho de Bauru. Quando estava ali com seus três anos ou mais, a família migrou para o Maranhão. É, por força do talento e imensidão literária de Orígenes Lessa, que Lençóis Paulista se tornou conhecida como Cidade do Livro.

Nos anos de 1980, me parece, houve um movimento na cidade para, digamos, repatriar Orígenes. O escritor, já consolidado como imortal da Academia Brasileira de Letras e uma das grandes mentes do pensamento brasileiro – com atuação diversificada no Jornalismo, na Publicidade e na Literatura – vivia no Rio de Janeiro.

Recordo que, certa vez, conversei com um jornalista que, quando criança, conheceu Orígenes. Lessa teve uma produção diversificada, inclusive escrevendo para o público infantil. Algo realmente muito especial na lavra de um autor. Escrever para criança é muito difícil. José Saramago se arriscou pouco neste campo, mesmo ele sendo um Nobel: “A maior flor do mundo” e “O lagarto”, apenas.

Este jornalista que me revelou ter estado pessoalmente na casa de Orígenes Lessa, no Rio de Janeiro, achava que ele fora escritor só de crianças. Isso porque ele havia lido uma história infantil do autor de Lençóis Paulista sobre algo que acontecera no mundo do alfabeto, se não me engano.

Conheci Orígenes Lessa pelo “O feijão e o sonho”. Mas, depois, descobri que na Biblioteca de Marília havia um exemplar da primeira edição de “O escritor proibido”. Por sinal, a grafia de proibido era ainda das antigas: prohibido.

Li os contos que formavam esta primeira fase de Lessa e não tive como não ficar atraído pelas palavras e pela ficção praticada por ele. “Garçom, garçonnete e garçonniere”, conto de 1930, está entre os meus contos preferidos. Outra narrativa curta marcante de Lessa é uma história baseada na vida do pai dele.

Hoje muito se fala em autoficção, algo que, a grosso modo, pode-se dizer de um misto de relembrar coisas da nossa vida com muitas pitadas de ficção. A prática é do ser humano e não exclusiva da Literatura, pois quem conta um conto, geralmente, aumenta um ponto. E se tratando da própria história, muitas vezes o narrador adequa o discurso ao momento e a plateia.

Outro dia um historiador me contou que o então presidente Jânio Quadros, quando se dirigia aos trabalhadores usava um tom e uma fala, mas ao discursar para os industriais e empresários, o jeito era outro. Também costumava pedir para que alguém o segurasse pelo braço quando saía do carro. Perguntado o motivo, Quadros teria revelado que era para dar a impressão de que estaria com vertigens e assim ganharia a empatia do público.

Mas, voltemos ao Lessa. Neste conto, de autoficção, Orígenes detalha um pouco da lida de seu pai, grande pastor evangélico. Ainda não obtive esta confirmação, mas estou à procura da confirmação de que Lessa teria feito um discurso aqui em Marília numa homenagem ao seu pai, o presbiteriano Vicente Themudo Lessa. Caso alguém saiba algo sobre esta passagem do escritor proibido por aqui e queira compartilhar comigo, ficaria muito agradecido em ouvir a história.