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O anjo de Hamburgo e o letrado de Cordisburgo

Coluna
23 de dezembro de 2021

Depois que termina ‘A lista de Schindler’, longa dirigido por Steven Spielberg e lançado em 1993, aparecem os sobreviventes e descendentes dos judeus que foram salvos por Oskar Schindler. O alemão era um empresário interessado, em um primeiro momento, nos lucros com os negócios gerados pela 2ª Guerra Mundial. Mas, depois que as atrocidades perderam o controle sob o comando do Terceiro Reich, Oskar altera seus propósitos e se torna, secretamente, um defensor dos direitos dos judeus.

Schindler, na visão de Spielberg, é nos apresentado como um novo José de Arimatéia – o afortunado cristão que teve permissão, após estabelecer interlocução com o governo da Judéia, de sepultar o corpo de Jesus Cristo.

O nome de Schindler está na chamada Avenida dos Justos, em Jerusalém. Quando soube desta informação fiquei curioso para descobrir se algum brasileiro configurava na Avenida dos Justos e, por orgulho de qualquer cidadão deste país, lá está o nome de uma brasileira: Aracy de Carvalho.

A partir desta informação, soube, então que Aracy de Carvalho foi a segunda esposa de João Guimarães Rosa, o escritor de “Sagarana” e “Grande Sertão: Veredas”. Aliás, é para Aracy que ele dedicou a epopeia de Riobaldo e Diadorim nos Gerais do nosso Brasil.

Recentemente, começou uma minissérie inspirada na vida de Aracy, “Passaporte para a liberdade”. O capítulo que assisti nesta semana reproduziu a chamada “noite dos cristais”, quando as tropas nazistas – arrogantes e violentas – acabaram com sinagogas e com o comércio que eram tocados pelos judeus em Hamburgo.

Aracy, também chamada de “O anjo de Hamburgo”, auxiliou na emissão de vistos para judeus que precisavam de asilo ou proteção no Brasil. Por tal cooperação, a brasileira obteve o título de Justa, o mesmo concedido a Oskar Schindler. Aracy recebeu a comenda em 1982.

A diplomata brasileira, que era nascida em 1908 – mesmo ano em que nascera Guimarães Rosa – faleceu em 2011. Em Hamburgo, conhecera o médico e diplomata que viria a revolucionar a Literatura Brasileira com seus contos e romances que se passavam nas Minas Gerais de um tempo remoto.

Guimarães faleceu em 1967, poucos dias após assumir a então aguardada cadeira da Academia Brasileira de Letras (ABL). O escritor tinha mal presságio sobre sua entrada à Casa de Machado de Assis, sabia que alguma coisa lhe aconteceria e, portanto, adiou sua posse por uns quatro anos.

O letrado de Cordisburgo também cooperou para que judeus embarcassem a salvos para o Brasil naquele tempo de exceção que a Alemanha viveu. A sintonia com o anjo de Hamburgo foi tamanha, que Guimarães sempre aparece nas primeiras páginas de “Grande Sertão” ao seu lado. Assim, a Literatura imortalizou duas almas que propagaram a Justiça e a Paz.