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100 dias para as eleições

Coluna
28 de junho de 2022

Polarizar, no sentido mais puro do termo, significa atrair. Atrair, socialmente falando, está para querer atrelar-se com aquilo que lhe é de interesse. Contudo, e sobretudo desde as eleições de 2018, parece que há um novo sentido vigente para a polarização, que não é só o de votar neste ou naquele partido ou candidato, mas também o de gastar uma certa energia para defenestrar a oposição. Ou seja, o que há hoje entre muitos de nós é a forte impressão que polarizar está mais para a experiência do afastamento repulsivo provocado por um polo, do que propriamente a atração pelo outro.

Sobre a obviedade dos polos que mais acirradamente desenham a situação política do país, pelo menos até outubro, formam-se numa explícita briga. De um lado, a situação é liderada pelo presidente Jair Messias Bolsonaro, atualmente do Partido Liberal, mas que desde a crise do governo Dilma foi considerado o político que melhor personificou e capitalizou o ódio contra a esquerda, e mais particularmente contra o PT. O poder do presidente de gerar esta ojeriza é tão grande que, não raro, e mais ainda nos anos do impeachment pra cá, foi um pequeno rol de bordões políticos contra a esquerda que ajudaram a forjar a identidade do governo: “no meu governo não tem corrupção”, pois, corrupto era o governo do PT, ou “a família do Lula enriqueceu por causa da corrupção”, pois, a minha família é ilibada, ou “a roubalheira do PT afundou o país”, por isto que o país vai mal e etc.… Algo mais ou menos, diz a bíblia, como um bode expiatório.

A oposição, por sua vez, é liderada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que, surpreendendo a maioria dos cristãos, vinculou-se a um dos seus clássicos antagonistas, Geraldo Alckmin. A narrativa atual do ex-presidente não é exatamente aquela mais sindicalista e palanqueira das campanhas pretéritas de Lula a partir de 1989, e não apenas devido aos calos da experiência de ter perdido a última eleição, mas outrossim por tentar agora uma tessitura de influências mais aberta que tange desde da massa proletária mais pobre do país, até os empresários que, bem ou mal, têm a capacidade de gerar uma sensível quantidade de empregos. Curiosamente, embora seja nítida esta mudança de discurso do ex-presidente para um modelo mais prazenteiro, segundo o número das últimas pesquisas, a parte do povo que mais vota na oposição é como sempre o povo mais pobre.

Neste ínterim há ainda uma tentativa aparentemente frustrada de construir uma terceira via, nome razoavelmente infeliz para aqueles eleitores que não veem nem em Bolsonaro nem em Lula nada muito alvissareiro, e apoiam seus votos no que politicamente identifica-se como “centro”. Ciro Gomes do PDT e Simone Tebet do MDB, então, somam juntos algo em torno de 9% das intenções de voto, saindo na frente apenas de um emaranhado de outros dez candidatos que se aglomeram em torno de 2% das intenções. Quer dizer, ao que tudo indica por enquanto estamos presos aos polos.

Claro que, algo que todos do jogo político sabem, é que se há uma quantidade enorme de variáveis que podem levar os eleitores para um lado ou outro na hora da urna, eletrônica e auditável, o melhor termômetro para ir sentindo a febre política do país é e sempre será a economia. Mais particularmente, dois elementos da economia, o emprego e a inflação. Ou, melhor, o emprego e a inflação no ano eleitoral. A economia é uma área do saber relativamente nova, quando apresentada na forma de ciência tem grosso modo, uns dois séculos. Porém, sua importância é descomunal, pois, é ela que toca nas partes mais delicadas da vida social quando está objetivamente ocupada com a formação e a distribuição da riqueza, a organização da escassez e com o trabalho. No Brasil, por exemplo, é na economia que as pessoas mais comuns sentem a dificuldade no preço galopante dos combustíveis, no aumento do valor da cesta básica, na adequação entre o orçamento familiar e as demandas domésticas, no endividamento ou no pagamento de juros altos.

Há 100 dias das eleições aproximadamente, as pesquisas em geral apontam para um pouco mais da metade da população inclinada a votar no Lula que, se mantiver a vantagem que tem sobre Bolsonaro, pode ser eleito no primeiro turno. É óbvio que é cedo e irresponsável falar em resultados, se nesta disputa ainda existem jogadas que ainda não foram feitas e que podem mudar a organização do tabuleiro.

No entanto, se fosse dar palpites, diria que a campanha do Bolsonaro se apoiará numa comparação entre o Brasil e outros países latino americanos, para construir uma narrativa que não nos saímos tão mal na pandemia quanto a mídia esquerdista diz, isso tudo atrelado à manutenção de valores e costumes conservadores. Já a campanha de Lula comparará, provavelmente, o êxito econômico dos seus governos com os últimos anos deficitários, ganhará frente ampla nas pautas identitárias e com a população mais carente, e explorará a contradição do discurso de governo sem corrupção com o caso do ex-ministro Milton Ribeiro e seu conluio de pastores.

Millôr, enfim, resumiu bem: na política nada é mais velho do que o novo.