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Curricularização da Extensão

Coluna
17 de novembro de 2021

A Resolução nº 7, de 18 de dezembro de 2018, do Conselho Nacional da Educação, estabeleceu as Diretrizes para a Curricularização da Extensão Universitária (DCEU) e fixou o prazo de 03 (anos) para que as instituições de ensino superior promovessem a sua implantação.

Visando aprofundar-me no estudo do tema, dediquei o meu doutorado, realizado na UNESP de Marília, para analisar a referida Resolução e a curricularização da extensão. Foi apresentada a seguinte hipótese da pesquisa: a política de curricularização da extensão universitária representa um processo histórico de amadurecimento conceitual operacional da extensão universitária como atividade acadêmica integradora do ensino e da pesquisa em mão dupla com a comunidade externa, que potencialmente contribui para o redimensionamento das práticas voltadas para o aprimoramento da aprendizagem e do currículo, na perspectiva da produção e disseminação do conhecimento pluriversitário.

O estudo do Estado da Arte sobre a extensão universitária no Brasil indicou que este pilar do tripé educacional não goza de prestígio acadêmico no âmbito dos periódicos qualificados na Área de Educação da CAPES, tanto que inexistem periódicos no estrato mais elevado (Qualis A), bem como não há um número significativo de teses e dissertações que versam sobre o tema. Apesar disso, pesquisa que realizamos nos Planos de Desenvolvimento Institucional das Universidades filiadas aos Fóruns Nacionais de Extensão identificamos um certo avanço e conquista de destaque da extensão universitária nestes documentos, pois parte destas Universidades já preveem, inclusive, a curricularização da extensão universitária nas matrizes pedagógicas dos cursos de graduação, demonstrando o mencionado amadurecimento conceitual operacional.

Nesse ponto, defendemos ser necessária a elaboração de uma divisão na história da extensão universitária, considerando as características prevalentes em cada uma das fases, que seriam sete: 1) Formação política (Brasil Colônia até 1930); 2) Assistencialismo (1930-1968); 3) Normatização (1968-1988); 4) Constitucionalização (1987-1988); 5) Amadurecimento conceitual (1987-1990); 6) Diversificação de representação institucional (1990-2010); e 7) Curricularização (a partir de 2010).

Assim, a trajetória da extensão universitária foi reconstruída, vivenciando seu processo de amadurecimento histórico, diversificação de representação institucional, até chegar na atual política de curricularização. Este percurso deve ser valorizado, pois a nossa extensão universitária tem inspiração e características advindas do modelo latino-americano e aproximando-se das práticas de caráter emancipador defendidas na América Latina, em especial da forma adotada pelo Manifesto de Córdoba. Além disso, nossa extensão universitária experimentou grande influência dos Fóruns Nacionais de Extensão e inspira o compromisso social das IES, apesar de também reconhecemos que universidade acaba atuando como uma instituição prestadora de serviços, por inspiração do modelo norte-americano.

Esse amadurecimento, contudo, não tem se dado de forma linear e sim de forma cíclica, com avanços e retrocessos, razão pela qual se verificou a necessidade de que as atividades de pesquisa, ensino e extensão se retroalimentem a fim de viabilizar a curricularização da extensão universitária.

A partir dos referenciais teóricos metodológicos que influenciaram o direcionamento da tese, concluímos que a extensão universitária deve passar a ocupar posição de destaque no tripé acadêmico das Universidades, a fim de que elas possam produzir e disseminar conhecimento pluriversitário.

Essa mudança de paradigma deve se iniciar pela realização de um diagnóstico que permita identificar em que sociedade a universidade está inserida e quais os problemas dessa sociedade. Após identificar a sociedade e seus problemas por meio desse olhar para fora, a Universidade, em seguida, deve realizar um olhar para dentro, a fim de reconhecer a sua vocação institucional, bem como a identidade dos cursos por ela mantidos, inclusive com o perfil dos egressos que pretende formar. Em seguida, os membros dos Núcleos Docentes Estruturantes e dos Conselhos de Curso, bem como os demais professores e alunos devem dialogar sobre tais temas, a fim de construir as linhas de extensão da Universidade e elaborar os programas e projetos de extensão que deverão ser curricularizados em cada um dos cursos, com sua inclusão na matriz curricular.

Essa inclusão, contudo, deve partir de uma reformulação curricular, que permita a substituição de aulas teóricas por programas e projetos de extensão que visem solucionar problemas concretos da sociedade na qual está inserida a Universidade.

Entendemos, portanto, que não basta que seja realizado um mero rateio curricular, com a simples alocação de 10% de atividades de extensão na matriz curricular, pois essa medida, apesar de atender formalmente as DCEU, não permite que os seus objetivos sejam cumpridos e que efetivamente a universidade atue de forma integrada com a sociedade, produzindo um conhecimento pluriversitário que permita retroalimentar as atividades de ensino e pesquisa, num círculo virtuoso que lhe garanta o cumprimento de seus principais objetivos. Assim, o referido percentual deve ser adotado como patamar mínimo e mero referencial, não impedindo que no caso de algumas universidades e cursos esse percentual seja amplamente superado, com a alocação de atividades extensionistas na maior parte dos créditos da matriz curricular.

O próximo passo é a capacitação dos professores que ficarão responsáveis por orientar (e não supervisionar) os alunos na realização das atividades extensionistas previstas na ementa das disciplinas, a fim de cumprir os objetivos previstos nos documentos institucionais e com isso formar um egresso que esteja apto a enfrentar os desafios de seu tempo, na sociedade na qual ele está inserido.

Entendemos, ainda, que a melhor forma de convencer coordenadores, professores e alunos a participarem desses programas e projetos é incluindo-os na sua construção, favorecendo o protagonismo dos alunos e demonstrando que somente assim a Universidade conseguirá produzir conhecimento pluriversitário e torná-lo acessível. É preciso, portanto, ressignificar a relação de ensino e aprendizagem, para que ela beba de uma fonte real, pois as principais universidades do futuro serão aquelas com maior capacidade para resolverem problemas reais.

É claro que entendemos que não existe um roteiro único, pré-determinado e linear, pois, de acordo com o referencial teórico adotado, defendemos que é imprescindível que a curricularização da extensão universitária seja discutida e rediscutida a todo momento, pois sua agenda ora será influenciada por atores internos, ora por autores externos, que também afetarão, inclusive, a efetiva aplicação do currículo que, como demonstramos, não é um documento único, mas um processo.

Mais que simplesmente cumprir a legislação imposta, a tese elaborada demonstrou que é necessário um resgate da inspiração que a extensão universitária teve no início com as experiências latino-americanas, levando este pertencimento para dentro da comunidade acadêmica, e a partir daí cada universidade, através de seus cursos de graduação, deve construir uma trilha de aprendizagem com significados que permitam a todos desenvolver suas potencialidades.

Assim, a curricularização da extensão universitária é uma grande oportunidade para que as universidades possam se legitimar nas comunidades nas quais estão localizadas, em especial para que, no futuro, juntas universidade e comunidade, possam enfrentar os desafios e obstáculos que a atualidade impõe.

 

P.S. Para aqueles que querem estudar melhor o tema, recomenda a leitura de meu livro: “A Extensão Universitária e sua Curricularização”, publicado pela Editora Lumen Juris.