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Facebook Horizon se inspira em Minecraft para criar ‘espaço social’

Tecnologia
30 de setembro de 2019

Mark Zuckerberg, presidente executivo do Facebook, disse várias vezes ao longo dos últimos dias que imagina que as tecnologias de realidade virtual (VR) e realidade aumentada (AR) podem ser o futuro das plataformas de computação. Como ele também é dono de uma rede social, é difícil imaginar que esse futuro não contenha um espaço para as pessoas conversarem com hologramas de seus amigos. Enquanto esse futuro ainda não vem, o Facebook já começou a testar como pode ser essa interação no presente, ao anunciar a criação do Facebook Horizon – um espaço virtual para os usuários dos óculos de realidade virtual de hoje em dia.

Revelado nesta quarta-feira, 25, e previsto para chegar ao mercado, ainda em modo de testes, no início de 2020, o Facebook Horizon permitirá a seus jogadores interagir, bater papo, jogar e criar até seus próprios “mundos”. Na última semana, a reportagem do Estado teve acesso a uma primeira demonstração da ferramenta, que ainda está em desenvolvimento pela empresa de Menlo Park.

A parte inicial da experiência, já com os Oculus Quest na cara e dois controles na mão, se resumiu a passear um pouco por Skyway, uma espécie de “praça da matriz”, sem coreto, do Facebook Horizon. Ali, será possível conhecer pessoas, encontrar os amigos e também se teletransportar para um jogo ou mundo diferente – algo semelhante ao OASIS, espaço central de realidade virtual do livro e filme Jogador Número Um, uma das principais inspirações da Oculus, a divisão de realidade virtual e aumentada do Facebook.

Robôs gigantes, avatares e guias humanos

Alguns desses mundos poderão ser criados pelos usuários: além de ter espaços que o próprio time do Facebook criou, haverá uma ferramenta para criação de universos com regras particulares. Nada muito diferente do que já foi feito por games como Minecraft, que revolucionou o mercado ao permitir que cada jogador construa prédios, espaços e até mesmo mundos com leis específicas – já houve até quem usasse o jogo da sueca Mojang, hoje nas mãos da Microsoft, para testar experimentos sem gravidade ou desafiando a física moderna.

O primeiro dos três jogos que foi possível testar na demonstração foi justamente construído com o criador de universos do Facebook: uma arena de batalha para robôs gigantes, inspirada em filmes como Círculo de Fogo. A dinâmica é simples: dois jogadores, um de cada lado, usando suas mãos (e controles) para desferir socos no outro robô, até o nocaute – conquistado em menos de meio minuto pelo Estado contra o funcionário do Facebook que guiava a experiência. Sim: havia um guia humano conduzindo a experiência.

“Não é uma inteligência artificial: haverá um time do Facebook dedicado a mostrar o espaço para os novos usuários, ao vivo”, diz Eric Romo, diretor de produto de experiências VR no Facebook. “Nem todo mundo vai precisar de um passeio completo, mas pode querer uma dica do que fazer ou conselhos sobre como agir.” Importante: para o usuário que se sentir intimidado ou perceber algum comportamento esquisito no Horizon, é possível denunciar o problema com menos de três cliques nos controles. “Não podemos prevenir todas as situações desconfortáveis, então por isso temos a ferramenta de segurança”, explica Romo.

A ideia é que o usuário se sinta mesmo em um ambiente “confortável” para se expressar – ou como disse Zuckerberg durante a coletiva de abertura da Oculus Connect, a experiência terá “avatares diversos e ferramentas sociais do Facebook, em um local seguro e convidativo para todos”. No teste realizado pelo Estado, não foi possível personalizar um avatar, mas apenas utilizar um dos que já estavam prontos, porém. E por enquanto, um aspecto curioso envolve os personagens virtuais, com cara de desenho animado: nenhum deles têm calças, apenas camisetas que flutuam pelo espaço. Nada demais em um universo mais cartunesco, mas ainda assim engraçado.

Sem monetização e assíncrono, Horizon não substituirá o Facebook

Segundo a empresa, o Facebook Horizon será totalmente gratuito – a ideia é dividir mesmo um espaço de criação, sem pensar em monetização, explica Romo. “Acreditamos que nem tudo precisa ficar dentro do Horizon: desenvolvedores que quiserem criar seus próprios jogos podem continuá-los a vender na loja de apps da Oculus”, diz o executivo. Também será possível ter experiências íntimas: os usuários poderão criar mundos apenas para amigos, “só com convite”. Mas “vamos encorajar que as pessoas não façam apenas ambientes para interagir e sim experiências que possam ser jogadas muitas vezes.”

A parte mais legal do teste, porém, ficou para o final: Wing Strikers, um jogo de “capture a bandeira” com aviões de brinquedo, em um campo que lembra muito o do quadribol, o esporte fictício e com vassouras do mundo de Harry Potter. Pegar a manha dos comandos, no começo, é complicado: uma mão deve segurar o avião, como se fosse uma criança brincando, enquanto a outra é responsável por disparar mísseis nos adversários e fazer passes da bandeira para um colega – as partidas são disputadas em times de duas pessoas. Mais sofisticada, a experiência demonstra o tipo de interação que o próprio Facebook vai construir dentro do Horizon.

Ao mesmo tempo, o Wing Strikers lembrou muito o tipo de entretenimento que havia em programas como o aplicativo de bate papo MSN, no qual era possível convidar amigos para jogar Campo Minado ou Damas para matar o tédio, numa época em que a internet ainda tinha muito “mato alto”. Prestes a chegar em 2020, a situação já é diferente: a competição pelo tempo dos usuários é muito grande – e não só na realidade virtual, mas também com jogos, séries e trabalho.

Questionado se isso não será um problema, Romo acredita que a “socialização” fará a diferença. “Hoje, quando você fala com um amigo à distância, pode só digitar ou mandar fotos, mas não há uma atividade que te una a ele como na vida real – como caminhar, jantar ou ver um jogo de basquete juntos. O Horizon quer permitir isso para as pessoas a quilômetros de distância”, afirma o executivo. E será que o Horizon vai se tornar a nova rede social, substituindo, quem sabe, o quadrado azul com uma letra f no coração dos usuários? Para Romo, não. “Uma rede social funciona porque é assíncrona, enquanto o Horizon depende que as duas pessoas estejam juntas ao mesmo tempo. Há espaço para tudo.”