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Número de evangélicos deve superar católicos até 2027

Cidade
04 de julho de 2021

Matéria especial por Leonardo Moreno, Carlos Rodrigues, Daniela Casale, Carol Rolta e Gabriel Tedde

Até 2027 o número de católicos deve ser superado pelo total de evangélicos que vivem em Marília. Em seis anos, os fiéis da Igreja Católica devem representar 38,7% dos moradores da cidade, enquanto os protestantes somarão 40,1% segundo estimativas.

Para este fenômeno social é dado o nome de transição religiosa, que vem acontecendo no país de um modo geral. No Brasil, os católicos devem chegar a menos de 50% em 2022 e a hegemonia evangélica deve se estabelecer a partir de 2032.

As projeções foram feitas a pedido do Marília Notícia pelo professor aposentado e especialista em demografia José Eustáquio Diniz Alves, vinculado ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e à Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE).

Um dado sintomático sobre a transição religiosa envolve a abertura de novos espaços religiosos na cidade.

Informações levantadas pela Prefeitura de Marília, a pedido do MN, mostram que 12 novos templos foram registrados em 2020 no município, sendo nove evangélicos. Apenas dois deles seriam vinculados à Igreja Católica e um a outra religião de matriz oriental.

Imagem mostra culto em uma das igrejas mais tradicionais e reconhecidas por seu trabalho social na cidade (Foto: Divulgação/PIB)

O Censo do ano 2000 mostrou que 73,1% dos habitantes de Marília se declaravam católicos – sejam eles praticantes ou não.

Apenas 16,7% dos marilienses se diziam evangélicos na ocasião; 5,7% eram vinculados a outras religiões e 4,5% não tinham nenhuma religião (o que inclui agnósticos e ateus).

Em um período de dez anos, segundo o Censo 2010, o número de católicos caiu para 60,4% da população e de evangélicos aumentou para 25,4% entre os marilienses. Já os membros de outras religiões totalizaram 9% e os sem religião 5,3%.

“O que fiz na projeção foi bem simples. Peguei a variação ocorrida entre os censos demográficos de 2000 e 2010 e apliquei este indicador para projetar os dados a partir de 2010”, explica José Eustáquio sobre as estimativas a respeito da realidade mariliense.

Em média, a cada ano 1,27% dos marilienses católicos deixa de se identificar com a religião, enquanto o contingente que se declara protestante aumenta 0,86%.

Isso indica que a redução de fiéis não é totalmente absorvida pelas igrejas evangélicas. Em 2027, a projeção do especialista em demografia aponta que 21,2% da população local pode se integrar a outras religiões – que não a católica, nem a evangélica – ou se declarar adepto de nenhuma.

ANÁLISE

Em um de seus muitos artigos sobre o tema, José Eustáquio lembra que a Igreja Católica está no Brasil desde a chegada dos portuguesas. “A primeira missa foi rezada no domingo, dia 26 de abril de 1500, quatro dias após o desembarque da frota de Pedro Álvares Cabral (que era um católico fervoroso)”.

“A igreja participou do projeto de colonização e cresceu muito, se fortalecendo junto às populações rurais, com baixa mobilidade social e com pouco dinamismo”, analisa o especialista.

De acordo com o professor, junto com a urbanização houve um “desenraizamento da população rural brasileira que migrou para as periferias dos centros urbanos e não encontrou apoio e presença da Igreja Católica”.

“A falta de padres e o clericalismo afastou a Igreja Católica das áreas de expansão demográfica. O conservadorismo, o antimodernismo, a centralização do poder e a rigidez da hierarquia católica dificultaram a expansão da igreja nas áreas mais dinâmicas do país, acelerando o processo de desafeição ao catolicismo. A ética católica nunca se deu muito bem com o capitalismo (como mostrou Max Weber). Os escândalos de pedofilia agravam a situação”, aponta José Eustáquio sobre a crise católica.

Evangélica em seu momento de fé em Marília (Foto: Divulgação/PIB)

Por outro lado, segundo o demógrafo, os evangélicos “dão ênfase na experiência direta e pessoal de Deus, através do Batismo no Espírito Santo – e conseguem atingir um grande público através da ‘cura divina’ e da ‘teologia da prosperidade’”.

“Um marco do crescimento evangélico no Brasil é o uso de diversas mídias (jornais, rádios, televisão, internet, WhatsApp, etc.) e a presença atuante na política (inclusive na Frente Parlamentar Evangélica). Há uma retroalimentação entre números de fiéis e representação evangélica. Nas pesquisas de opinião, as igrejas são consideradas mais confiáveis do que os partidos”, afirma o especialista.

Tais fatores, que influenciam a mudança na hegemonia religiosa no Brasil, não são alheios ao município de Marília. Ou seja, também influenciam a realidade local.

“Marília não é a cidade mais avançada e nem a mais atrasada na transição religiosa. Esta mais ou menos na média de São Paulo”, diz José Eustáquio, em entrevista ao MN. “Obviamente, cada cidade tem uma realidade e um estágio na transição religiosa. Umas estão mais avançadas e outras mais atrasadas no processo”.

Igreja Católica vem perdendo adesão ao longo dos anos; na imagem bispo Luiz Antonio Cipolini (Foto: Erica Montilha/Diocese de Marília)

Há 11 anos, o microempresário João Martini, de 44, tornou-se evangélico. Ele relata que sentia falta, na Igreja Católica, de uma experiência mais próxima com Deus e do ensino da Bíblia. Muitas perguntas, segundo ele, ficavam sem resposta.

“Era uma participação mais distante, porque não era ensinado que poderíamos ter acesso a Deus através apenas de Jesus. Me identifiquei por ter somente Ele como meu intercessor”, disse.

O maior avanço, segundo Martini, é o estudo bíblico. “Hoje eu posso conversar com meus filhos e ensinar, com a Palavra, muita coisa que eu não entendia quando adulto. Isso é um privilégio, sou muito feliz com a minha espiritualidade, a minha experiência com Deus”, garante.

Para o pastor presbiteriano Marcos Kopeska, o conceito de “modernidade líquida”, criado pelo sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman, é absolutamente aplicável a transição religiosa que está sendo observada.

“As pessoas não querem compromissos sólidos que venham a trazer responsabilidades, dispêndio de tempo. As pessoas estão sobrecarregadas, com dias lotados. A religião institucional toma tempo”, explica.

Quem tende a perder – em número de fiéis – são o catolicismo e o protestantismo histórico, além dos evangélicos tradicionais, que têm mais apreço ao ensino teológico e mais identificação com a reforma do século XV.

Quem ganha são as igrejas pentecostais e neopentecostais, principalmente as que usam o recurso do “televangelismo”, com uma mensagem mais simples, popular, voltada para a prosperidade, libertação espiritual e bem-estar.

“A missa semanal, a confissão, a eucaristia, a participação nas pastorais, no caso do católico romano; em relação aos protestantes, os cultos, a escola dominical, os ministérios da igreja. Tudo isso significa responsabilidade, compromisso”, define.

Na modernidade líquida, portanto, aumenta, segundo Kopeska, o número de pessoas que se declaram evangélicas, porém ligadas a igrejas do movimento neopentecostal, além dos que declaram viver espiritualidade individual, ou seja, os ‘desigrejados’.

“São pessoas que se declaram cristãs, por adesão ideológica, mas não querem uma igreja. Dentre os evangélicos esse número já soma aproximadamente 20%”, afirma.

O catolicismo foi o primeiro a viver a situação dos não-praticantes. Agora, os evangélicos experimentam a mesma situação. Por isso os números precisam ser analisados com cautela, conforme adverte o teólogo.

Celebração em igreja evangélica de Marília (Foto: Assembleia de Deus/Divulgação)

TRADICIONALISMO

Outro fator que, na visão de Kopeska, pode ter reduzido o número de pessoas que se declaram católicas, é a lentidão nas mudanças. As últimas – que inclusive aboliram o latim e permitiram que as missas fossem celebradas na língua de cada país – aconteceram na década de 1960, durante o Concílio Vaticano II, com o papa João XXIII.

“São os mesmos dogmas, mesmo estilo de missa, os mesmos temas para a liturgia. O estilo das construções, das vestimentas, da fala na religião católica remetem à Idade Média. As pessoas acabam não se identificando culturalmente com a igreja”, analisa.

É nesse cenário que grupos evangélicos avançam. “Vestem-se com leveza, cantam músicas contextualizadas, ritmos atuais, um estilo de culto que atrai a juventude. Isso tem mais a ver com cultura do que espiritualidade”, acredita Marcos Kopeska.

ANSEIOS E IMEDIATISMO

Combustível para o crescimento de igreja é a expectativa do suprimento de anseios e necessidades imediatas. Para os teólogos mais tradicionais, os discursos que incentivam as migrações têm forte impacto e eficiência para lotar templos, mas também curta duração.

Estas estratégias exigem de seus líderes esforços cada vez maiores, para manter o resultado, por isso o forte apelo emotivo na pregação.

É necessária uma grande arrecadação para manter templos, programas de TV, equipe de mídia altamente profissionalizada, corpo jurídico e patrimônio.

Para o pastor Carlos Norberto, da Igreja Batista Manancial de Marília, há um “crescimento enganoso”. A superficialidade é uma característica de pessoas e instituições, nesse contexto.

“Essa linha teleológica da prosperidade, se é que podemos chamar assim, veio importada dos Estados Unidos e ainda é muito forte no Brasil. São mensagens pensadas para fazer as pessoas se sentirem bem. Essa não é a proposta de quem conhece a Bíblia”, opina.

O pastor explica que, em sua essência, o evangelho propõe um relacionamento com Deus e a segurança da eternidade, através de Jesus Cristo. Mas isso acontece por meio do processo, da caminhada, que nem sempre será como a pessoa deseja.

“Muitas destas pessoas, que são atraídas por uma mensagem rasa sobre a vida com Deus, desistem. Elas se frustram porque as necessidades imediatas não são saciadas. Uma parte destas, pela experiência que tiveram, vão se declarar evangélicas, mas inexiste uma vivência no evangelho”, finaliza o pastor.