Entre trilhos e ônibus, avenida Brasil marca história da mobilidade em Marília

Há 526 anos, os portugueses atracaram na região do atual Porto Seguro, na Bahia, e declararam oficialmente a “descoberta” de um novo território, que passaria a se chamar Brasil. Ontem, dia 22 de abril, no entanto, foi apenas mais um dia comum no país.
Embora a data não integre mais o calendário oficial de celebração do descobrimento do Brasil, a via que leva o nome do país permanece como eixo simbólico das transformações logísticas e estruturais do município de Marília.
A avenida Brasil, no Centro da cidade, consolidou ao longo de quase um século uma vocação diretamente ligada ao transporte de pessoas e cargas — característica que marcou sua formação urbana e ainda influencia sua dinâmica.
Troca de nome
A denominação da avenida remonta a 1932, dois anos após a retirada do 22 de abril do calendário nacional, por decisão do então presidente Getúlio Vargas, que havia assumido o poder em 1930, ao fim da chamada República Velha.
À época, já existia outra avenida Brasil na cidade — a atual avenida Nelson Spielmann — e a mudança de nome foi oficializada por ato do então prefeito Eurípedes Soares da Rocha, hoje homenageado por uma instituição de ensino superior.

Antes disso, em 1930, a atual avenida Brasil era conhecida como avenida do Café, nome associado aos galpões instalados às margens da via e da ferrovia, cujos trilhos chegaram a Marília em 1928.
Via de transportes
Desde o início, a proximidade com a linha férrea definiu o perfil da avenida, que se tornou ponto estratégico para embarque e desembarque de passageiros, além do escoamento de mercadorias. Ainda na década de 1930, a via recebeu pavimentação em paralelepípedos, parte da qual permanece preservada.
Entre 1928 e 2001, a avenida foi passagem obrigatória para passageiros que utilizavam os trens da estação ferroviária local. O transporte de cargas, por sua vez, perdeu força gradualmente, até que, em 2009, o último trem passou pela cidade, encerrando um ciclo histórico da ferrovia em Marília.

Em frente à antiga estação, existia uma vila destinada aos trabalhadores ferroviários das extintas Companhia Paulista de Estradas de Ferro e Fepasa. A área foi declarada de utilidade pública em 1987 para a construção do Terminal Coletivo Urbano, inaugurado em 12 de novembro de 1988.
Terminal urbano
O equipamento, denominado dom Hugo Bressane de Araújo, primeiro bispo diocesano de Marília, centralizou o transporte público municipal e marcou uma nova fase na mobilidade urbana, substituindo a predominância ferroviária pelo transporte coletivo rodoviário.

Inicialmente operado exclusivamente pela Empresa Circular de Marília (ECM), o sistema passou a contar, a partir de 2013, com duas concessionárias — Grande Marília e Viação Sorriso — após um imbróglio jurídico envolvendo a ECM.
A ocupação dos imóveis ao longo da avenida também reflete essa relação histórica com o transporte. Em cinco quarteirões paralelos à linha férrea, entre as ruas Nove de Julho e Mato Grosso, concentraram-se atividades ligadas ao setor ferroviário e, posteriormente, ao transporte urbano. Em frente à antiga vila dos ferroviários, funcionou por décadas a sede sub-regional do sindicato da categoria.

Indústria e comércio
A via também abrigou instalações industriais, como os barracões da Sasazaki, entre as ruas Paraíba e Paraná, até a transferência da empresa para o atual parque fabril, em 1996. Próximo dali, na esquina com a rua Sergipe, funcionava um hotel, cujo prédio hoje integra um complexo administrativo municipal.
Atualmente, a avenida Brasil mantém sua relevância como corredor de serviços e equipamentos públicos. Em frente ao terminal urbano, há concentração de lojas, serviços, a sede da Associação Mariliense de Transporte Urbano (AMTU) e a Farmácia Central.

A via também abriga a sede da banda marcial municipal, o restaurante Bom Prato e a Justiça Eleitoral, consolidando-se como espaço de intensa circulação e múltiplas funções — herança direta de sua origem ligada aos trilhos e ao deslocamento urbano.
