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Dom Phillips e Bruno Pereira

Coluna
14 de junho de 2022

Defender o direito de manutenção das formas de vida nativa e indígena na Amazônia é uma luta tão perigosa quanto ir para a guerra. Na verdade, fazê-lo é em si uma guerra, ainda que escamoteada pela fábula de que no nosso país vige para todos a mesma segurança e os mesmos direitos. Na floresta equatorial amazônica, a profusão de riquezas em Terras Indígenas, entremeadas à ganância e ao uso da violência que assediam estes territórios, já fizeram um sem número de atrocidades contra pessoas que, em suma, lançam mão da própria vida no ímpeto de assistir a existência e a dignidade dos povos originais da nossa terra, que também lutam diuturnamente.

Embora ainda não haja exata certeza sobre o destino do jornalista Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira, pois, há nota da Polícia Federal atestando, além do desaparecimento de ambos, uma falsa declaração de óbito, desde ontem que Alessandra Sampaio, esposa do jornalista britânico Dom Phillips, afirmou que os corpos foram encontrados depois de aproximadamente 12 dias de desaparecimento na região do Vale do Javari. Amplamente noticiado por todos os veículos de mídia do Brasil, bem como na imprensa de países de língua inglesa, parece ser um fato consumado que a morte destes dois profissionais está atrelada em grande medida às retaliações violentas ao ofício deles.

A história se repete duas vezes, a primeira como farsa e a segunda como tragédia. Em um passado não tão distante, e certamente parte da população brasileira ainda se lembra, dois assassinatos infelizmente simbolizaram a truculência que é empregada contra os defensores da floresta. Em 1988, Chico Mendes foi assassinado dentro de sua casa em Xapuri, no Acre, quando se ocupava em denunciar as condições hostis que transcorriam entre os seringalistas de um lado, e mercenários de outro, contratados para avançar atividades ilegais de exploração de recursos naturais. Um pouco mais tarde, em 2005, Dorothy Stang foi morta numa emboscada em uma estrada de terra, há algumas dezenas de quilômetros da cidade de Anapu, no Pará, depois de décadas trabalhando em prol da resolução de conflitos na região Norte e da reforma agrária.

Estes casos são os conhecidos. Porém, há uma infeliz coleção de histórias tétricas ocultas, que repetem o mesmo padrão de hostilidade sem limites na região mais exuberante do nosso país. Segundo o relatório da Global Witness, o Brasil é o quarto país do mundo mais perigoso para ativistas com mais de 200 assassinatos apenas no ano de 2020.

Além disso, o que ainda mais negativamente nos impressiona hoje é o desgoverno em instituições cabais, que teoricamente deveriam zelar desses assuntos com profissionalismo. O caso da atual gestão da Fundação Nacional do Índio (Funai), por exemplo, é um escárnio flagrante acerca do problemático assédio que sofrem as Terras Indígenas, pois, quando mal presidida pelo delegado Marcelo Xavier que tripudia da função que ocupa, sem saber ou estar preparado para exercê-la, são mentiras encasteladas que tomam de assalto este lugar de governança pública tão estratégico.

Destas, mais recentemente, uma chama atenção, que é a declaração de que a Funai não emitiu nenhuma permissão para o ingresso de Dom Phillips e Bruno Pereira nas reservas, assim alegando levianamente que ambos foram irresponsáveis e, portanto, contribuíram eles próprios para que desaparecessem. Esta declaração, no entanto, deliberadamente omitiu o fato que Bruno Pereira foi exonerado do cargo de coordenador-geral de Índios Isolados e de recém-contatados por pressão parlamentar ruralista, embora fosse concursado para o trabalho na instituição desde 2010. Tendo, em seguida, o seu cargo ocupado por Ricardo Lopes Dias, um pastor que advoga pela evangelização dos indígenas, isto é, que defendeu e defende o emprego da forma mais bizarra de incompreensão de uma cultura, o de tentar submetê-la à alguma métrica ocidental ou tê-la como primitiva diante de cânones europeus.

A União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) declarou Bruno Pereira como a maior autoridade do país em campo especializado em indígenas isolados. Dom Phillips trabalhava junto com o indigenista para gerar um registro, possivelmente uma obra jornalística, antropológica e literária, sobre como manter a floresta e os povos íntegros. Os dois trabalhavam juntos e com os indígenas, ajudando-os a usar fotografias aéreas e imagens de satélites para documentar e se proteger contra as ilegalidades brutais que acontecem nas reservas, sobretudo as atividades de garimpo, a extração de madeira, e demais barbaridades humanas.

À memória destes homens nós devemos absoluta admiração e respeito. Porque, como nos disse um poeta, no futuro eles surpreenderão não por terem sido exóticos, mas por terem feito o óbvio.