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Dois conhecidos de Mário de Andrade

Coluna
10 de junho de 2021

No dia anterior, em Marília, recebia a notícia da morte de José Saramago (1922-2010). Naquela noite, embarcaria para São Paulo, onde representaria a região na final do Mapa Cultural Paulista na modalidade contos. ‘A quiromante’, narrativa onde traço a trajetória de um jovem motorista de caminhão que sonhava em ser motorista de uma grande viação rodoviária, havia se classificado nas fases Municipal e Regional.

Quando cheguei em São Paulo, fui até uma banca de revistas, destas que a gente só encontra na Capital e comprei a Folha de São Paulo com a notícia da perda do único Prêmio Nobel de Literatura da Língua Portuguesa.

A final do Mapa Cultural Paulista seria à noite, no Sesc Pompeia. Como teria um sábado inteiro para aproveitar São Paulo, decidi conhecer a casa que fora de Mário de Andrade (1893-1945), na Barra Funda. Percorri os cômodos, subi ao segundo andar e estive no antigo quarto do autor. Fui ao terraço, onde, certamente, ele tomava seu café da manhã. Depois, estive no porão e me lembro que marcou muito a sala que seguia abrigando o piano do escritor.

Por anos, Mário de Andrade lecionou música exatamente naquele local. À noite, quando acabou a final do Mapa, estive numa quermesse na igreja São Geraldo e, por coincidência do destino, acabei conhecendo uma ex-vizinha do poeta. “Ele frequentava a missa, aos domingos, todo elegante, acompanhado de suas irmãs. Sempre de chapéu e bengala”, me contou.

Esta senhora foi a segunda pessoa que conheci que havia convivido com Mário de Andrade, um dos principais escritores brasileiros da primeira metade do Século passado e um dos gênios da Semana de Arte Moderna, que no próximo ano celebrará 100 anos.

Aqui em Marília, um ano antes, havia conhecido o arquiteto alemão Alexandre Altberg (1908-2009) que também chegou a conviver com o poeta de “Lira paulistana” e de “Amar, verbo transitivo”. Aliás, Altberg, que foi chamado pela imprensa brasileira de o Niemeyer Alemão, chegou a editar um artigo do romancista de “Macunaíma” para uma revista que abordava arte, literatura e arquitetura.

Quem havia apresentado Altberg para Mário de Andrade tinha sido o artista plástico e escultor Lasar Segall (1889-1957). Incrível estas proximidades, ficava boquiaberto com tudo isso. Quando recordo que conheci duas pessoas que interagiram e conviveram com um dos mais importantes poetas do Modernismo e alguém que, fundamentalmente, contribuiu para o pensamento brasileiro (aliás, o precursor da Educação Infantil e do monitoramento da inflação no Brasil foi Mário de Andrade), fico meio pasmado.

É como se alguém saísse na página de um livro de história e lhe viesse dar a mão. Como da vez que, aos 16 anos, entrevistei um general do Exército. Até então, general para mim só existia nos livros de histórias e nas placas de ruas.

Mário, vira e mexe, ainda me surpreende. Sempre pelo lado positivo. Vez ou outra descubro um trecho de poema, uma frase em um de seus livros e me coloco a refletir: “será que ele escreveu isso pelo tempo em que ia à missa na São Geraldo? Ou quando estava preparando o artigo para enviar ao Alexandre Altberg?”. Mas nunca tive dúvida: Mário sempre fora trezentos, trezentos e cinquenta, jamais poeta de uma nota só.