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Fora dos autos: histórias que a vida conta

Coluna
06 de dezembro de 2021

Amâncio tinha um pequeno sítio nos arredores da cidade, onde mourejava com afinco. Plantava, capinava e colhia, na dinâmica diária de lavrador humilde.  Era alto e forte, com a pele crestada pelo sol. A característica mais marcante que o distinguia era o enorme bigode, cuidado com esmero e que lhe emoldurava o rosto severo.

Casado com Dolores, morena de olhos verdes, com trinta e poucos anos, não tinham filhos. O tempo ia passando, monótono e tedioso, até que Dolores, cansada da vida pacata e sem emoções, apaixonou-se pelo retireiro de uma fazenda vizinha, jovem, sedutor e de fala mansa. Certa madrugada fugiu com o tal rapaz sem deixar qualquer explicação a Amâncio.

Este, dolorido e humilhado pela traição da mulher, prometeu vingança. E procura aqui, pergunta dali pesquisa acolá, acabou descobrindo que os fujões estavam morando na periferia da cidade.  Armou-se de peixeira e aqui veio bater os costados, com o ódio a lhe corroer as entranhas.

E quis o destino, por uma dessas coincidências inexplicáveis, que tão logo desembarcou na antiga estação rodoviária e caminhou alguns quarteirões, deu de cara com aquele que fugira com sua amada. Este, ao ver o marido traído, ficou imóvel e transido de pavor, enquanto que Amâncio, sem poder conter a ira, sacou da peixeira e com um golpe certeiro trespassou o coração do desafeto que lhe roubara a mulher, matando-o instantaneamente. Foi preso em flagrante e recolhido ao xadrez.

Conseguiram-lhe um advogado dativo, já que não quisera contratar nenhum por sua conta. O jovem advogado, no ímpeto de fazer o melhor, convenceu o bigodudo cliente a contar ao Juiz outra a versão, ou seja, de que fora atacado injustamente pelo amante da mulher e então, para se defender, não teve alternativa que não o golpear com o punhal.

Quando do interrogatório, ao prestar a versão engendrada pelo jovem causídico, titubeou, gaguejou e ficou inseguro. O juiz, homem experiente e perspicaz, fez ver ao acusado que não acreditava naquela estória de legítima defesa, até porque não havia razão alguma para o ataque do ladrão de sua mulher.

Diante dessa observação, Amâncio, ferido em seus brios, levantou-se abruptamente e deslizando os dedos sobre o imenso bigode, saiu-se com esta: “Doutor, esse bigode nunca viu essa boca mentir. O Senhor tem razão. Furei mesmo o cabra safado que fugiu com a minha mulher. E essa história de legítima defesa foi esse advogado que inventou e me mandou contar para o Senhor”.

O advogado, rubro de vergonha, saiu sorrateiramente da sala de audiências e correu para preparar a renúncia da defesa do Amâncio que, a partir de então se tornou réu confesso e passou a aguardar com sua honestidade preservada, a condenação que certamente viria.