MN Logo

12 anos. Mais de 103 mil artigos.

  • Polícia
  • Marília
  • Garça
  • Pompeia
  • Oriente
  • Quintana
  • Regional
  • Tupã
  • Vera Cruz
  • Entrevista da Semana
  • MAC
  • Colunas
  • Anuncie
Colunas
sex. 11 ago. 2023
MARCOS BOLDRIN

‘CDHU’ da Zona Sul: crônica de um desastre anunciado

por Marcos Boldrin

O título faz referência ao do livro de ficção “Crônica de uma Morte Anunciada”, no qual o escritor colombiano Gabriel García Márquez narra o assassinato do protagonista Santiago Nasar.

A história subliminar, nas entrelinhas, é: qual motivo levou a cidade inteira a deixar que o crime ocorresse, sem tentativas sérias de salvar a vítima?

Recentemente presenciamos desastres no litoral paulista que mataram dezenas de pessoas.

Neste ano, Marília está sendo notícia: riscos de desabamento no Conjunto Habitacional Paulo Lúcio Nogueira (CHPLN) na zona Sul da cidade; divergências de conservação entre blocos em novo relatório do CDHU sustenta “que anomalias só foram encontradas em prédios que não teriam recebido ações de manutenção por condôminos”, e; “Mulher de 55 anos morre em incêndio no CDHU, encontrada já desacordada em seu apartamento, localizado no terceiro andar do bloco F1”.

Enquanto debate-se nos tribunais, a corrida é contra o relógio. A segurança dos moradores dos 880 apartamentos é responsabilidade nossa, de toda a cidade: olhar com compaixão e com empatia é revelar valores e responsabilidade solidária.

Ou a tragédia tatuará na carne mariliense manchetes negativas nacionais e internacionais.

Podemos, sim, fazer a diferença. Com olhar humanista, gestores públicos, técnicos e cidadãos devem se unir e elaborar arranjos eficazes visando a qualidade de vida destas pessoas.

Assim, a primeira solução, mais simplista, mais conservadora e menos criativa, é a de recuperar estruturas prediais ou de demolir os edifícios afetados parcial ou inteiramente, reformando-os ou os reconstruindo.

Nesse caso, é essencial desenvolver um plano sensível e eficiente, compreendendo o problema em sua totalidade, analisando minimamente as estruturas prediais, as infraestruturas, a acessibilidade e a segurança. Estudos e pesquisas subsidiariam justificativas e decisões – se a drástica demolição é mesmo a única solução ou se outras ações eficazes e menos impactantes poderiam ser adotadas -, sempre pelo diálogo, por consultas públicas envolvendo a comunidade afetada e buscando parcerias com os governos estadual e federal, instituições e especialistas na área de urbanismo.

Sendo necessária a radical remoção dos residentes, garantir a transição por moradias temporárias, enquanto as ações acima se desenrolem. Considerar impactos na qualidade de vida dos moradores pela análise de transporte público, de acesso a serviços básicos (educação, saúde, segurança), da proximidade de áreas de comércio e de lazer, além das condições de habitação (como ventilação, iluminação e privacidade).

Gera adesão da população às autoridades criar uma central de informações e, sendo possível, porta-vozes responsáveis por comunicação competente e confiável sobre a resolução dos problemas enfrentados pelos moradores, coleta e respostas rápidas diante de eventuais incertezas e fragilidades. Todos passam a acreditar na empreitada e a apoiar, criando círculo virtuoso.

Identificar os recursos financeiros disponíveis, tanto para realizar as obras quanto para manter o condomínio. Mais: o sucesso pleno é treinar moradores e prepará-los para administrar, motivando-os a atuarem como síndicos e zeladores bons e qualificados. Apenas os reconduzir e esperar por uma gestão condominial espontânea – inexistente até hoje – é, como diz o provérbio popular, loucura: querer resultados diferentes fazendo tudo exatamente igual.

Com todas as informações em mãos, criar e divulgar cronogramas etapa por etapa. Datas e prazos projetados para demolir construções condenadas, para melhorar áreas comuns, para construir novas moradias temporárias e permanentes, para criar espaços de convivência, verdes e de lazer, bem como implementar serviços essenciais, como água, internet, energia e transporte.

Durante todo o processo, revisar constantemente a disponibilidade de recursos humanos e de materiais e alterar a legislação urbanística com apoio da Casa Legislativa, quando necessário.

Urbanistas contemporâneos criticam conjuntos habitacionais como esse. Para eles, o formato tradicional falha em gerar comunidades saudáveis e vibrantes. São grandes blocos de construção, monótonos e afastados do tecido urbano, com ruas pouco movimentadas e sem atividades nas áreas comuns.

Ambientes assim são pouco atraentes para as pessoas se reunirem e se interagirem, gerando sentimento de afastamento, de alienação, prejudicando o senso de comunidade.

A cidade norte-americana de Chicago enfrentou uma série de desafios habitacionais semelhantes a esse nas décadas de 1960 e 1970. Após denúncias, as autoridades públicas repensaram as políticas habitacionais. Mudaram o foco: criaram o programa de moradias acessíveis, como o “Chicago Housing Authority” (CHA), fornecendo habitações de qualidade para famílias de baixa renda, substituindo os projetos antigos por comunidades diversificadas, integradas e mais seguras.

Economicamente, Chicago também estimulou o deslocamento de empregos e de serviços para as áreas habitacionais de baixa renda, reduzindo a distância e os custos entre locais de moradia e de trabalho, promovendo o desenvolvimento sustentável e o lazer, melhorando a qualidade de vida dos moradores e combatendo a segregação e a desigualdade habitacional.

Diante disso, há uma segunda solução: fazer mais e melhor com menos recursos e boa gestão. Não se gerencia o que não se mede e não há sucesso no que não se gerencia: daí a importância de informações, números e dados precisos para tomar decisões estratégicas. Vejamos uma possibilidade das muitas em comandar, em gerenciar bem.

Com a virada do século XXI, iniciou-se o declínio demográfico mundial: a taxa de nascimentos diminuiu e as taxas de envelhecimento e de mortes aumentaram. Resultado: como exemplo e em 2010, o governo russo planejou fechar 60 cidades porque o número de pessoas estava encolhendo e envelhecendo. Manter serviços públicos nestas localidades se tornou inviável.

Marília também viu migrar boa parte da população para condomínios periféricos em razão do recente “boom” imobiliário. A consequência: aumento dos vazios urbanos – mais terrenos e imóveis ociosos nos bairros tradicionais e central, drenando a economia local e desconsiderando a função social da moradia.

Somados as 2 análises, talvez inexista déficit habitacional municipal diante dos números populacionais decrescentes ou com pouco crescimento, além de eventual programa municipal organizado de estímulo a ocupar edificações subutilizadas.

Portanto, bases de dados confiáveis e precisas podem orientar políticas públicas.

Há exemplos? Além das norte-americanas Chicago e Nova York, há a sul-africana de Gauteng, a chinesa Shenzhen e a cidade de Surabaia, na Indonésia: programas habitacionais populares vitoriosos.

Para isso, perspectiva diferente da adotada até o momento. Os gestores públicos e os planejadores urbanos devem assumir-se tais a uma equipe bem coordenada de síndicos e zeladores, monitorando indicadores de eficiência, disparando alertas e agindo como facilitadores, não criadores ou moldadores da cidade.

Iniciativas assim são específicas dos habitantes dos aglomerados urbanos, com apoio de uma rede de estruturas físicas e administrativas asseguradas pelo prefeito e pelos vereadores.

Substituir a condição atual do Conjunto Habitacional Paulo Lúcio Nogueira por espaço urbano mais orgânico, diversificado e inclusivo, onde as pessoas possam interagir e construir comunidades vibrantes e sustentáveis é oportunizar qualidade de vida e condições dignas de moradia.

A receita exige muito trabalho, diálogo e resiliência.

Sobretudo, coragem e capacidade de executar.

Sucesso. Sempre.

. . .

Marcos Boldrin é ex-secretário do Meio Ambiente, ex-secretário da Administração, urbanista, palestrante e coronel da reserva.

Faça parte do nosso grupo no WhatsApp. Clique aqui!

Compartilhar

Mais lidas

  • 1
    Acusado de torturar menores em clínica da região morre baleado pela PM
  • 2
    Briga entre casal acaba com cachorro morto e investigação por maus-tratos
  • 3
    Antes de Marília: quem vivia na região antes da cidade existir?
  • 4
    Goleiro maqueno brilha de novo e Tigrão conquista acesso nos pênaltis

Escolhas do editor

TRÂNSITO
Mais de 2,6 mil renovam CNH de forma automática em MaríliaMais de 2,6 mil renovam CNH de forma automática em Marília
Mais de 2,6 mil renovam CNH de forma automática em Marília
ENTREGA DE CHAVES
Antecipação e lazer completo marcam entrega do Reserva Mirali em MaríliaAntecipação e lazer completo marcam entrega do Reserva Mirali em Marília
Antecipação e lazer completo marcam entrega do Reserva Mirali em Marília
TEMPO
Marília tem previsão de sol e calor além do feriado prolongadoMarília tem previsão de sol e calor além do feriado prolongado
Marília tem previsão de sol e calor além do feriado prolongado
INVESTIMENTO
Marília autoriza R$ 250 mil para cirurgias bucais em pacientes com TEAMarília autoriza R$ 250 mil para cirurgias bucais em pacientes com TEA
Marília autoriza R$ 250 mil para cirurgias bucais em pacientes com TEA

Últimas notícias

Chuva forte impacta cerca de 700 famílias na região de Sorocaba
Na Alemanha, Lula defende pioneirismo de biocombustíveis brasileiros
Porque entender o atendimento é essencial para fortalecer a confiança no saneamento
Abordagens avançam e três ficam presos por tráfico no fim de semana

Notícias no seu celular

Receba as notícias mais interessantes por e-mail e fique sempre atualizado.

Cadastre seu email

Cadastre-se em nossos grupos do WhatsApp e Telegram

Cadastre-se em nossos grupos

  • WhatsApp
  • Telegram

Editorias

  • Capa
  • Polícia
  • Marília
  • Regional
  • Entrevista da Semana
  • Brasil e Mundo
  • Esportes

Vozes do MN

  • Adriano de Oliveira Martins
  • Angelo Ambrizzi
  • Brian Pieroni
  • Carol Altizani
  • Décio Mazeto
  • Fabiano Del Masso
  • Fernanda Serva
  • Dra. Fernanda Simines Nascimento
  • Fernando Rodrigues
  • Gabriel Tedde
  • Isabela Wargaftig
  • Jefferson Dias
  • Julio Neves
  • Marcos Boldrin
  • Mariana Saroa
  • Natália Figueiredo
  • Paulo Moreira
  • Ramon Franco
  • Robson Silva
  • Vanessa Lheti

MN

  • O MN
  • Expediente
  • Contato
  • Anuncie

Todos os direitos reservados.
Proibida a reprodução total ou parcial.
MN, Marília Notícia © 2014 - 2026

MN - Marília NotíciaMN Logo

Editorias

  • Capa
  • Polícia
  • Marília
  • Regional
  • Entrevista da Semana
  • Brasil e Mundo
  • Esportes

Vozes do MN

  • Adriano de Oliveira Martins
  • Angelo Ambrizzi
  • Brian Pieroni
  • Carol Altizani
  • Décio Mazeto
  • Fabiano Del Masso
  • Fernanda Serva
  • Dra. Fernanda Simines Nascimento
  • Fernando Rodrigues
  • Gabriel Tedde
  • Isabela Wargaftig
  • Jefferson Dias
  • Julio Neves
  • Marcos Boldrin
  • Mariana Saroa
  • Natália Figueiredo
  • Paulo Moreira
  • Ramon Franco
  • Robson Silva
  • Vanessa Lheti

MN

  • O MN
  • Expediente
  • Contato
  • Anuncie