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seg. 25 maio. 2026
MERCADO FINANCEIRO
Lucas Caldeira

A guerra no Oriente Médio já chegou ao seu bolso, mas muita gente ainda não percebeu

Como o conflito entre Israel, Irã e seus aliados movimentam bolsas, juros e o preço de tudo — e o que isso significa para o investidor brasileiro.
por Lucas Caldeira
O fechamento do Estreito de Ormuz elevou a tensão global e pressionou os mercados internacionais.

Você não precisa saber onde fica o Irã no mapa para sentir o impacto do conflito no Oriente Médio. Basta olhar para o preço da gasolina, para os juros que o banco cobra no seu financiamento ou para o saldo de seus investimentos, principalmente pela queda na rentabilidade de seu portifólio. A guerra já chegou até você — só que disfarçada de números.

Era uma manhã de sábado (28 de fevereiro de 2026) quando dois dos exércitos mais poderosos do mundo decolaram juntos em direção ao Irã. Os Estados Unidos e Israel lançaram uma série de ataques coordenados contra Teerã e dezenas de outros alvos pelo país. O objetivo declarado pelo presidente Donald Trump: induzir uma mudança de regime e destruir o programa nuclear iraniano de uma vez por todas.

O resultado foi devastador. O aiatolá Ali Khamenei — líder supremo do Irã por mais de três décadas — foi morto nos ataques. Seu filho, Mojtaba Khamenei, foi rapidamente nomeado sucessor. O Irã, ferido e humilhado, respondeu como pôde: com mísseis contra Israel, contra bases militares americanas na região e contra países do Golfo — Bahrain e Emirados Árabes foram atingidos. E, num movimento que parou o mundo, fechou o Estreito de Ormuz.

Os ataques coordenados entre Estados Unidos e Israel ampliaram o temor de escalada no Oriente Médio.

A grande pergunta é: Por que o Oriente Médio abala os mercados?

A resposta cabe em duas palavras: petróleo e medo. A região concentra cerca de 30% da produção mundial da commodity e é cortada pelo Estreito de Ormuz — uma passagem de poucos quilômetros por onde trafega quase 20% de todo o petróleo do planeta. Qualquer ameaça de bloqueio ali é suficiente para disparar o preço do barril – também chamado de Brent.

O efeito foi imediato e histórico. De acordo com o Banco Mundial, o fornecimento global de petróleo despencou 10,1 milhões de barris por dia só em março — a maior queda trimestral desde a pandemia de Covid-19.

O preço do barril do Brent, que estava em torno de US$ 60 no final de janeiro, disparou para uma média de US$ 91 em março, chegando a romper os US$ 100 no início de abril. A alta de 65% em um único mês foi a maior variação mensal da história do mercado de petróleo.

Petróleo mais caro significa inflação mais alta em quase todos os países — combustível, frete, plástico, alimentos. E inflação alta obriga os bancos centrais a subir juros ou, no mínimo, a adiar cortes. Foi exatamente esse o movimento visto quando o Federal Reserve (o banco central americano) e o Banco Central do Brasil desaceleraram afrouxamentos que já estavam no preço, em parte por causa da pressão inflacionária alimentada pelo conflito.

Bolsas ao redor do mundo reagiram com volatilidade diante do aumento das incertezas geopolíticas.

O que aconteceu nas bolsas?

Os mercados financeiros reagiram exatamente como fazem quando o medo toma conta: primeiro vende, depois pensa. O S&P 500 — o principal índice da bolsa americana, que reúne as 500 maiores empresas dos EUA — encerrou março em queda de 5,1%, sendo o seu pior mês desde março do ano anterior.

No Brasil, o tombo foi sentido de perto. Em 5 de março, o Ibovespa caiu 2,5% em um único pregão, indo a 180.466 pontos. Embraer despencou 5,7%, a Companhia Siderúrgica Nacional recuou 6,1%, e até a Vale — gigante das commodities — perdeu 3,4%. Bancos como Bradesco e Banco do Brasil também sentiram o golpe, com quedas superiores a 3%, pressionados pela perspectiva de crédito mais caro e menor crescimento.

A lógica é simples: quando o mundo está em pânico, o dinheiro foge de ativos de risco — como as ações de países emergentes — e corre para os chamados portos seguros: ouro, dólar e títulos do Tesouro americano.

O Brasil, sendo um país emergente, está sempre entre os primeiros a ser abandonado nessa fuga – ainda mais quando entendemos que dependemos de fluxo, 2/3 da nossa bolsa é representado pelo investidor estrangeiro, então se tem capital saindo a bolsa está fadada a cair.

Em momentos de crise, investidores costumam migrar para ativos considerados mais seguros, como o ouro.

A curva de juros e o sufoco do crédito no Brasil

Para quem não vive o mercado financeiro, a “curva de juros” soa como jargão de especialista. Na prática, é simples: é o termômetro que mostra o quanto o país vai pagar para se financiar no longo prazo. Quando ela sobe, tudo fica mais caro — desde o financiamento da sua casa até o crédito da sua empresa.

E foi exatamente isso que aconteceu. Com o choque do petróleo alimentando a inflação, o Banco Central ficou de mãos atadas. Menos espaço para cortar juros significa crédito mais caro por mais tempo — e isso bate no bolso de todo mundo.

Com uma percepção de risco fiscal delicada o efeito é amplificado, obrigando o Banco Central a manter a Selic alta por mais tempo. Quem vai emprestar dinheiro por 10 anos sem exigir um prêmio a mais por tanto risco e incerteza? Por isso a XP Investimentos revisou para cima sua projeção para a Selic ao final de 2026, de 13,50% para 13,75%.

Quanto ao dólar: a pressão sobre o real foi imediata. Analistas projetaram o câmbio de volta ao patamar de R$ 5,20, puxado pela saída de capital estrangeiro em busca de segurança. Uma das poucas forças que segurou o real foi a própria Selic elevada, que mantém o Brasil atrativo para o chamado carry trade — a estratégia de investidores estrangeiros que pegam dinheiro barato lá fora e aplicam nos juros altos daqui.

Comandada pelos especialistas Gustavo Spers, Lucas Caldeira e Mateus Castanheira, a Canaã Capital | XP foi reconhecida recentemente entre os 25 escritórios de investimentos de maior destaque do Brasil pelo desempenho alcançado no setor (Foto: Marília Notícia)

E agora? Onde estamos em maio de 2026?

O cessar fogo de abril reduziu a tensão máxima, mas o conflito está longe de resolvido. O Estreito de Ormuz permanece praticamente inacessível para o comércio normal, as negociações entre EUA e Irã sobre o programa nuclear patinam, e o novo líder supremo iraniano não deu sinais de que aceitará um acordo fácil. O mercado navega naquilo que analistas chamam de “modo geopolítico”: sobe no dia de boa notícia diplomática, cai no dia de novo míssil.

Para o investidor brasileiro, o cenário exige atenção redobrada. Títulos atrelados à inflação como o Tesouro IPCA+ têm funcionado como escudo. O ouro — que chegou a superar US$ 2.700 a onça antes do conflito de fevereiro — seguiu em alta.

A lição mais importante? Guerras distantes nunca são tão distantes quanto parecem. O mercado financeiro é a correia de transmissão que liga uma explosão no Golfo Pérsico à taxa do seu financiamento imobiliário em São Paulo. Entender essa conexão não resolve o conflito — mas pode salvar o seu portfólio.

***

Lucas Caldeira é sócio-fundador e estrategista da Canaã Capital | XP

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