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seg. 09 mar. 2026
MÊS DA MULHER

Marília amplia presença feminina em poderes locais

Município tem quatro vereadoras e uma deputada; Judiciário registra número inédito de juízas.
por Rodrigo Viudes
Legislatura atual da Câmara Municipal com quatro vereadoras é inédita na história de Marília (Foto: Will Rocha/Câmara de Marília)

Denominada com nome de mulher, Marília vive um momento de avanço na presença feminina em espaços de poder locais. Embora nunca tenha eleito uma prefeita desde sua fundação, o município registra nos últimos anos um aumento da participação de mulheres nos três principais poderes — Legislativo, Judiciário e Executivo — com marcos inéditos de representatividade.

No Legislativo municipal, a atual legislatura marca um recorde histórico. Pela primeira vez, quatro mulheres exercem simultaneamente o mandato de vereadora na Câmara Municipal de Marília, cenário que permitiu a formação de uma bancada feminina formal.

O avanço ocorre em um plenário ampliado recentemente de 13 para 17 cadeiras. Entre as eleitas está Fabiana Camarinha (Podemos), a mais votada da história da cidade para o cargo, com 4.281 votos. Também integram o grupo Professora Daniela (PL), atual primeira vice-presidente da Casa; Vânia Ramos (Republicanos), segunda secretária da Mesa Diretora; e Rossana Camacho (PSD), delegada aposentada.

Poucas mulheres no Legislativo

Mesmo com o avanço recente, os números históricos indicam que a participação feminina ainda é minoritária. Desde 1929, apenas nove mulheres foram eleitas vereadoras em Marília, enquanto 213 homens ocuparam cadeiras legislativas — média de uma mulher para cada 23 homens ao longo do período.

Além das atuais parlamentares, as demais mulheres eleitas foram Julieta Suelli de Mello (1956), Euthalia Battaiola (1973–1977), Cleuza Pontes da Silva (1997–2000), Edith Sandes Salgado (2001–2004) e Sonia Maria Ribeiro Tonin (2005–2008 e 2013–2016).

Para Fabiana Camarinha, o crescimento da presença feminina na política acompanha a própria composição demográfica da sociedade. “De acordo com o último censo do IBGE, as mulheres representam 51,5% da população. É natural que passem a ocupar posições que antes eram destinadas majoritariamente aos homens”, afirmou.

Segundo ela, o próprio nome da cidade pode servir de inspiração para ampliar a participação feminina. “O nome da nossa cidade, inspirado na obra ‘Marília de Dirceu’, deve inspirar as mulheres a lutarem por mais representatividade nos setores público e privado.”

Fabiana Camarinha foi eleita com maior votação da história de Marília a uma candidatura para Câmara Municipal (Foto: Will Rocha/Câmara de Marília)

A vereadora também defende que a presença feminina pode crescer ainda mais nas próximas eleições. “Temos 13 vereadores e somente quatro vereadoras. É um avanço, sem dúvida, mas esse número poderia dobrar na próxima legislatura, porque as mulheres têm muito a contribuir com a cidade.”

A vice-presidente da Câmara, Professora Daniela, considera que a presença de quatro mulheres representa avanço, mas ainda distante de um equilíbrio com os homens. “Avalio que a cidade deu um salto ao ampliar essa representatividade, mas ainda estamos engatinhando diante do número de homens na Câmara”, afirmou.

Eleita para 3º mandato seguido, Professora Daniela é a primeira mulher a assumir vice-presidência na Câmara (Foto: Taís Iatecola/Câmara de Marília)

Segundo ela, a atuação política feminina frequentemente se soma às múltiplas responsabilidades. “A mulher acaba acumulando muitas funções — mãe, esposa, profissional — e ainda assume a missão de representar toda uma cidade.”

Rossana Camacho classifica o momento como positivo para a visibilidade das mulheres na política local. “Somos quatro vereadoras, praticamente 25% da Câmara. Já estamos conseguindo ganhar visibilidade, respeito e força para as mulheres na política”, disse. Entre as iniciativas recentes, ela destacou a criação da bancada feminina e a implantação da Procuradoria da Mulher no Legislativo municipal.

Eleita pela primeira vez, a delegada aposentada Rossana Camacho destacou criação da bancada feminina (Foto: Divulgação)

Para Vânia Ramos, a presença das quatro parlamentares amplia o olhar sobre as demandas sociais. “A mulher tem um olhar de cuidado e de amparo. É um olhar diferenciado para o mundo político. Hoje Marília está bem representada por quatro mulheres, cada uma atuando em seu campo, sempre em prol da população.”

As vereadoras também relatam desafios na atuação política. Rossana Camacho afirmou já ter enfrentado situações de preconceito no ambiente político. “A participação das mulheres no cenário político ainda amedronta algumas pessoas. Por isso temos que ter coragem, bom senso e exigir respeito às nossas ideias”, declarou. Segundo ela, com o tempo, o desempenho político transformou resistências iniciais em reconhecimento. “O que era receio se transformou em respeito político.”

Vania Ramos está em seu segundo mandato consecutivo na Câmara Marília (Foto: Will Rocha/Câmara de Marília)

Apesar dos obstáculos, todas destacam motivações ligadas à atuação social. Fabiana Camarinha afirma que decidiu ingressar na política para dar voz a grupos sem representação. “Como assistente social, me incomodava ver segmentos sem voz e pessoas passando por dificuldades”, disse. Vânia Ramos relata trajetória semelhante. “Sempre atuei na área social desde muito nova. Na política consigo ajudar mais pessoas por meio das políticas públicas.”

Primeira deputada eleita

No plano estadual, outro marco histórico ocorreu em 2022. Pela primeira vez, Marília elegeu uma deputada estadual. Dani Alonso (PL) passou a representar a cidade na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), que até então havia contado apenas com parlamentares homens ligados ao município.

A deputada afirma que ampliar a presença feminina na política é uma das metas de seu mandato. “Tenho certeza de que abrir portas só faz sentido se a gente as mantiver abertas para quem vem depois. Trazer outras mulheres para a política é um objetivo que persigo cotidianamente”, declarou.

Deputada Dani Alonso é a primeira mariliense eleita para cargo na Alesp (Foto: Divulgação)

Entre as iniciativas citadas por ela estão eventos de mobilização política feminina e a criação de estruturas partidárias voltadas à participação das mulheres. “São centenas de mulheres que passaram a integrar uma estrutura partidária e milhares que passaram a debater questões sociais e políticas.”

Dani Alonso também destaca projetos voltados especificamente às mulheres, como a lei estadual que criou a Política de Conscientização e Atenção Integral à Saúde das Mulheres no Climatério e na Menopausa e a legislação que instituiu o selo “Cidade Mulher Paulista”, concedido a municípios que implementam políticas públicas voltadas ao bem-estar feminino.

Mais juízas no Fórum

No Judiciário, o avanço ocorre com maior presença feminina na magistratura local. Atualmente, seis juízas atuam no Fórum da comarca — número considerado inédito na história recente da Justiça local. A diretoria do Fórum voltou a ser ocupada por uma magistrada: a juíza Paula Jacqueline Bredariol de Oliveira, titular da 1ª Vara Cível, que assumiu novamente a função para o biênio 2026–2027.

Segundo ela, o crescimento da participação feminina no Judiciário é resultado de um processo gradual de transformação institucional. “A magistratura ainda é majoritariamente masculina, mas as mulheres têm ocupado de forma crescente espaços de relevância dentro do Judiciário. Esse movimento reflete décadas de dedicação e compromisso das magistradas”, afirmou.

Juíza Paula Jacqueline Bredariol de Oliveira é atual diretora do Fórum de Marília (Foto: Arquivo Pessoal)

A juíza lembra que a diferença de representatividade era ainda maior no início de sua carreira. “Quando ingressei na magistratura, há quase 34 anos, essa diferença era absoluta. Hoje existem políticas públicas voltadas a equalizar essa diferença, inclusive com ações do Conselho Nacional de Justiça”, disse.

Paula Jacqueline também relatou experiências de preconceito ao longo da carreira. “Já presenciei situações em que comportamentos preconceituosos se manifestaram de forma explícita ou velada pelo fato de eu ser mulher. Em alguns momentos, houve tentativas de minimizar minha autoridade ou questionar minha capacidade técnica.”

Apesar disso, ela avalia que o ambiente institucional evoluiu. “Hoje há mais conscientização e mecanismos de enfrentamento, com um ambiente cada vez menos tolerante a práticas discriminatórias.”

Outra magistrada com atuação destacada é Renata Biagioni, coordenadora do Departamento Estadual de Execução Criminal (Deecrim) da 5ª Região Administrativa Judiciária. Juíza desde os 23 anos, ela atua há mais de duas décadas na Vara de Execuções Criminais da comarca.

Renata Biagioni é responsável por 90 mil processos de 39 mil presos em 29 presídios da região (Foto: Rodrigo Viudes/Marília Notícia)

Responsável por supervisionar 29 unidades prisionais, Biagioni acompanha mais de 90 mil processos relacionados a cerca de 39 mil detentos. Segundo ela, os concursos mais recentes da magistratura já apresentam maior equilíbrio de gênero. “No meu concurso, em 1999, foram 51 aprovados, sendo 20 mulheres. Já era um início de equilíbrio, mas antes disso a diferença era bem maior.”

A magistrada afirma que o ambiente do Fórum de Marília é considerado positivo para o trabalho das juízas. “O Fórum é um lugar muito bom para trabalhar. Sempre fomos apoiadas pelos colegas, inclusive em momentos como a licença-maternidade.”

Também atuam no Fórum de Marília as juízas Angela Martinez Heinrich (5ª Vara Cível), Josiane Patricia Cabrini Martins Machado (1ª Vara Criminal), Thais Feguri Krizanowski Farinelli (Vara da Infância e Juventude) e Aline Amaral da Silva. Na Justiça do Trabalho há ainda mais duas magistradas: Érika Rodrigues Pedreus Morete e Daniele Comin Martins.

Nenhuma prefeita eleita

Enquanto Legislativo e Judiciário registram avanços na presença feminina, o Poder Executivo municipal permanece como um espaço ainda inédito para mulheres no comando da cidade. Desde 1929, Marília teve 33 prefeitos ao longo de 41 mandatos e nunca elegeu uma mulher para o cargo.

A participação feminina nas disputas eleitorais é recente. A primeira vez em que mulheres apareceram nas urnas como candidatas à Prefeitura foi nas eleições de 2020, com três concorrentes: Nayara Mazini (Psol), Regiane Mello (PSL) e Lilian Miranda (PCO). Na ocasião, o então prefeito Daniel Alonso foi reeleito.

Na eleição seguinte, em 2024, Nayara Mazini e Lilian Miranda voltaram a disputar o cargo, mas foram derrotadas pelo atual prefeito Vinicius Camarinha.

Embora ainda não tenha eleito uma mulher para comandar o Executivo, o surgimento de candidaturas femininas nas últimas disputas indica um movimento recente de ampliação da participação política na cidade.

Nos três poderes, o aumento da presença feminina aponta para um processo gradual de mudança na ocupação dos espaços institucionais em Marília — uma cidade que, embora carregue nome de mulher, ainda busca maior equilíbrio entre homens e mulheres nos cargos de decisão.

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