Mulheres transformam maternidade atípica em luta por inclusão

Em datas como o 8 de março, flores e mensagens costumam ocupar espaço nas homenagens ao Dia Internacional da Mulher. Mas, longe dos gestos simbólicos, existem histórias que revelam o verdadeiro significado da data: mulheres que enfrentam desafios cotidianos, superam perdas, quebram preconceitos e transformam a própria dor em força para seguir lutando.
Em Marília, a maternidade atípica é parte dessa realidade. Para muitas mulheres, o diagnóstico de um filho não marca apenas o início de um tratamento ou de uma nova rotina — representa também o começo de uma jornada de aprendizado, resistência e reinvenção pessoal.
As histórias de Andreia Oliveira e Camila Fonseca mostram como essa experiência pode ser intensa e transformadora. Entre medos, renúncias e conquistas, elas representam milhares de mães que, todos os dias, constroem caminhos de inclusão e dignidade para seus filhos — e, ao mesmo tempo, redescobrem a própria força.

Andreia Oliveira é mãe de três filhos, dois deles atípicos. Sua jornada começou há 25 anos, com o nascimento de Giovana, diagnosticada com autismo em uma época em que o transtorno ainda era pouco compreendido e frequentemente confundido com hiperatividade.
A infância da menina foi marcada por episódios desafiadores, que exigiam atenção constante da família. O momento mais traumático ocorreu quando Giovana, aos cinco anos, saiu de casa sozinha e ficou desaparecida por cinco horas. Após uma mobilização que envolveu policiais e emissoras de rádio locais, a criança foi encontrada em uma mina d’água em uma favela, por um casal que participava das buscas.
“Naquele dia, eu senti um medo que não dá para explicar. Foi desesperador. Parecia que minha carne ia despregar dos meus ossos, de tão desesperada que eu fiquei. Eu tinha meu menino do meio, que na época tinha só oito meses”, relembra Andreia.
Ela conta que Giovana tinha dificuldade de permanecer em sala de aula e costumava escalar objetos. Em um episódio, chegou a subir em um pé de goiaba e ficou presa entre os galhos.
“Na hora eu não fiquei sabendo. Me contaram quando já estava tudo bem, mas me falaram para procurar uma psicóloga para a Giovana. Eu procurei ajuda e ela começou a fazer acompanhamento. Mas quando ela sumiu eu fiquei tão abalada. Fiquei muito traumatizada com o sumiço da Giovana”, relata.

Anos depois, Andreia enfrentaria outro capítulo doloroso. Grávida de gêmeas, ela passou 33 dias internada devido a complicações na gestação. As bebês nasceram com apenas 25 semanas. Júlia não resistiu e morreu poucas horas após o parto. Eduarda, conhecida como Duda, hoje com 11 anos, sobreviveu após um longo período na UTI neonatal.
Durante a internação, em meio a uma greve hospitalar ocorrida em 2014, um exame oftalmológico essencial não foi realizado no tempo adequado. A família comprovou judicialmente que houve negligência no acompanhamento, mas o diagnóstico tardio resultou na perda irreversível da visão da menina.
Além dos desafios médicos, Andreia também enfrentou preconceito, inclusive dentro da própria família. Ainda assim, transformou a dor em mobilização social. Atualmente, apoia o filho Gabriel, de 20 anos, estudante de engenharia, e atua de forma ativa na defesa dos direitos das pessoas com deficiência.
Ela integra a Adevimari, colabora com o Espaço Potencial — que teve Giovana entre as primeiras assistidas — e é voluntária na Amapom. Para Andreia, a inclusão ainda está distante do ideal.
“Infelizmente, a inclusão muitas vezes só existe no papel. Uma mãe atípica precisa lutar muito para que seus filhos sejam reconhecidos como pessoas de direitos. Não desistam nunca dos seus filhos. Para mães atípicas não existe a frase ‘não tem jeito’. A gente encontra a maneira e faz acontecer”, afirma.

O reencontro com a própria identidade
Aos 37 anos, Camila Fonseca também conhece de perto os desafios da maternidade atípica. Mãe de Íris, de quatro anos, e de Lucca, de seis anos, diagnosticado com autismo nível 3 de suporte, ela viu a rotina da família mudar completamente após o filho apresentar regressão no desenvolvimento, aos um ano e 10 meses.
Desde então, o cotidiano passou a ser organizado em torno de três a quatro horas diárias de terapias, de segunda a sábado. A carga emocional e financeira é intensa. Camila relata que enfrentou dificuldades no processo de matrícula escolar e barreiras sociais que, muitas vezes, aparecem de forma velada.
No início, a dedicação integral ao desenvolvimento do filho fez com que ela deixasse de lado a própria identidade.
“A gente esquece da mulher, do casamento, da casa. Foca só na criança. Eu não conseguia ter um momento para me cuidar”, conta.

O ponto de virada veio com informação, apoio profissional e a compreensão de que o equilíbrio familiar também é essencial.
“A gente precisa viver a vida. No final das contas, temos que criar memórias, e não só lembranças de terapias”, reflete.
Camila encontrou suporte na Associação de Mães de Autistas e Neurodivergentes de Marília (Amandim), grupo formado por mulheres que atuam na busca por políticas públicas para crianças neurodivergentes. No coletivo, ela descobriu a força do apoio mútuo.
“Ajuda demais ter outras mulheres que vivem a mesma realidade. Dá forças para entender que você não está sozinha. Existe vida depois do diagnóstico”, afirma.
As histórias de Andreia e Camila mostram que a maternidade atípica é marcada por desafios constantes, renúncias e enfrentamentos diários, mas também evidenciam a força feminina capaz de transformar dor em mobilização e incerteza em esperança.
Neste 8 de março, as vozes dessas mulheres reforçam que celebrar o Dia Internacional da Mulher também significa reconhecer aquelas que lutam todos os dias para garantir inclusão, respeito e dignidade. Ao abrirem caminhos para os filhos, elas iluminam a sociedade com exemplos de coragem, resiliência e amor incondicional.