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Resiliência: a adaptação necessária para uma vida com sentido

Coluna
23 de julho de 2019

Quem tem um porque, enfrenta qualquer como”.

De forma objetiva, podemos entender que a resiliência está na capacidade que cada ser humano possui (ou não) de lidar com mudanças e superar dificuldades sem perder o controle e suprimir ao desânimo ou desespero. Significa encontrar soluções para lidar com o problema. Podemos dizer que uma pessoa é resiliente quando transcende a dor encarando a dificuldade como passageira e seguindo adiante em busca de adaptação e novas possibilidades

Se pesquisarmos um pouquinho, encontramos exemplos prático de resiliência na Segunda Guerra Mundial, onde ocorreram os episódios mais terríveis de toda a história da Humanidade. Imagine como seria viver num campo de concentração?  O médico psiquiátrico austríaco Viktor Frankl (1905 – 1997) experimentou na pele durante três anos o inferno de viver em quatro diferentes campos de concentração nazista: os guetos de Theresienstadt, Auschwitz, Kaufering e, por fim, Türkheim. E seu livro “Em busca de sentido”,  conta que após ser separado de sua mãe, irmão e esposa, Viktor lutou por manter a calma interior e resistir aos horrores do local se concentrando no seu trabalho – com a ajuda de algumas folhas de papéis roubados do escritório nazista, o psiquiatra começava a escrever aquele que seria o seu livro de maior sucesso. Em 1945, o campo de concentração onde estava preso foi libertado pelos Aliados. Como se não bastasse todo o sofrimento dos últimos anos, Viktor descobre que sua mãe, esposa e irmão foram assassinados nas câmaras de gás de Auschwitz.

Mesmo depois de todos esses eventos trágicos, Frankl consegue ultrapassar a depressão e seguir com a sua vida. Torna-se um dos mais prestigiados psiquiatras do mundo, sendo convidado para lecionar em importantes universidades, como Harvard e Cambridge, por exemplo. Frankl é conhecido por ser o fundador da Logoterapia, uma vertente da psiquiatria que explora o sentido da existência do indivíduo e a sua dimensão espiritual. Os estudos de Frankl estão intimamente relacionados com os conceitos de resiliência “Tudo pode ser tirado de um homem, exceto uma coisa: a última das liberdades humanas – escolher a sua atitude em um determinado conjunto de circunstâncias, escolher seu próprio caminho” (Viktor Frankl).

Longe do extremo da 2ª Guerra Mundial e as durezas que enfrentamos em nosso dia a dia?  Por quantos violentos golpes temos somos surpreendidos e temos que superá-los?  A perda de um emprego, um amor que desistiu de continuar, a morte de um ente querido, a doença que chega e nos torna impotente diante da vida, a meta não alcançada que ameaça nosso foco e posição social.  O carro que quebra justo quando sobrou uma graninha, a viagem dos sonhos desmarcada, a festa cancelada e por ai vai… não temos como fugir. As mudanças, os imprevistos, a dores sempre vão cruzar nosso caminho em algum momento e aí como será nossa RESILIÊNCIA diante dos acontecimentos? Pela teoria e prática de Viktor Frankl o ser humano tem sempre a liberdade de escolher a postura que adota perante os condicionamentos e circunstâncias que a vida lhe apresenta. E essa postura, segundo ele, está intimamente ligada a um sentido que você dá para sua vida.  A resiliência ou falta dela, irá depender em muito do porquê de sua existência.

Para sem bem simples vou usar como exemplo a neurose dominical. Trata-se de uma “espécie de depressão que acomete pessoas que se dão conta da falta de conteúdo de suas vidas quando passa o corre-corre da semana atarefada e o vazio dentro delas se torna manifesto” (Frankl, 2008, p. 132). O indivíduo restringe a vida ao âmbito profissional, não sabendo que sentido atribuir a sua vida para além de tal contexto, quando tem um dia de descanso, um tempo livre, quando está com outras pessoas ou mesmo a sós, consigo mesmo. Sendo, portanto, forçado a se confrontar com outros aspectos de sua vida negligenciados durante a semana. “E, na ausência de emprego, qual o significado poder-se-ia atribuir à vida? A existência passa a ser enfrentada, portanto, como um vazio, uma neurose não apenas vivenciada em um dia da semana, mas todos os dias” (Guedes & Gaudêncio, 2012, p. 34).

Entretanto, o sentido não está presente apenas na atividade da vida, quando a pessoa realiza valores através da sua criatividade ou quando experimenta o amor ou o que é belo, entre outros aspectos. É possível encontrar sentido também no sofrimento, “quando nos vemos numa situação sem esperança, na qualidade de vítimas sem nenhuma ajuda, mesmo quando enfrentamos um destino que não pode ser mudado” (Frankl, 2005, p. 33). O sentido está na forma como se lida com ele, na atitude que se toma perante aquilo que é imutável na vida, na busca de vivenciar tal situação com dignidade, com coragem. Se a vida tem sentido, o sofrer, que é inerente ao ser humano, também tem.

Como estímulo à resiliência, diante das dores, sofrimentos, obstáculos e dificuldades que possam surgir em sua vida, deixo uma das mais célebres frases de Frankl como reflexão: “Quem tem um porque, enfrenta qualquer como” (pense nisso!)

Fonte: Frankl, V. E. (2008). Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Petrópolis: Vozes.

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Suzana Julião –  Jornalista, especialista em Comunicação Organizacional e estudante de Psicologia

@psicoreviver