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Pais celebram amor que não nasceu da barriga, mas cresceu no coração

Cidade
25 de maio de 2022

Jornalista Tathiana Camargo e o marido Leonardo Lopes em registro do dia em que ‘ganharam’ Letícia (Foto: Arquivo Pessoal)

O lema do clássico comercial de uma instituição bancária, que tomou as redes sociais há alguns anos, é realidade para muitos – principalmente, àqueles que optaram pela adoção. Gerar um filho no ventre ou no coração pode ser encarado como uma escolha ou mesmo necessidade, no caso de quem não pode ter filhos de forma natural.

No Dia Nacional da Adoção, celebrado nesta quarta-feira (25), os pais que experimentaram as duas experiências garantem que o amor não muda.

A data tem significado ainda maior para quem sempre teve o desejo de ser mãe, ou pai, mas não teve condições, também para as crianças que conseguiram uma família e às famílias que se formaram a partir da chegada dos filhos ou espera de um.

Em Marília, cerca de 100 pessoas aguardam na lista à espera por uma criança. Infelizmente, a conta acaba não fechando porque quase todas escolhem bebês ou crianças com até três anos.

Segundo o juiz da Vara da Infância e Juventude de Marília, José Roberto Nogueira Nascimento, “quem aguarda por um bebê vai esperar na fila cerca de cinco anos ou um mais. Uma situação que pode eventualmente ‘furar a fila’ é a adoção de irmãos. Aquele que tem condição financeira e disposição para adotar mais de uma criança, certamente passará na frente”, explica.

ADOÇÃO EM DOSE TRIPLA

Maria Fernanda e Vinícius adotaram três irmãos, dois meninos e uma menina (Foto: Arquivo Pessoal)

Foi o caso da bancária Maria Fernanda Barbosa. Como ela e o marido, Vinícius, não podiam engravidar, sempre souberam que a adoção seria o meio para que pudessem aumentar a família. Eles entraram com o processo de adoção em maio de 2019 e receberam a ligação do Fórum em dezembro do mesmo ano.

“Foi um período rápido, a gente acredita que não teve tanta espera porque o nosso leque era muito aberto. Era uma família, dois meninos, um de dois e outro de três anos, e uma menina de seis anos. Foi uma decisão maravilhosa, eles são uma benção nas nossas vidas”, conta Maria Fernanda.

As crianças foram encaminhadas para a adoção depois de terem sido retiradas da mãe biológica, que não tinha condições de cuidar. Maria Fernanda e Vinícius foram escolhidos porque já haviam deixado registrado no processo que aceitariam irmãos, gêmeos ou não, crianças com até seis ou sete anos, e não estipularam cor ou sexo.

Em dezembro de 2020, o casal já estava com a guarda definitiva das crianças.

PRESENTE DE DEUS

Leonardo e Tathiana com os filhos Letícia e André (Foto: Arquivo Pessoal)

A jornalista Tathiana Camargo ainda não sabia que estava grávida quando foi buscar a filha Letícia, fruto da adoção. Com dificuldade para engravidar, ela passou por processos de inseminação artificial e fertilização, e ficou sete anos na fila da adoção.

“Eu falo que aceitei o presente de Deus e ganhei o milagre. Adoção é o tempo de Deus, não é seu tempo. Estava grávida de 11 semanas quando peguei a Letícia, e o André nasceu de sete meses, porque tive trombofilia. Então, em menos de um ano, ganhei dois filhos”, conta a jornalista.

Tathiana lembra que também foi adotada quando criança e entende todas as dificuldades da filha: “Eu sei das minhas dores, e eu protejo muito. Acho que tenho até mais preocupação em relação ao André porque, por eu ser adotada, protejo mais ela”.

Leonardo Lopes, defensor público e marido de Tathiana, ressalta que não há diferença no amor entre os filhos. “No primeiro momento em que você vê [a criança adotada], você já sente aquela paixão, é algo indescritível. Ela chegou para gente com um ano e um mês, e é a coisa mais maravilhosa do mundo. Como trabalho na área jurídica, só peço que as pessoas façam a habilitação de forma correta, não peguem a criança para cuidar sem os trâmites legais para que não haja sofrimento. Mas é uma benção”, afirma.

COMO FUNCIONA

Para adotar, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece que é possível se cadastrar perante à Vara da Infância e Juventude qualquer pessoa maior de 18 anos, com boa conduta moral e social. Em se tratando de casal, não é necessário que sejam casados legalmente. A diferença de idade entre o adotante e a criança ou adolescente adotada não pode ser menor do que 16 anos.

Aquele que pretende adotar deve procurar a Vara da Infância e lá será orientado a buscar o setor técnico, que é composto por psicólogas e assistentes sociais. As profissionais irão fazer uma entrevista com esses pretendentes, indicar a documentação necessária para o cadastro, e transmitir orientações da forma como o processo é conduzido e a expectativa do prazo para que a pessoa ou casal alcance a adoção pretendida.

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) também estabeleceu por regra que, antes da adoção, o interessado deve participar de um curso preparatório, que é ministrado por psicólogas e assistentes sociais. As aulas são uma oportunidade para esclarecer todas as dúvidas sobre o processo.