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Os poetas caipiras e os conflitos da vida

Coluna
15 de abril de 2021

Diz os véio de outras era

Que quando São João sentia

Sodade de Jesus Cristo

E da sua companhia

Garrava logo na viola para chorar

Sua sodade e a sua malincolia

‘Chico Beleza’, de Catulo da Paixão Cearense

Foi pela voz do outro lado do telefone que Renato Teixeira me corrigiu: “não se fala moda-raiz, é moda caipira o correto. Raiz é algo que está escondido e que ninguém vê. Componho música para ser ouvida, cantada e interpretada. Faço sim moda caipira”. A entrevista acontecia numa tarde, antevéspera do show que o compositor de ‘Romaria’, ‘Tocando em frente’ e ‘Frete’ faria no Teatro Municipal “Waldir Silveira Mello”, na avenida Rio Branco, no Centro de Marília. Aqui preciso fazer uma rápida intersecção. Por conta dos 92 anos da cidade Símbolo de Amor e Liberdade, me peguei pensando qual rua era a que mais me agradava. E, não pensei duas vezes: avenida Rio Branco, por ter seus coqueiros ou palmeiras no canteiro central, que remetem tanto a Malibu, na Califórnia, quanto Havana, em Cuba. É avenida que me faz viajar para outros lugares sem sair de Marília.

Entrevistar Renato Teixeira consistiu num dos maiores prêmios que a Imprensa e o Jornalismo me contemplaram nestes mais de 25 anos de estrada na Comunicação Social. Quando criança, imaginava o épico enredo da trajetória do personagem de ‘Sina de Violeiro’, com todas as fases da formação de uma pessoa e seu contexto familiar. Achava que era uma música autobiográfica, mas Renato Teixeira me diria nesta entrevista que não. “Sabe, fiz esta música pensando naquelas modas antigas, recheadas de tragédias e honra, onde o homem, após cometer o crime passional, se apresenta ao delegado e diz: ‘aqui, doutor, está o punhal com que tirei a vida daquela ingrata e do amigo traiçoeiro”, relatou. Em ‘Cabocla Tereza’, clássico composto por João Pacífico (1909-1998) ocorre algo assim, o narrador confessa seu crime após sofrer o golpe do desprezo de sua amada.

O show de Renato Teixeira foi intimista, descontraído, batendo um papo com o público. Me contaram, depois, que o saudoso Gonzaguinha (1945-1991) adotava empatia e suavidade semelhantes em suas apresentações. Ao final do espetáculo em Marília, me dirigi com a minha esposa até o camarim para, enfim, conhecer pessoalmente um dos meus ídolos da infância que continuaram me inspirando na vida adulta. Renato Teixeira acendeu um “paieiro” e me deu um abraço, agradecendo a reportagem.

Desde então, tirei do meu vocabulário o termo ‘moda-raiz’ e só me refiro aos poetas do campo como compositores ou autores caipiras. Sou nascido em Paraguaçu Paulista e de lá também é Nhô Pai (1912-1988), um dos primeiros músicos da moda caipira, nas primeiras levas de artistas com enfoque rural. ‘Beijinho doce’ é de autoria dele, que, depois me contaram, viveu praticamente no mesmo bairro em que nasci lá em Paraguaçu Paulista. Nesta mesma cidade, as Galvão iniciaram sua trajetória artística, se apresentando na extinta rádio Marconi AM (também cheguei a trabalhar nesta emissora, no começo da minha trajetória na Comunicação Social).

Conheci pessoalmente as irmãs Meire e Marilene Galvão pouco tempo atrás, quando a dupla esteve na Estância Turística de Paraguaçu Paulista para show por ocasião de aniversário de emancipação política da cidade.

Acompanhado de minha mãe, a professora e diretora aposentada Cláudia Aparecida, fomos recebidos pelas artistas no saguão do hotel em que estavam hospedadas, na avenida Paraguaçu, no Centro da cidade. Falamos sobre José Fortuna (1923-1983), que era nascido em Itápolis e foi outro imenso compositor. José Fortuna compôs ‘Terra Tombada’ e ‘Riozinho’, também assinou as versões em português de ‘Índia’ e ‘Meu Primeiro Amor’. ‘Riozinho’ é a mais lírica de todas as modas caipiras que sintetizam a pureza da vida em harmonia e consonância com o meio ambiente, em especial com as águas e matas ciliares. É das entranhas da mãe-terra que nascemos e, para lá, voltaremos, seja na forma de pó ou feito gota de rio.

Os poetas caipiras – e o professor doutor Romildo Sant’Anna, que lecionou no curso de Jornalismo que frequentei na Universidade de Marília é um profundo conhecedor desta galera genial e autêntica – conseguem contextualizar nos carreadores de café e nos traçados de carros-de-boi, que sempre levantam um poeirão, os mesmos conflitos e dramas que estão em William Shakespeare (1564-1616), seja em ‘Romeu e Julieta’ ou ‘Ricardo III’. A mesma dramaticidade das tragédias do teatro grego ou das narrativas dos clássicos da Literatura Universal.

‘Travessia do Araguaia’, de Dino Franco (1936-2014), guardada as devidas características de música e literatura ou cinema, dialoga com o mesmo inescrutável mistério que Niko Kazantzakis romanceou no que chamou de incessante e inexorável batalha entre o espírito e a carne para compor ‘A última tentação’ – que virou o filme ‘A última tentação de Cristo’, de 1988, dirigido por Martin Scorsese e com o papel de Jesus Cristo interpretado pelo ator Willem Dafoe.

Na moda, a indignação do ponteiro (‘moço novo, muito desembaraçado’), com o trágico fim do boi velho imolado que salva o rebanho, tem certa conexão com o que o romancista grego maturou e germinou antes de narrar ‘A última tentação’. “todo homem é um homem-Deus, carne e espírito. Por isso, o mistério de Cristo não é só o mistério de um culto particular, mas um mistério que alcança todos os homens. Em cada homem existe a luta entre Deus e o homem, inseparável de seu ansioso desejo de reconciliação”, escreveu Kazantzakis (1883-1957).

E conforme compôs Catulo da Paixão Cearense, o Poeta do Sertão (1863-1946), em ‘Chico Beleza’, para amenizar a saudade do Cristo, São João ponteava uma moda na sua viola.