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Lobos em pele de cordeiros: cuidado com os manipuladores

Coluna
05 de junho de 2019

Nada pode ser mais tóxico emocionalmente do que a convivência com uma pessoa manipuladora, seja numa relação de amizade, trabalho ou amorosa.

Com atitudes teatrais, os manipuladores são excelentes atores da vida real. Sedutores, visto de fora, eles são considerados indivíduos perfeitos que poderiam até ser invejados por sua conduta. Só que não mesmo. Eles têm diferentes facetas, e se movem rapidamente de uma para outra. Sendo capazes de humilhar e diminuir suas vítimas diariamente, mas também dizer-lhes que querem apenas sua felicidade.

Donos de boa oratória, peritos em vender suas “qualidades” e convencer a todos que eles são as melhores pessoas do mundo, as mais honestas, as mais legais, com as melhores intenções, são capazes de convencer rapidamente, principalmente os que adoram ser elogiados. Grande parte das pessoas manipuladoras são pseudomilitantes  de causas nobres, dais quais muitas vezes as utilizam como esconderijo para suas artimanhas manipuladoras e de suas falácias.

Um manipulador é o famoso “lobo em pele de cordeiro”. Pessoa afável, aquele tipo que sempre queremos ter por perto antes de descobrir sua real intenção.  Já sem máscara, um manipulador nato não enxerga ninguém como amigo. Para ele, as pessoas são meras “pontes” que as levarão rumo aos seus objetivos. Manipuladores entram no íntimo de suas vítimas e podem destruí-las emocionalmente.

Existe até um termo, o gaslighting, que começou a ser utilizado para descrever fenômenos psicológicos que envolvessem manipulação de pessoas em meados da década de 1960. Esse fenômeno, que se sustenta por meio de mentiras e manipulações, tem o objetivo de alterar a percepção de realidade das vítimas, levando-as a questionarem suas memórias e até a própria sanidade. A Dra. Stephanie Sarkis, terapeuta especialista no assunto,  é autora de um livro sobre manipulação emocional e apresenta as variadas facetas desse fenômeno, descrevendo o comportamento gaslighting em todos os cenários da vida, além da forma de reconhecer esses exímios manipuladores. Seja um cônjuge, namorado, pai, colega de trabalho ou amigo, os gaslighters distorcem a verdade mentindo, escondendo informações e até colocando os outros contra você.

No trabalho mostram-se solícitos e bajuladores, quando em atuação os alvos da “boa vontade” ficam encantados com tamanha dedicação. Nas amizades, faz de tudo para parecer confiável, pouco fala sobre sua vida, mas quer saber todos os detalhes da vida do amigo e com isso ter acesso às fragilidades das quais irá se utilizar posteriormente. Em relacionamento amorosos,  encontramos na  literatura especializada, centenas de comportamentos como mentir o tempo todo, fazer com o que o(a) parceiro(a) se sinta inferior e/ou desvalorizado(a), chantagem emocional, ciúmes excessivo, etc.

As pessoas manipuladoras nunca têm culpa de nada. Independentemente do tipo de erro que tenham cometido, o culpado sempre é o outro. Se você está chateado ou triste, a culpa é das suas expectativas elevadas; se o manipulador está triste, a culpa é sua de tê-lo entristecido. Os manipuladores emocionais não se responsabilizam por nada.

Tipos de frases que manipuladores podem utilizar:

“eu tenho tanta consideração por ela(e)”: em muitos casos, a frase é dita como uma estratégia para parecer bonzinho aos olhos de outros, utilizada com os que estão ao redor da vítima. Esta condição permite criar uma espécie de imunidade que faz parecer que tudo o que  o manipulador diz é verdade e que tudo o que ela faz é bem intencionado.

Você é quem sabe…” –  Quando duas pessoas chegam a um impasse de poder, no qual o indivíduo manipulador ostenta a posição mais vantajosa, a pessoa manipulada pode se sentir ameaçada em perder determinadas vantagens caso não obedeça ao manipulador.  O tom da chantagem aparece quando o manipulador dá a entender que se você não fizer X, a relação entre vocês sofrerá ressentimentos em consequências do que lhe foi negado.

Se você não fizer, eu também não faço.” – Por trás dessa carinhosa declaração de boas intenções, se encontra escondida uma feroz manipulação, na qual quem manipula apela para a capacidade de empatia do outro. Em sua tradução mais extrema, esse auto castigo chega a uma autolesão por parte do manipulador.

Está tudo bem…” – Depois disso vem um silêncio prolongado e, normalmente, a raiva vem acompanhada de uma linguagem não verbal. É uma técnica muito comum para fazer os outros se sentirem culpados.

“Depois de tudo que eu já fiz por você?” – Essa é a manipulação por excelência, e a que a maioria das pessoas utiliza, seu objetivo é fazer a culpa do outro (provavelmente infundada) ganhar uma proporção exacerbada.

“Sem você não sou nada.” – O vitimismo é uma forma muito básica, mas ainda assim eficiente, de fazer o outro se sentir culpado e consequentemente fragilizado, tornando-se uma presa fácil para a manipulação.

É necessário se proteger em quanto ainda é tempo

Se perceber que está  que está se relacionando com uma pessoa manipuladora, reflita sobre as atitudes  dele com você, como você se comporta diante das ações e quais mudanças deverá fazer, pois quando a máscara cair será um pesadelo diário,  e a atitude mais adequada é se afastar o mais rápido possível.

Não se prenda a ilusão de tentar mudá-lo pois você perderá seu tempo e energia. Se não for possível se afastar, por exemplo, em uma relação de trabalho, experimente a contra manipulação, mostre-lhe que ele não está alcançando você emocionalmente.  Estratégias como usar ironia, humor, frases evasivas para desarmar situações, para evitar argumentos e tensões podem ser usadas, mas com cuidado e em momentos adequados para não despertar ainda mais o foco da manipulação em você.

Em relações amorosas, se você chegou à conclusão de que compartilha a vida com um manipulador e que está gradualmente destruindo você, não espere para se libertar e assumir o controle de sua vida.  Ninguém deve se submeter às chantagens e ameaças potenciais em nome do amor. Prepare secretamente seu distanciamento, compartilhe com pessoas em que confia e possa apoiá-lo nessa fase.  A separação poderá ser difícil, mas ao longo do tempo, verá o quão benéfico foi. Um relacionamento com um manipulador é destrutivo. E lembre-se:  Nunca é alto o preço a se pagar pelo privilégio de pertencer a si mesmo.”  – Friedrich Nietzsche.

Livros utilizados como fontes:

  • Mentes perigosas: O psicopata mora ao lado – Ana Beatriz Barbosa Silva
  • As Emoções das Pessoas Normais – William Moulton Marston
  • O Fenômeno Gaslighting: Saiba como funciona a estratégia de pessoas manipuladoras para distorcer a verdade e manter você sob controle – Stephanie Sarkis