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A importância da tristeza

Geral
26 de abril de 2016

Olá, prezado leitor!

“Não fique triste, deixe para lá”, “devemos ser felizes”, “ser feliz é o que importa”; essas são algumas das frases que nos rodeiam por aí. É na fotografia, na capa da revista, em uma festa, no rosto da atendente do balcão, na música animada que deveria estar tocando, os sorrisos sempre são exigidos no nosso cotidiano.  Devemos estar sempre de “bem com a vida” e, como se fosse uma obrigação, a felicidade é estimulada e até forjada pelas pessoas nos mais diversos contextos e redes sociais.

E pegamo-nos soltando frases como essas por aí. Isso até reflete a boa intenção de bem-querer a alguém ou a nós mesmos. Claro, o ser humano quer estar bem. É claro que devemos buscar a felicidade, mas pergunto a você, prezado leitor: o que há de errado com a tristeza?

No mundo em que vivemos, parece ser necessariamente ruim estar triste. Mas será que a tristeza é necessariamente um mal? Na coluna de hoje convido você a pensar na verdadeira potência do sentimento de tristeza. Vamos às nossas regrinhas de sempre:

Regra 1: Não estamos em completo comando de nossa mente.

Regra 2: Vamos abstrair. A nossa mente é composta de representações.

Regra 3: Talvez não pareça, mas a mente é bastante complexa.

Regra 4: Na mente, coisas contraditórias podem coexistir.

Retomando, imagine só como ficaria toda a turma de sentimentos com as preferências todas voltadas para o sentimento de felicidade – diria o poeta (regrinha nº2, ok?). Como se fosse a irmã feinha da felicidade, a tristeza é vista com maus olhos pelas pessoas. Ela não tem espaço no mundo pós-moderno e penso que a sociedade a rebaixa a um nível injusto.

Mas digo a você, caro leitor, que por mais que torçamos o nariz para a tristeza, ela pode ser boa (regra nº4). Sim! Ela tem uma função muito importante para o desenvolvimento psíquico: nos guiar para enxergarmos novas possibilidades. Hein? Bem, para ilustrar melhor, trago para a coluna de hoje uma reflexão sobre a animação Divertida Mente (Disney/Pixar – 2015).

Riley é uma menina de onze anos que mora com os pais em uma cidade no estado de Minnesota, EUA. Enquanto isso, Alegria, Raiva, Nojinho, Medo e Tristeza revezam o comando em uma espécie de sala de comando dentro da mente de Riley. Por conta da decisão de seus pais de mudar para São Francisco, Riley passa a ter que encarar mudanças importantes em sua vida como deixar a escola, os amigos e seu time de hóquei. Após Riley fugir de casa, fica a cargo da Tristeza ajudá-la na decisão de retornar para casa  e encarar de frente as mudanças em sua vida.

Divertida Mente foi vencedora do Oscar 2016 na categoria de melhor animação. Na estória, fica clara a função de cada sentimento na vida de Riley, menos a tristeza: ali na sala de comando, ninguém sabe muito pra que ela serve. E parece que na vida real vivemos isso de uma maneira não muito diferente.

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É gostoso e muito bom estar feliz. Nisso não há duvidas. No entanto, é por meio da tristeza que podemos mergulhar e, como um escafandrista (regra nº2), rumar para estados profundos em nossas águas mentais que podem nos levar encontrar novos, preciosos e bons caminhos.  É que ela vem de mãos dadas com um estadozinho muito importante para a nossa saúde mental: a introspecção (do latim introspectio e onis, olhar para dentro – Dicionário Priberam, www.priberam.pt). Assim, a tristeza e a introspecção, quando não acompanhados pela culpa e/ou exigências excessivas (associadas à depressão) podem nos ajudar como uma alavanca em direção à solução de nossas dificuldades.

O sentimento de felicidade seria como aquele amigo que é o mais popular de toda a festa (regra nº2), e que quase todo mundo gosta. Frequentemente nos pegamos querendo excluir e debandar sentimentos que não gostamos muito e não nos trazem de imediato alguma satisfação. Mas fazer isso não é sinônimo de estar bem (regrinha nº3).

Por fim, não é possível escolher sentimento – diria até que são eles quem nos escolhem (regra nº1). Mas podem ser bem aproveitados. E a tristeza, como nos mostra a animação, nos leva à erupção – como um vulcão, mesmo – de um ladinho criativo nosso para encarar os conflitos da nossa vida de dentro e de fora. Ora, não é que a danada da tristeza é dona de uma grande nobreza?!

Um abraço carinhoso e até a próxima coluna!