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Brasil e Mundo
qui. 08 fev. 2024
MATERNIDADE

Abrir mão da maternidade pode ser ponto de partida para sonhos e ambições

Psicóloga afirma que a pressão para que as mulheres tenham filhos é uma carga que não deveria ser delas.
por Folhapress

Ao passar dos 35 anos, a babá Anailda Santos, 41, começou a questionar se ainda poderia ter filhos, e, aos 39, percebeu que não era mais algo que fazia sentido para ela. “Não realizar esse sonho foi frustrante, mas hoje estou bem mais tranquila. Passei a ver a vida de outra forma. Penso que tudo é da vontade de Deus”, conta.

De família grande, ela viu todas as irmãs serem mães e sofreu com a cobrança. “Crítica é o que mais tem. Já ouvi muito que vou ficar para titia, que todo mundo tem que ter um filho, que vou morrer sozinha.

Antes ficava muito triste, mas hoje consigo lidar bem com a situação. Ter um filho não é garantia que ele vai cuidar de mim quando eu estiver velhinha”, diz Santos.

A profissão e a falta de uma rede para cuidar dos filhos foram outros fatores que afetaram sua decisão.

“Foi um processo depois que me mudei para São Paulo. Aqui não tenho apoio de familiares e a profissão é complicada, porque tenho que estar disponível. A criança fica doente, preciso entrar mais cedo, ou a patroa precisa que fique até mais tarde. Às vezes, vamos fazer entrevista e as patroas preferem quem não tem filhos. É bem complicado”, afirma.

O psicólogo clínico Paulo Cesar T. Ribeiro, que atua na Clínica Paulista de Medicina Reprodutiva, diz que é comum a família, o círculo social e, muitas vezes, o próprio marido exercerem pressão sobre as mulheres para que tenham um filho.

“Fazem perguntas como quando vem os meus netos’; ‘cadê os meus sobrinhos’ ou afirmações como poxa vida, você já tem um tempão de casada e ainda não tem filhos’. E quando o casal tenta ter filhos, especialmente quando fazem uma fertilização in vitro [FIV] e não dá certo, essas mulheres podem ficar deprimidas, angustiadas e ter sintomas físicos como enxaquecas e gastrites. Elas somatizam em forma de doenças”, afirma Ribeiro.

Nesses casos, a psicoterapia pode ajudar. “Elas podem expor as dificuldades, frustrações e serão orientadas para adquirirem uma qualidade de vida melhor, sem essa autopressão. Também ajuda essas mulheres a lidarem com o luto que a infertilidade causa”, reforça o psicólogo.

Esgotados todos os recursos para obtenção da gravidez, inclusive a adoção, por qualquer motivo, a recomendação é focar em outros objetivos de vida. “A mulher, um casal, podem se dedicar a projetos. Desistir [de ter filhos] não é um fracasso. E a aceitação de uma realidade é também o ponto de partida para novos voos”, defende Ribeiro.

Foi o caso da diretora comercial Elisangela Gobbi, 45. Ela tentou FIV em 2018 e, quando não deu certo, decidiu seguir em frente.

“Não é a questão de desistir da maternidade, mas não focar a vida só nisso. Já temos 22 anos de casados, nunca engravidei, nunca deu certo. Mas tocamos a vida. Porque tem mulheres que vivem nessa causa e ficam piradas”, avalia.

Gobbi diz que a parceria do marido foi essencial no processo e que hoje os dois são pais e avós de pet, em uma família linda e muito feliz. “Como somos os filhos mais velhos, sempre teve a pressão de engravidar após o casamento. Fizemos todo tipo de exames que os médicos recomendaram e não deu certo. É um processo caro e, mais que isso, desgastante demais. É muito cruel a espera, a angústia e o negativo”, conta.

Apesar de nunca ter se visto como mãe, Gobbi achava bonita a ideia de gestar um filho e não foi sem lágrimas que mudou de ideia. “Meu esposo olhou bem para mim e falou assim: se você quiser, tentamos tudo de novo… Mas pensa bem se é o que você precisa, porque nos damos bem, somos felizes e se eu e o Ted (meu pet) não somos suficientes para te fazer feliz, e só um filho vai fazer, recomeçamos a tentar. Naquele momento eu falei que esse assunto estaria encerrado”, lembra.

A psicóloga Camila Britto, especialista em terapia cognitivo-comportamental, afirma que a pressão para que as mulheres tenham filhos é uma carga que não deveria ser delas. “Se a mulher simplesmente cede a essa pressão, sem perceber se de fato esse ser mãe é um desejo seu, ela cai em uma armadilha perigosa, baseando sua vida na opinião alheia”, diz Britto.

Já aquela que decide ser mãe, mas se frustra depois de muitas tentativas ou por qualquer razão, a psicóloga afirma que é necessário um processo de desconstrução e mudança de foco, além de um aprendizado sobre como “colocar limites na falta de bom senso e intromissão de algumas pessoas”.

“A gente pode trocar um pouco essa questão do desistir por recalcular. É possível direcionar essa energia de gerar e criar para outros lugares: projeto de estudo, de carreira, um novo hobby, alguma causa ou mesmo a família. Descobrir outras prioridades, desapegando das antigas expectativas”, afirma Britto.

A professora Nathalia Rodrigues, mestre e doutora em História Política pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), conta que há séculos a maternidade, especialmente o “parir”, é uma questão compulsória no Brasil, remontando ainda à colonização por Portugal e ao casamento que deveria gerar herdeiros.

“A pressão é especialmente sobre o gerar filhos biológicos. É sobre dar continuidade à família biológica e isso, não por acaso, está relacionado ao período colonial, a essa estrutura social que vai ser formada a partir de uma sociedade patriarcal portuguesa e extremamente católica”, diz a historiadora.

Essa demanda, entretanto, sofre certo desajuste com nossos tempos, nos quais elas também trabalham fora de casa. “Boa parte dos problemas de uma mulher que tem ou já teve sucesso na sua carreira e que agora se tornou mãe ou que quer tentar equilibrar essa conta, passaria por ter uma rede de apoio, não só o pai. Quando se tem um pai presente já é um grande bônus, mas não é a realidade da maioria absoluta das mães no Brasil”, aponta Rodrigues.

Especialista em terapia comportamental dialética (DBT) e neuropsicóloga, Gabriela Borba reforça que mais apoio e menos críticas são fundamentais, e que aceitar a condição depois de tentativas frustradas pode ser, inclusive, algo positivo.

“Algumas podem se sentir aliviadas, enquanto outras podem precisar de tempo maior para processar seus sentimentos. Ao desistir da busca pela maternidade biológica, uma mulher pode encontrar espaço para focar em outros aspectos, reavaliando os seus valores de vida”, diz Borba.

A neuropsicóloga diz que a interpretação de desistência como fracasso é incorreta e que prefere trabalhar com o termo “aceitação radical”, que é quando permitimos que pensamentos, emoções e sensações físicas surjam sem tentar mudá-los ou controlá-los.

“Em vez de lutar contra essas experiências, passamos a observar e aceitar, confirmando que elas fazem parte, são passageiras e não definem quem somos. Isso ajuda a desenvolver uma relação mais flexível e compassiva com situações nas quais não temos o controle”, conclui Borba.

Por Danielle Castro

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