Juros em queda e crescimento tímido: o paradoxo que o Brasil ainda não resolveu

Na quarta-feira 17/06/2026, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu a taxa Selic para 14,25% ao ano — terceiro corte consecutivo neste ciclo. A notícia, celebrada por parte da imprensa como sinal de alívio, merece uma leitura mais cuidadosa. Afinal, estamos diante de um movimento de afrouxamento monetário que acontece sob um céu de nublado, em um país que cresce pouco apesar de sinais que, em tese, deveriam empurrar o PIB para cima.
O comunicado do Copom deixou claro o tom: apesar do corte, o comitê manteve postura cautelosa, apontando que as expectativas de inflação se distanciaram da meta — com o IPCA projetado pelo mercado em 5,30% para 2026, bem acima do teto de 4,5% estabelecido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). A guerra no Oriente Médio, ao pressionar preços de combustíveis e alimentos, segue como variável de risco. O Copom não antecipou os próximos passos. A mensagem foi clara: cada reunião será decidida dado a dado – Voltando a esconder o guidance.
E aqui reside o paradoxo que merece uma reflexão. O Brasil tem, neste momento, um mercado de trabalho resiliente – Mesmo com um desemprego aumentando de 5,2% para 5,8%-, consumo aquecido e renda média em elevação. Indicadores que, em qualquer manual de macroeconomia, deveriam traduzir-se em crescimento robusto. No entanto, a projeção de expansão do PIB para 2026 gira em torno de apenas 1,9% — número modesto para uma economia com tamanho e potencial como o nosso. Como é possível que sinais aparentemente positivos resultem em crescimento tão tímido?

A resposta passa por uma armadilha estrutural que o Brasil carrega há décadas: juros reais em suas máximas. Estamos falando de uma taxa real — descontada a inflação esperada — que ainda é a mais alta do mundo. Isso significa que o custo do crédito para empresas e famílias permanece proibitivo, que o investimento produtivo encontra barreiras concretas e que o capital prefere a segurança da renda fixa ao risco da produção. O consumo das famílias até sustenta alguma atividade, mas não há fôlego suficiente para alavancar investimento e produtividade — os verdadeiros motores de crescimento sustentável.
Para o empreendedor — seja ele dono de um supermercado, uma empresa de serviços ou uma indústria do interior paulista — esse cenário tem tradução direta: crédito ainda caro, margens pressionadas, e a sensação de que a macroeconomia não colabora, mesmo quando os noticiários falam em queda de juros. O corte de 0,25 ponto percentual é real, mas seus efeitos práticos chegam com defasagem e filtrados por spreads bancários que seguem elevados.
O mercado projeta Selic encerrando 2026 em torno de 13,50% ao ano, com trajetória de queda gradual nos próximos anos — chegando a 10% até 2028. Se essa trajetória se confirmar, é razoável esperar alguma aceleração do crédito e dos investimentos ao longo dos próximos 18 a 24 meses. Mas nada disso é automático nem garantido. Depende do comportamento da inflação, do cenário geopolítico e, especialmente, da capacidade do país de avançar em reformas que reduzam sua estrutura de custos.

Chegar a um dígito, no entanto, é um desafio de outra magnitude. O Brasil não experimenta uma Selic abaixo de 10% ao ano de forma sustentada desde meados dos anos 2000 — e as tentativas de forçar esse movimento sem as condições fiscais e estruturais adequadas terminaram mal. O episódio de 2012-2013, quando a taxa foi reduzida artificialmente para 7,25%, é um exemplo didático: a inflação reagiu, a credibilidade do Banco Central sofreu e o ciclo de aperto que se seguiu foi longo e custoso. Para que os juros de um dígito sejam possíveis e sustentáveis, o mercado precisa acreditar que a dívida pública está sob controle, que a inflação convergiu de forma consistente para a meta e que o arcabouço fiscal não vai exigir do Banco Central um papel que não é o seu. Nenhuma dessas três condições está plenamente equacionada hoje. Por isso, quando se fala em juros de um dígito no Brasil, não se fala de um horizonte próximo — fala-se de uma conquista institucional que ainda está por ser construída. Sem ancora fiscal o Copom fica de mãos atadas.
O Brasil é um país que frequentemente anuncia o início de um novo ciclo. Juros em queda são uma condição necessária para o crescimento — mas, sozinhos, são insuficientes. O que diferencia uma economia que cresce de uma que apenas sobrevive não é o ponteiro da Selic, mas a qualidade do ambiente em que se investe, se empreende e se planeja o futuro. Por ora, o Copom deu um passo. O trabalho mais difícil está em outro lugar.
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Mateus Castanheira é sócio-fundador e assessor do escritório Canaã Capital | XP