Camelôs resistem à retirada do camelódromo ferroviário em Marília

A Prefeitura de Marília deu continuidade, nesta quinta-feira (26), à retirada dos boxes do chamado camelódromo ferroviário, instalado no antigo pátio da estação. A área foi desocupada por decisão judicial, em ação de reintegração de posse movida pela Rumo Logística, concessionária responsável pelo trecho.
Enquanto tratores auxiliavam na desmontagem das estruturas que permaneciam no local, parte dos camelôs decidiu ficar na área, mesmo com as lojas fechadas, como forma de protesto. O acesso ao pátio ferroviário pela passagem de nível da rua Nove de Julho foi fechado com tapumes para impedir a entrada de pessoas durante os trabalhos.
Segundo a decisão judicial, o prazo para desocupação terminou em 1º de janeiro. Nesta semana, a administração municipal intensificou a retirada dos boxes remanescentes.

Na quarta-feira (25), foi registrado um ataque com o arremesso de objetos contra uma máquina do município, que acabou danificada. O policiamento militar foi reforçado. Na manhã desta quinta, durante a presença da reportagem do Marília Notícia, três viaturas da Polícia Militar estavam no local.
Camelôs permanecem na área
Alguns trabalhadores, cujos boxes ficam próximos ao muro vizinho ao camelódromo e também serão removidos, afirmaram que decidiram permanecer até o fim da retirada como forma de resistência. Eles alegam não terem sido contemplados com a indenização oferecida pelo município.
O Marília Notícia apurou que 54 camelôs receberam R$ 17 mil cada um, enquanto outros 43 não teriam sido incluídos na lista. Márcia dos Santos da Gama, de 52 anos, que trabalhava há dois anos no local com a venda de refrigerantes e salgados, relatou dificuldades para retirar os pertences.
“Está difícil, porque a gente não tem dinheiro para pagar carretos. Estamos tirando as coisas de carriola”, disse. Segundo ela, a incerteza quanto ao futuro aumenta a apreensão. “Vão derrubar tudo aqui, a gente não sabe o que fazer.”

Neusa Camargo de Lima, 42 anos, afirmou que atuava há sete anos no camelódromo, onde mantinha uma loja de calçados desde a implantação do Projeto Estação. “Queremos entender porque alguns foram indenizados e nós não, com tanto tempo de trabalho aqui”, declarou.
Roseli Barbosa de Farias, que também diz estar no local há sete anos com uma loja de roupas, questionou a condução do processo. “Prometeram realocar a gente e depois indenizaram. Mas e as outras famílias, como ficam?”, afirmou.
Cumprimento de ordem judicial
O fiscal de postura da Prefeitura, Juliano Bataglia, afirmou que o município cumpre a decisão judicial. Segundo ele, a administração está “fazendo sua parte da decisão” de reintegração de posse e da limpeza das barracas.
Questionado sobre as queixas dos camelôs, declarou que “todas as pessoas que estavam trabalhando no local foram indenizadas. As que se sentiram lesadas devem procurar os meios legais.”

Sobre a limpeza da área, Bataglia disse que a medida também busca organizar o espaço central. “Como a situação aqui na área central está muito feia, tem muito andarilho aqui, foi feita a limpeza”, afirmou.
De acordo com o fiscal, o trabalho deve ser concluído nos próximos dias. “Estamos tentando fazer o mais rápido possível, apesar da resistência de algumas pessoas.” E acrescentou: “mais uma semana, a gente pode dar uma liquidada no assunto.”
Fechamento do antigo pátio
Bataglia informou ainda que o fechamento do acesso principal deve continuar. “A princípio, o fechamento do acesso vai continuar, justamente para evitar o visual, que não estava de acordo com o Centro da cidade, e para a gente trabalhar com mais segurança aqui dentro”, afirmou.
A Prefeitura também avalia fechar o acesso pelos fundos, na rua Paraná. “Estamos analisando de fechar o ‘fundo’ (o acesso pela rua Paraná) para que evite de o pessoal entrar novamente aqui.”
Segundo o fiscal, a administração manterá a área sob controle até que a concessionária retome formalmente a posse. “Enquanto a Rumo Logística não tomar posse disso aqui, e se for realmente voltar o trem, vamos ter essa preocupação. Temos que cuidar do bem estar dos munícipes. A Prefeitura está fazendo sua parte”, declarou.
A concessionária tem prazo até 2028 para recuperar o trecho ferroviário, conforme programa de reativação divulgado pela própria empresa durante o processo de renovação antecipada da concessão.