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qua. 18 fev. 2026
TRAGÉDIA

O recomeço da sobrevivência: o moço que embarcou no Maranhão para renascer em Marília

Carlos Eduardo Almeida Mendes e outros três amigos de Santa Luzia do Paruá iriam trabalhar colhendo maçã nas lavouras de Pericó, na serra de São Joaquim.
por Ramon Barbosa Franco
‘Perdi todas as minhas coisas’, conta Carlos Eduardo Almeida Mendes, sobrevivente de Santa Luzia do Paruá (Foto: Ramon Barbosa Franco/Marília Notícia)

A Casa Abrigo em Marília fica na rua Paraíba. Paraíba é o termo depreciativo que muitos brasileiros das cidades do Sudeste, como São Paulo, Rio de Janeiro e do Interior paulista, tratam os brasileiros vindos de qualquer um dos Estados do Nordeste, não só do Estado brasileiro que possui 233 municípios, quase 140 quilômetros de litoral e abriga o Ponto Seixas, o lugar mais oriental (extremo a Leste) de toda a América.

Carlos Eduardo Almeida Mendes não nasceu na Paraíba, mas numa cidade do Maranhão, Santa Luzia do Paruá, localizada a 170 quilômetros da capital São Luís. Entretanto, na Casa de Passagem, na Paraíba de Marília, Carlos renasceu aos 22 anos. Ele não sabe como, mas acordou vivo fora do ônibus que transportava mais de 50 pessoas vindas do Maranhão com destino a Pericó, uma região de serra que pertence ao município de São Joaquim – reconhecido como o mais frio do Brasil.

A jornada para o emprego – que ele não soube precisar se seria de carteira assinada ou não – começou na sexta-feira de carnaval, dia 13. Sim, era uma sexta-feira 13 quando ele e os amigos da comunidade Centro do Du Lei Lau Caíque, Lucas e Pablo, embarcaram no ônibus da companhia Diego Transportes para cruzar quase 3.600 quilômetros: do interior maranhense até a serra catarinense. Antes da chegada do emprego, informado por um morador de Santa Luzia do Paruá que já tinha feito este trajeto na safra anterior, foram oito meses na construção de uma escola. E sim, Carlos não só construiu uma escola – como faziam os nordestinos que deixavam o Maranhão para empregos em São Paulo – como estudou numa até o Ensino Médio. Ele tem o 2º grau completo, como se dizia na mesma  época em que o termo pejorativo ‘Paraíba’ circulava fortemente nas ruas de São Paulo e no Rio de Janeiro. Os mais antigos vão se lembrar que quando Mussum se irritava com as brincadeiras racistas de Didi, o sambista da Mangueira devolvia com gosto e ironia: ‘Ô Paraíba, grande pássaro é o seu ‘passadis’!’. 

Antes de entrar no ônibus que não tinha licença da ANTT para fretamento nacional, apenas para circular em curtas viagens entre Estados, se despediu da namorada Gabriela, da mãe, Maria Auxiliadora Almeida – gestante de seu 4º filho da união com Abdem Araújo Garreto, a quem Carlos reconhece como pai, embora seja padrasto mas o cria desde o seu primeiro dia de vida. Ele não usa o sobrenome de Abdem, mas gostaria. “Meu pai de verdade só me fez e deixou a minha mãe, meu pai mesmo é o Abdem, que é o pai dos meus irmãos. Tenho um irmão de 6 anos, uma de 15 anos, outra de 17 anos e uma ainda vai nascer”, contou.

Assim que conseguiu ser atendido, trazido da BR-153 para Marília – ele recorda que ouviu o barulho do pneu estourando quando passavam por uma serra – Carlos tentou falar com sua mãe, e conseguiu. Não só ele sobrevive, como os outros 3 amigos da comunidade Centro Du Lei Lau. Ele não soube precisar porque seu bairro tem esse nome, mas é lá que ele vive… e é para lá que espera voltar o quanto antes. “Perdi todas as minhas coisas, trouxe uma mala com roupas e um edredom”, contou. Na serra do Pericó, em Santa Catarina, a temperatura média fica em torno de 10º a 14º, enquanto em Santa Luzia do Paruá, na maior parte do tempo, ocorre um ‘verão eterno amazônico’. Só este edredom, certamente, não seria suficiente para agasalhar um jovem que iria ganhar R$ 50 por caixa de maçã colhida a 1.300 metros de altitude.

“Se eu trabalhasse bem, com a ajuda dos outros colegas, a gente iria conseguir fazer até R$ 2 mil por mês”, relatou. Além do edredom, a mãe recomendou a Carlos que levasse um casaco e algumas roupas. A mala, os R$ 90,00 que lhe sobravam dos R$ 400 com os quais embarcou no Maranhão e o celular se perderam no acidente. Outros seis trabalhadores do seu Estado – que ele não conhecia, pois muitos embarcaram em cidades ao longo do trajeto inicial – perderam mais que pertences, dinheiro e celulares: perderam a vida. Até agora são confirmadas 6 mortes e 45 feridos. Carlos, o jovem de Santa Luzia do Paruá que esperava colher até 2.500 maçãs para encher uma única caixa bin (de 300 quilos a 380 quilos) e ganhar R$ 50 por isso, conseguiu sair quase ileso: quebrou uma costela, teve um ferimento mais grave na canela e sente dores ao se locomover. Está se recuperando na Casa Abrigo que, após uma decisão do prefeito Vinicius Camarinha tomada logo nas primeiras horas após o acidente na BR 153, está abrigando os brasileiros do Maranhão que tiveram o sonho do emprego interrompido no quilômetro 265, antes das 2 horas da manhã da segunda de carnaval.

Enquantos brasileiros acompanhavam desfiles de escolas de samba, pulavam o carnaval em clubes e bares, em blocos e no ritmo do axé, frevo e marchinhas, 51 ‘Paraíbas’, resilientes como os sertanejos descritos por Euclides da Cunha que em ‘Os Sertões’ sentenciou que os nascidos no sertão do Nordeste antes de tudo, são fortes, ‘desciam’ para o Sul em busca do básico: um emprego. Carlos lembra que foram passando por cidades do Maranhão, depois chegou a Tocantins – primeiro Estado que conheceu na vida, depois Goiás, Minas Gerais e, por fim, São Paulo, onde em Marília a cidade terminou de modo trágico. “Eu sempre sonhei em conhecer o Rio de Janeiro. Nunca tinha saído do Maranhão”, disse. 

Após ouvir o estouro do pneu, o ônibus capotou e ele, não sabe como, foi lançado para fora. “Não lembro de mais nada, só de estar sendo socorrido”. Agora ele quer voltar para sua mãe, pai, irmãos e Gabriela. “Vou dar um tempo lá”, afirmou.

Ao renascer na Paraíba mariliense, Carlos Eduardo Almeida Mendes não apenas sobreviveu a um pneu estourado na serra paulista: ele, sem saber, tornou-se um personagem vivo de um clássico que atravessa gerações. Sua jornada ecoa a saga dos Joad em ‘As Vinhas da Ira’, de John Steinbeck. Assim como os migrantes de Oklahoma que percorriam a Rota 66 rumo à Califórnia acreditando que “as uvas davam em qualquer lugar”, o jovem maranhense cruzou a Transbrasiliana acalentando o sonho das maçãs fartas do Pericó.

Na mala perdida, o edredom insuficiente para o frio de 1.300 metros de altitude simbolizava a mesma esperança desarmada que Steinbeck imortalizou: a resiliência de quem, diante da escassez de oportunidades em sua terra, converte a própria vida em combustível para o movimento. Carlos renasceu na Paraíba de Marília para contar que, embora as “vinhas” do destino possam ser amargas e os pneus estourem sob o peso da desigualdade, a força do sertanejo — esse que caminha por precisão e amor — permanece, antes de tudo, inquebrantável.

***

***

Ramon Barbosa Franco é escritor e jornalista, autor dos livros ‘Canavial, os vivos e os mortos’, ‘A próxima Colombina’, ‘Contos do Japim’, ‘Vargas, um legado político’, ‘Laurinda Frade, receitas da vida’, ‘Quatro Patas, a história de Pituco’, ‘Nhô Pai, poeta de Beijinho Doce’, ‘Dias de pães ázimos’, e das HQs ‘Radius’, ‘Os canônicos’ e ‘Onde nasce a luz’, [email protected]

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