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Política
qui. 22 set. 2022

Bolsonaristas impulsionam no Telegram teoria de fraude na urna

por Agência Estado

Grupos bolsonaristas no Telegram têm espalhado, sem provas, mensagens sobre um suposto processo de fraude eleitoral em curso para impedir a reeleição de Jair Bolsonaro (PL) no primeiro turno. Segundo especialistas em monitoramento de redes sociais, o movimento se assemelha ao episódio em que o então presidente americano, Donald Trump, acusou o Partido Democrata de manipular o resultado das urnas para eleger Joe Biden. Parte da retórica já é usada no Brasil por Bolsonaro e por integrantes do governo.

A narrativa envolve negar os resultados de pesquisas eleitorais e dizer que há um conluio do PT de Luiz Inácio Lula da Silva com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para eleger seus candidatos ao Palácio do Planalto e aos governos e Legislativos estaduais.

Levantamento feito a pedido do Estadão pelo Laboratório de Humanidades Digitais da Universidade Federal da Bahia (LABHD/UFBA), em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e o InternetLab, mostra que, nos últimos 90 dias, uma em cada quatro mensagens (26%) sobre eleições em grupos bolsonaristas no Telegram cita termos relacionados à fraude eleitoral – o principal assunto mencionado ao falar sobre o pleito no Brasil.

Ao todo foram 56,7 mil mensagens compartilhadas de janeiro a 20 de setembro deste ano nos 185 grupos e 524 canais (que funcionam como listas de transmissão) monitorados. Foram registradas menções a fraude em 164 grupos e 293 canais. Os dados exibem, ainda, viés de crescimento dos disparos desde junho até alcançar um pico diário em setembro. Em agosto, por exemplo, foram 7.892 mensagens e neste mês já são 5.734. Procurado, o Telegram não respondeu.

FORÇAS ARMADAS

O teor das mensagens pede que os seguidores “não aceitem passivamente” o resultado da eleição e instiguem as Forças Armadas a atuar em caso de derrota de Bolsonaro. Usuários afirmam que o atual presidente vai vencer Lula com mais de 60% dos votos válidos. Pesquisas eleitorais, no entanto, mostram que o petista está à frente, com possibilidade de ser eleito no primeiro turno.

“Não somos os seguidores de Trump. Eles que não se atrevam a roubar os votos do presidente Bolsonaro, que já está reeleito no primeiro turno”, diz uma mensagem, em circulação em um grupo com mais de 60 mil membros no Telegram. O texto afirma que, se o presidente do TSE, Alexandre de Moraes, disser em rede nacional que Bolsonaro não saiu vencedor no dia 2 de outubro, ele terá de morar em Cuba.

No domingo passado, o presidente reverberou discurso semelhante. “Eu digo: se eu tiver menos de 60% dos votos, algo de anormal aconteceu no TSE, tendo em vista, obviamente, o ‘Datapovo’”, afirmou Bolsonaro, em Londres, durante visita ao funeral da rainha Elizabeth II. No dia seguinte, o ministro das Comunicações, Fábio Faria, contestou a credibilidade do Ipec (ex-Ibope) e disse que “a população vai cobrar o fechamento desse instituto”.

ALERTA

A movimentação preocupa analistas. “Há uma tônica presente de construção da desconfiança do sistema eleitoral e a associação com uma fraude deliberada para retirar Bolsonaro do poder. Isso pode ser usado para mobilizar as pessoas a repetirem o Capitólio”, disse Paulo Fonseca, doutor em Sociologia e pesquisador do LABHD/UFBA.

Na invasão à sede do Legislativo americano, em Washington, no dia 6 de janeiro de 2021, cinco pessoas morreram. A retórica de fraude, sem provas, perdura nos EUA e mantém o domínio de Trump sobre seu partido para eventual candidatura em 2024.

A antropóloga Isabela Kalil, pesquisadora do Observatório da Extrema Direita, disse que Bolsonaro segue a mesma cartilha. “Trump já dava sinais disso (discurso de fraude antes das eleições) e não foi uma surpresa o reforço. Bolsonaro faz o mesmo quando, por exemplo, convoca os embaixadores para uma reunião sobre as urnas eletrônicas.” Ela citou três condições que podem viabilizar um processo agressivo contra o voto: a autorização do chefe de Estado, a atuação de forças de segurança e a disposição de grupos extremistas para se engajar nesses eventos, sendo esta última a mais imprevisível.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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