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ter. 25 ago. 2020

Limitar torcida não melhora segurança, dizem especialistas

por Agência Estado

O primeiro episódio de confusão e de mortes na nova era de jogos com portões fechados no Campeonato Brasileiro leva especialistas em violência e torcidas organizadas a fazerem um alerta. Após dois torcedores do Santos serem assassinados em Mauá (SP) no domingo por disparos dados por um palmeirense num posto de gasolina, estudiosos do assunto reiteram que enquanto o Brasil não cuidar de coibir uma cultura de violência, continuará lidando com episódios tristes, mesmo em partidas sem a presença de público, como foi entre Palmeiras e Santos.

O jogo no Morumbi, vencido por 2 a 1 pelo Palmeiras, foi disputado sem torcida por causa das restrições impostas pelo novo coronavírus. Porém, às 22h, dois torcedores do Santos morreram após confusão com palmeirenses em um posto de gasolina no Jardim Zaíra, em Mauá. Os torcedores das duas equipes trocaram agressões armados de barras de ferro, pedaços de madeira e garrafas.

Para especialistas ouvidos pelo Estadão, apesar de o Brasil ter tomado diversas atitudes nos últimos anos para evitar a violência entre torcidas, não há muito a se comemorar. Desde 2016 os clássicos do futebol paulista são disputados com torcida única do mandante. Ainda assim, foram registradas outras brigas e mortes em dias dos jogos. Na maioria dos casos, as confusões ocorreram em locais distantes dos estádios. No domingo, mesmo com o jogo sem torcida, houve um novo registro de violência.

O sociólogo Maurício Murad estuda o tema há 30 anos, é autor do livro ‘A violência no futebol’ e considera que qualquer medida de restrição de torcida não resolve o problema. “A violência se distribuiu demais e não ter torcida no jogo não resolve nada. Pelas pesquisas que coordeno, 94% dos problemas acontecem longe dos estádios. Onde o jogo é disputado, a situação é controlada pela polícia. O problema continua sendo em locais distantes dos estádios”, afirmou.

Murad explica que, por mais que em São Paulo os órgãos estaduais mostrem números com o intuito de defender que a torcida única diminuiu os casos de violência, em outros Estados, como no Rio Grande do Sul, a adoção de torcidas mistas também foi capaz de gerar os mesmos resultados. “Há anos eu e outros pesquisadores temos mostrado números e pesquisas científicas sobre a violência A violência ultrapassa os estádios porque envolve outros segmentos da sociedade”, afirmou.

Para a professora titular da Unicamp e autora do livro “Futebol e Violência”, Heloísa Reis, as mortes de torcedores em um domingo de clássico sem torcida mostram que o foco do combate está errado. Em vez de se restringir o público, na opinião dela deveria ser necessário um trabalho mais profundo de educação voltado aos meninos.

“Será preciso acontecer vários episódios distintos e de pesquisas para as autoridades entenderam que o que motiva esse tipo de briga é uma questão de educação machista e também intolerante”, disse. “Se ficarmos pensando que o problema é no futebol e que eliminar a torcida vai resolver, tudo isso nos prova ao contrário. Mesmo sem futebol, a violência vai continuar de alguma maneira. Temos de educar diferentemente”, completou.

Outro especialista em violência e torcidas organizadas, o professor de Sociologia do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF), Rodrigo Monteiro, avalia que o principal para se combater esse problema é entender a origem dele. Por isso, ele também destaca ser necessário um trabalho de educação e de se refletir que por trás dos confrontos, há outras situações.

“A questão não é restringir o acesso ou não ter público. A questão é desconstruir a lógica do torcedor. É preciso desconstruir esse estilo de masculinidade, de disputar quem é o mais macho, de quem briga mais, de quem vence o outro. Não tem como se policiar todo mundo. Toda essa questão não pode ser discutida somente entre a torcida, mas sim sobre a sociedade”, comentou.

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