‘Transformei dor em combustível’, conta maratonista que retomou os movimentos

Existem jornadas que não se medem em quilômetros, mas na densidade do silêncio que antecede a superação. Para Alexandre Henrique Sartori, conhecido carinhosamente como Xande, a linha de chegada é um conceito mutável, redefinido a cada amanhecer.
Empresário e entusiasta do conhecimento autodidata, ele nunca seguiu as cartilhas acadêmicas tradicionais. Preferiu o caminho mais árduo: o do saber empírico, guiado pela lealdade aos próprios princípios.
A trajetória, porém, foi atravessada por um divisor de águas que colocou à prova seus limites físicos e emocionais. Um grave acidente o confrontou com a possibilidade da imobilidade permanente e transformou sua vida em um campo de resistência diária.

O homem que hoje corre até 110 quilômetros sem interrupções é o mesmo que, em um passado marcado pela incerteza, se recusou a abrir espaço para o pessimismo. A ameaça de uma possível tetraplegia foi convertida em combustível para uma força de vontade que ele próprio define como imensa — quase divina.
Em janeiro de 2026, essa caminhada de resiliência ganhou forma de livro. Lançado pela editora Aradia, A inteligência emocional dos maratonistas vai além do relato de superação física. Na obra, Xande mergulha no comportamento humano e sustenta a ideia de que correr é, antes de tudo, um exercício mental.
O livro aborda com vigor o conceito de desbloqueio da mente, propondo uma verdadeira limpeza dos pensamentos limitantes para que o espaço interno seja ocupado pela consciência da vitória.
Mais do que um manual para corredores, a publicação se apresenta como um manifesto sobre constância e movimento — mesmo quando o ritmo é lento — defendendo a inteligência emocional como a bússola que impede a alma de estagnar.
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Marília Notícia: O relato que abre seu livro e detalha a realidade antes e depois do seu acidente. O que te motivou a escrever a obra?
Alexandre Henrique Sartori: O que mais me motivou foi poder incentivar cada pessoa que o ler. Quero que elas entendam que a vida é um presente divino e que toda tempestade, por maior que pareça, vai passar — ou melhor, nós vamos passar por ela. Mas isso só acontece se nos colocarmos em movimento constante, mesmo que de forma lenta. O importante é não parar.
Marília Notícia: Como você lidou com a possibilidade de jamais voltar a se movimentar? O que passava pela sua cabeça naquela época? Imaginava que voltaria a caminhar?
Alexandre Henrique Sartori: O mais incrível é que o pensamento de não poder mais me movimentar não cresceu dentro de mim. Eu não dei espaço para esse sentimento. Entendi que a possibilidade era grande, mas a minha vontade foi ainda maior diante de tudo isso. Acredito muito que Deus conhecia a minha força interna.
Marília Notícia: No lançamento do livro, você mencionou seu pai — in memoriam —, sua mãe, além da esposa e das filhas. Qual é o papel da família na vida de quem deseja se tornar maratonista?
Alexandre Henrique Sartori: A família funciona como um motor: pode nos impulsionar para frente ou nos puxar para trás. No meu caso, fui abençoado por ter pessoas ao meu lado que me deram razões para continuar. Ao olhar para cada uma delas, eu conseguia extrair o melhor de mim. Foi por eles, mas nasceu em mim a vontade de seguir.
Marília Notícia: Em vários momentos do livro você fala sobre inteligência emocional, desbloqueio e a interação com outros maratonistas. A inteligência emocional está ligada a conviver com quem compartilha dos mesmos princípios?
Alexandre Henrique Sartori: A inteligência emocional vai além de compartilhar princípios. Ela caminha em uma linha muito tênue entre desejo e realidade. É importante, sim, ter semelhanças de valores e propósitos, mas no fim das contas é sempre você com você mesmo, fazendo aquilo que ninguém mais pode fazer por você.

Marília Notícia: Por que a corrida se tornou uma metáfora da vida? Em que momento você percebeu essa similaridade?
Alexandre Henrique Sartori: A corrida é a grande analogia que trago porque a vida é movimento. Tudo o que fica parado, no fim, apodrece e morre. Na corrida vivemos todas as sensações possíveis: a empolgação no início, a dúvida no meio e o desejo de desistir quando estamos prestes a concluir a prova. É treino, garra, colaboração, frustração, dor e alegria. Um verdadeiro mix de sentimentos em pouco tempo. Aprender a lidar com isso durante a corrida nos ensina a viver melhor no dia a dia.
Marília Notícia: Como é a rotina de um maratonista? E quando você descobriu que tinha vocação para essa prática?
Alexandre Henrique Sartori: Falo como um maratonista amador. A rotina é encontrar tempo para treinar em meio a um cotidiano que parece não ter tempo para nada. Isso diz muito sobre prioridades. Faça chuva ou faça sol, o maratonista está lá — disposto ou não —, mas está. Porque sabe que, no dia da prova, sem preparo físico e emocional, tudo fica mais difícil. Em resumo, posso afirmar: disciplina é a liberdade da alma e do corpo.
Marília Notícia: Você pretende se dedicar a palestras e novos livros? Como tem sido a aceitação da obra?
Alexandre Henrique Sartori: Sim. Algumas empresas já têm me convidado para levar minha história e meu trabalho a líderes e gestores. Isso me faz acreditar que estou no caminho certo, levando o que mais amo fazer às pessoas, com leveza, em um mundo que fala o tempo todo sobre metas e conquistas. Quero mostrar que é possível ir além com mais inteligência emocional. A aceitação tem sido enorme, graças a Deus, e isso me faz acreditar que a mensagem vai se multiplicar a cada página lida.
Marília Notícia: Para finalizar, conte um pouco da sua trajetória: onde nasceu, sua formação e sua atuação profissional.
Alexandre Henrique Sartori: Hoje me coloco no mundo com consciência e propósito. Sou um homem próspero, saudável, realizado e com uma família linda e abençoada. Conduzo uma empresa no segmento de tecnologia, fruto de visão, coragem e constância. Não trilhei o caminho tradicional do ensino superior, mas escolhi o caminho do saber. Sempre fui um entusiasta do conhecimento, alguém que se permitiu questionar, aprender e evoluir. Minhas verdades nasceram de buscas pessoais, experiências reais e da coragem de ir além do óbvio. Lealdade, verdade e integridade são os pilares que sustentam quem eu sou e tudo o que construo. Caminho com intenção, sabendo exatamente de onde vim — e, principalmente, para onde estou indo.