Reajuste de aluguéis preocupa famílias removidas dos predinhos da CDHU

A virada de ano trouxe mais uma preocupação para centenas de famílias que viviam no Conjunto Habitacional Paulo Lúcio Nogueira, da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), na zona sul de Marília.
Com a chegada de 2026, os contratos de aluguel dos imóveis para onde essas famílias foram realocadas começaram a sofrer os reajustes anuais previstos em lei, enquanto o auxílio-moradia pago pelo poder público permanece em R$ 1 mil.
A situação é agravada pelo novo modelo de pagamento que, conforme acordo judicial, passou a ter os custos divididos entre a CDHU e a Prefeitura de Marília a partir deste mês de janeiro.
A ex-moradora Suzana Silva diz que se sente injustiçada. Proprietária de um apartamento quitado e, até então, em bom estado conservação no condomínio que hoje está interditado, ela relata o drama de ver sua renda mensal comprometida por uma moradia que não é sua. Atualmente, Suzana precisa complementar o benefício com recursos próprios, já que o aluguel do imóvel onde reside custa R$ 1.300.
“O auxílio que recebemos é de R$ 1 mil, mas eu já pago R$ 1.300 de aluguel. Já saem R$ 300 do meu bolso por uma casa que não é minha, sendo que eu tinha o meu apartamento quitado e lindo. Agora vem o reajuste do contrato e eu não sei para quanto vai. É um medo constante de novas despesas”, desabafou.
A insegurança relatada por Suzana é compartilhada por outros ex-moradores, que afirmam estar vivendo em um “vazio de informações”. Segundo os relatos, as reuniões com o comitê gestor e as atualizações sobre o destino dos blocos desocupados foram interrompidas e não há cronogramas claros para a reforma estrutural prometida inicialmente, nem definições sobre as cartas de crédito ventiladas como alternativa de indenização.
Suzana reforçou que “tudo está parado; não temos prazos, não temos novas posições e ninguém nos diz o que será feito do patrimônio que deixamos para trás.”
Em visitas à região de Marília ao longo de 2025, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) adotou um tom neutro sobre o impasse. Em agosto do ano passado, por exemplo, ele declarou que o Estado não poderia assumir integralmente a manutenção de moradias entregues há décadas, sob o risco de inviabilizar novos programas habitacionais.
Do ponto de vista administrativo, a Prefeitura de Marília e a Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social mantêm o discurso de que estão cumprindo as determinações judiciais de apoio direto às famílias. A transição do pagamento para o sistema compartilhado em 2026 é vista com cautela pelos beneficiários, que temem atrasos ou entraves burocráticos no repasse das parcelas.
Outro lado
A Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) informou à reportagem do Marília Notícia que o pagamento do auxílio-moradia às famílias retiradas emergencialmente do Conjunto Habitacional Paulo Lúcio Nogueira continuará sendo realizado.
“Todas as famílias atendidas receberam auxílio-moradia no valor de R$ 1 mil, custeado integralmente pela CDHU, no período de abril a dezembro de 2025. A partir de janeiro de 2026, o pagamento do subsídio passa a ser realizado de forma compartilhada entre a Companhia e a Prefeitura de Marília, com o repasse de R$ 500 por cada ente”, explicou.
A companhia acrescentou que, paralelamente, “a CDHU estuda soluções para o atendimento definitivo das famílias”. Atualmente, equipes da Companhia e do município realizam a fase final da atualização cadastral dos moradores, etapa necessária para viabilizar encaminhamentos individualizados, de acordo com a situação de cada cidadão — como proprietário, locatário, invasor, detentor de contrato de gaveta, entre outros perfis. Todo o processo é acompanhado pela Justiça, pelo Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) e pela Defensoria Pública.
Por fim, a CDHU informou que o valor de R$ 1 mil do auxílio-moradia foi estipulado por decisão judicial, não cabendo à Companhia alterar esse montante.