‘Quando assumimos, não havia estrutura’, diz coordenador da Defesa Civil, Luiz Bissoli

A Defesa Civil de Marília enfrenta um momento de transformação após anos de limitações estruturais e operacionais. Sob nova coordenação, o órgão passa por um processo de reestruturação que busca ampliar sua capacidade de resposta diante de ocorrências cada vez mais frequentes, como incêndios, alagamentos e situações de risco urbano.
À frente desse trabalho está Luiz Bissoli, engenheiro civil e servidor de carreira, que assumiu o desafio de reorganizar a pasta e implementar mudanças consideradas estratégicas. Entre as principais metas estão a melhoria da estrutura física, a ampliação do efetivo e a adoção de novas tecnologias para monitoramento e prevenção de desastres.
Em entrevista exclusiva ao Marília Notícia, o coordenador detalha as dificuldades enfrentadas, relembra episódios críticos atendidos pela equipe e apresenta projetos em andamento, como a ativação do telefone de emergência 199 e a criação de uma Brigada de Emergência. As medidas visam tornar o serviço mais ágil e eficiente no atendimento à população de Marília.
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MN – Como tem sido a sua experiência na coordenação da Defesa Civil e qual é a sua trajetória até chegar ao cargo?
Luiz Bissoli – Eu sou servidor municipal concursado há 15 anos e sou formado em engenharia civil. Trabalhei 11 anos na procuradoria como assistente administrativo, me afastei por um tempo para atuar em uma construtora, mas vi que não era o que eu buscava. Ao retornar, fiquei cerca de um ano no arquivo até receber o convite para a coordenação. Assumi no comecinho de maio do ano passado. É uma área que gosto muito, pois sempre participei ativamente da CIPA e de brigadas de incêndio. A experiência tem sido desafiadora, e costumo dizer que estou vencendo um leão a cada dia, mas estou gostando.

MN – Por que tem sido um trabalho tão desafiador? Como estava a estrutura do órgão?
Luiz Bissoli – Infelizmente, pegamos uma estrutura defasada, pois a Defesa Civil foi bem sucateada e abandonada nos últimos anos. Quando assumimos, não havia estrutura, pessoal ou equipamento, e estamos conquistando as coisas aos poucos. Hoje operamos com equipamentos manuais (como bomba costal e abafadores), uma Doblô (viatura) repassada pelos Bombeiros para transporte de pessoal e uma viatura cedida pela Defesa Civil Estadual. O problema dessa viatura é que seu compartimento de água é de apenas 400 litros, o que acaba muito rápido.
MN – Tem perspectiva de novas viaturas para a Defesa Civil de Marília?
Luiz Bissoli – A boa notícia é que já conseguimos junto ao governo estadual um caminhão-pipa para a Defesa Civil e estamos só aguardando a liberação para buscar. A nossa próxima meta extrema é conseguir uma caminhonete 4×4, pois nossa viatura atual já quase caiu em uma ribanceira de 30 metros por patinar em um morro durante um incêndio em Amadeu Amaral.

MN – Em relação aos problemas estruturais da cidade, quais áreas de risco têm exigido mais atenção de vocês?
Luiz Bissoli – Na parte de erosão, acompanhamos de perto a situação no Parque das Vivendas. Trata-se de uma área do CDHU que foi invadida e a erosão avança gradativamente. Já conseguimos retirar as famílias da parte mais crítica, cujos barracos chegaram a ser engolidos pela erosão. Também temos problemas históricos com inundações porque as galerias da cidade são muito antigas e não dão conta da expansão urbana e do volume atual de chuvas. Tivemos também um transbordamento na rodovia BR-153, causado por sujeira e galhos que entupiram o sistema de drenagem, o que acabou levando o talude da pista, mas que já está em processo de reconstrução.
MN – Qual período traz mais dificuldades para a equipe. A época de chuvas ou a de estiagem?
Luiz Bissoli – O período seco é o mais crítico para nós. Temos uma área verde muito grande, e a população infelizmente ainda mantém a mentalidade arcaica de usar o fogo para limpar pastagens. Em épocas críticas, os focos se espalham por vários lugares distintos ao mesmo tempo, dividindo as nossas equipes de combate.
MN – Nesse primeiro ano, teve alguma ocorrência desafiadora?
Luiz Bissoli – Tivemos casos marcantes, como um incêndio intenso atrás do edifício Palmares, que colocou em risco a vida de moradores. Em Amadeu Amaral, o fogo em mata fechada durou vários dias e precisou do apoio do helicóptero Águia.

MN – A Defesa Civil também participou dos desdobramentos daquele trágico acidente de ônibus na rodovia. Qual foi o papel de vocês?
Luiz Bissoli – Nós não atuamos no socorro inicial no local, pois fomos acionados às 6h, quando o resgate já havia encerrado. Nossa atuação foi direta no acompanhamento do resgate dos pertences, na identificação das vítimas junto à Polícia Civil e na busca de três passageiros que constavam na lista do ônibus, mas que não tinham sido localizados. Também auxiliamos no processo burocrático do convênio entre a Prefeitura e o Governo Estadual para custear o translado e encaminhamento de todos os pacientes e vítimas fatais de volta para os seus estados, a grande maioria para o Maranhão.
MN – O telefone 199 de emergência hoje não funciona no município. Quais são os planos para resolver isso?
Luiz Bissoli – Essa é uma das nossas grandes lutas que está quase na fase de conclusão. Para que possamos firmar o convênio e ativar o 199, a Defesa Civil precisa funcionar 24 horas por dia. Nós conseguimos o retorno de mais dois bombeiros civis para a nossa equipe. Vou alocar dois profissionais para trabalharem no período da noite, em turnos de 12 por 36, garantindo o funcionamento ininterrupto. O convênio já está em fase de aprovação e deve ir para a Câmara, e eu acredito que antes de começar o período de estiagem o 199 já estará operando.

MN – Existe também um projeto para a criação de uma Brigada de Emergência na cidade. Como vai funcionar?
Luiz Bissoli – Exato. Inicialmente eu havia pensado apenas em uma brigada de incêndio, mas adaptei o projeto para uma Brigada de Emergência, cobrindo também temporais e acidentes graves. Ela será composta por 20 servidores municipais de carreira, que receberão uma gratificação salarial pelo risco. Teremos motoristas de caminhão-pipa, operadores de maquinário agrícola, tratoristas e operadores de motosserra. Quando acionarmos a equipe, cada um já saberá a sua atribuição exata, agilizando muito a resposta e o suporte à população. Acredito que antes de começar o período de seca já teremos essa brigada montada e ativa.
MN – O uso de novas tecnologias tem ajudado o trabalho de vocês?
Luiz Bissoli – Agregou muito. Desde meados do ano passado, passamos a contar com um sistema de monitoramento via satélite dos focos de calor. A Defesa Civil Estadual acompanha as imagens e, quando identifica um foco de incêndio intenso, nos envia as coordenadas exatas imediatamente. É o mesmo sistema que chega para a Polícia Ambiental e os Bombeiros. Isso permite que a gente vá combater o fogo de forma rápida e precisa, pois, se fôssemos esperar ver a coluna de fumaça subir, já poderia ser tarde demais. Foi uma ferramenta que veio para somar muito.