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Entrevista da Semana
seg. 26 jan. 2026
ENTREVISTA DA SEMANA

‘Poucos países têm o trânsito internacional que o Brasil tem’, afirma professor de RI

Pedro Klein fala sobre o impacto das intervenções dos EUA e os riscos sobre a soberania das nações latino-americanas.
por Ramon Barbosa Franco
Pedro Klein é mestre em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente e doutorando pela UFMS (Foto: Divulgação)

A madrugada de 3 de janeiro de 2026 ficará marcada com a captura de Nicolás Maduro em Caracas por forças de elite norte-americanas, classificada pelo professor Pedro Klein Garcia como um ato “colonial”.

A ação, segundo o estudioso, não apenas encerrou um ciclo político na Venezuela, como abriu uma fase de incertezas para o continente. Em um cenário em que operações militares de “baixo custo” se tornam atrativas para a administração Trump, o Direito Internacional parece ceder à força bruta, reacendendo o debate sobre a formação de novos Estados clientes nas Américas.

Na Entrevista da Semana ao Marília Notícia, o bacharel em Relações Internacionais, mestre em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente e doutorando pela UFMS Pedro Klein analisa a crise venezuelana, traça paralelos históricos e avalia a resiliência brasileira diante das pressões de Washington.

Nicolás Maduro, capturado pelo governo dos Estados Unidos (Foto: Agência Brasil)

Docente da Unesp, em Marília, Klein questiona a ideia de que países periféricos sejam meras “fichas de pôquer” e defende o multilateralismo em um mundo fragmentado. Da tensão no Irã à guerra no leste Europeu, a conversa reforça o papel do Brasil como “nação conectora” em um cenário global cada vez mais instável.

***

Marília Notícia – Professor, como o senhor analisa a captura de Nicolás Maduro por forças dos EUA sob a ótica da soberania e do Direito Internacional?

Pedro Klein Garcia – A imagem que me veio à cabeça foi a prisão de Atahualpa, imperador inca, por Francisco Pizarro, em 1532. É colonial, pura e simplesmente. Maduro era um líder ilegítimo, derrotado eleitoralmente, e comandava um aparato repressivo. Ainda assim, a invasão americana não parece melhorar a vida do povo venezuelano. O que houve foi um realinhamento: uma ditadura hostil aos EUA tornou-se um Estado cliente. Para onde isso leva é incerto. Pode ser uma nova fase do imperialismo ou algo transitório. Tudo depende dos próximos passos de Trump e da reação da comunidade internacional.

Marília Notícia – A queda de Maduro e as ameaças a Colômbia e Cuba indicam uma nova era de intervenções diretas dos EUA na região?

Pedro Klein Garcia – A operação não foi surpresa. Era discutida desde agosto do ano passado e inspirada na invasão do Panamá, em 1990. O inesperado foi a facilidade. Não houve mobilização massiva nem baixas significativas. Isso é raro. Ainda não sabemos se houve rendições internas ou uso de novas tecnologias militares, mas foi uma operação extremamente eficiente.

Essa facilidade pode estimular novas ações semelhantes. Onde e quando, ninguém sabe. E não é certo que os EUA encontrarão as mesmas fragilidades. O maior risco é se envolverem em guerras longas, como no Iraque, no Afeganistão ou na “operação de três dias” da Rússia na Ucrânia.

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos (Foto: Divulgação)

Marília Notícia – Em 2025, o Brasil enfrentou um tarifaço dos EUA. O quanto isso fragilizou a economia brasileira?

Pedro Klein Garcia – A diplomacia brasileira ajudou, mas o fator decisivo foi a economia americana. O comércio bilateral é diversificado, do agronegócio à alta tecnologia. O agro brasileiro foi beneficiado porque a inflação de alimentos nos EUA saiu do controle. Já a indústria segue pressionada.

Apesar disso, a economia brasileira continua crescendo, e as projeções melhoraram. O setor produtivo mostrou resiliência. O caminho é negociar, lembrando os ganhos mútuos, mas também diversificar mercados.

Marília Notícia – A postura de Trump afeta as negociações entre Rússia e Ucrânia?

Pedro Klein Garcia – Afeta principalmente no discurso. A Rússia vê o mundo como um jogo de pôquer entre três potências. A Ucrânia, ao tentar se aproximar da Otan, seria apenas uma “ficha” sendo roubada. Essa visão ignora a soberania dos países.

Pedro Klein é bacharel em Relações Internacionais (Foto: Divulgação)

É uma lógica retrógrada. Somos brasileiros: você se vê como ficha de alguém? Historicamente, os próprios EUA se opunham a essa ideia. Quando Washington adota o discurso de esferas de influência, enfraquece o argumento ucraniano de decidir seu próprio futuro.

Marília Notícia – Como o Brasil deve agir diante das ameaças de Trump contra parceiros do Irã?

Pedro Klein Garcia – As novas tarifas miram países que burlam sanções ao petróleo iraniano, especialmente a Índia. O Brasil exporta sobretudo alimentos, geralmente isentos. Ainda assim, o governo americano já mostrou que pode usar tarifas como instrumento político. É uma possibilidade especulativa, difícil de antecipar.

Marília Notícia – Ainda há espaço para o multilateralismo?

Pedro Klein Garcia – Sempre há. O acordo entre Mercosul e União Europeia é prova disso. Mesmo fora das mesas de negociação, os EUA representam apenas parte do PIB global. Se houver articulação, é possível avançar sem eles.

Para professor, papel do país não é liderar guerras (Foto: Agência Brasil)

Marília Notícia – A pressão sobre Colômbia e Cuba pode gerar união regional?

Pedro Klein Garcia – Muitos países estão na mira de Trump. Ainda assim, não vemos uma resposta coordenada. A América Latina é fragmentada e muito voltada para agendas internas. Há sinais de aproximação entre Brasil, México e Colômbia, mas o processo é lento.

Marília Notícia – Qual o papel do Brasil nesse cenário?

Pedro Klein Garcia – A política externa brasileira sempre foi pautada por princípios, profissionalismo e coerência. Por isso, nossos diplomatas são respeitados mundialmente. Poucos países têm o trânsito internacional que o Brasil tem, e essa lista só diminui.

Nosso papel não é o de mediador clássico, nem de garantir segurança militar. É o de servir como interlocutor de nações isoladas, ser a voz de países menores em fóruns internacionais, organizar ajuda humanitária, cooperação técnica, monitorar eleições e defender direitos humanos. Esse também pode ser o papel de países como México e África do Sul.

O mundo precisa dessas nações conectoras, mesmo em um contexto de recrudescimento das relações políticas e econômicas. O Brasil já teve sucesso nessa missão, no Timor-Leste, em Angola e na Iugoslávia. É aí que temos mais a contribuir.

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