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qui. 16 dez. 2021

Os tangos argentinos na infância de um menino

por Ramon Franco

Era um dezembro, como agora, e o Natal se aproximava. Meu pai sempre gostava de receber de presente LPs. Minha mãe também. O vinil, que antecedeu o CD e as atuais formas digitais de apreciar uma das artes mais imprescindíveis, a música, mantinha-se como um elogio.

Sim, ao receber um álbum do calibre de “Ele e Elas”, de Nelson Gonçalves (1919-1998), com participações de Fafá de Belém, Núbia Lafayette e Alcione, entre outras musas, lançado em 1984, notava-se que o bom gosto ali predominava. ‘Borbulhas de amor’, do Fagner, chegou em casa numa época dessa. Muitos do Roberto Carlos, também.

E, num dezembro lá da minha infância nos anos de 1980, eis que meu pai é presenteado por um disco de tangos. Era um álbum com composições do argentino Carlos Gardel (1887-1935) e do brasileiro Alfredo La Pera (1900-1935) em versões brasileiras interpretadas por Albertinho Fortuna (1922-1995).

Pronto. Ali começava uma paixão. Não prestou mesmo, porque eu, um garotinho de 10 anos, parava para ouvir as lamúrias e milongas de Carlos Gardel na voz de Albertinho Fortuna. “El penado 14”, “Volver”, “Uno” e “Por una cabeza” e por aí vai.

Nesse período, descubro que o tio que morava na rua de casa era outro apaixonado por tangos. Ele começou a me apresentar composições de outros argentinos. “Menino, ouça o Francisco Canaro, ele valoriza os seus músicos antes da letra…”. Este meu tio, chamava-se Paulo Franco, sempre me dizia que o tempo que você ouve música Deus não conta e, portanto, se você ouvisse muita música, Deus ia te deixando por aqui. Era um jeito para prolongar a sua permanência.

Ouvíamos muitos tangos e, particularmente, eu tinha preferência pelo tango “Mano a Mano”, mas não na versão portuguesa. Por aqueles anos não entendia nada de espanhol, mas a sonoridade me agradava muito e por isso tive amplas facilidades de aprender o idioma anos mais tarde aqui em Marília, durante as aulas com o professor Jorge Camilo.

A mesma predileção tinha pela versão original de “Uno” e de um dos mais lindos tangos já concebidos, “Volver”. Para passar a admirar e apreciar a obra de Astor Piazzolla (1921-1992), argentino que praticamente revolucionou o gênero, foi instantâneo.

“Adiós Nonino”, de Piazzolla, é tão intensa e dramática, que integra as trilhas sonoras de vários filmes. O tango tem muito de intenso, de apego ao que poderia ter sido e, como acontece frequentemente, tira o sofrimento da vida e o transforma em arte. Recentemente, ouvi “Mano a Mano”, a música que conheci lá na época da minha infância. Fui golpeado na mesma emoção, mas com mais sapiência.

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