Recuo do comércio pressiona e muda perfil dos MEIs em Marília

O cenário do microempreendedorismo individual (MEI) em Marília revela mais do que uma simples variação numérica: aponta para uma mudança estrutural na economia local. Em pouco mais de seis meses, o município passou de 27.305 MEIs, em agosto de 2025, para 27.103 em março deste ano — uma leve retração de 0,74%. Apesar da queda discreta, os dados indicam uma transformação no perfil das atividades, com perda de espaço do comércio tradicional e avanço consistente do setor de serviços e do trabalho autônomo.
Essa movimentação sugere um redesenho gradual da economia urbana. Enquanto atividades ligadas ao balcão e à venda direta enfrentam retração, cresce a presença de ocupações mais flexíveis, muitas vezes ligadas à prestação de serviços diretos ou ao trabalho por demanda. O fenômeno pode refletir tanto uma adaptação às novas dinâmicas de consumo quanto uma resposta à necessidade de geração de renda em um mercado mais instável.
Nos números absolutos, setores tradicionais ainda lideram, mas já dão sinais de enfraquecimento. A área da beleza — que reúne cabeleireiros, manicures, pedicures e barbeiros — segue no topo, mas caiu de 1.705 para 1.674 profissionais, perda de 31 registros. Logo atrás, a construção civil registrou a maior retração do período: os pedreiros e trabalhadores de alvenaria passaram de 1.444 para 1.393, uma redução de 51 inscritos.

O comércio de rua também sentiu o impacto. Os comerciantes de bebidas recuaram de 374 para 347, enquanto merceeiros e donos de minimercados perderam 22 registros, passando de 252 para 230 estabelecimentos ativos. O movimento reforça o cenário de perda de espaço de atividades tradicionais diante de novas formas de trabalho.
Na direção oposta, os serviços avançam. O destaque absoluto foi o setor de apoio administrativo e atividades de escritório, que cresceu de 982 para 1.018 MEIs, com a entrada de 36 novos profissionais. Também houve aumento entre diaristas, que passaram de 764 para 784, e professores particulares, que subiram de 606 para 621.
Esse crescimento reforça o contraste entre setores e levanta uma questão central: trata-se de um movimento de oportunidade ou de necessidade? O avanço de atividades como serviços domésticos, aulas particulares e apoio administrativo pode indicar maior autonomia e diversificação do mercado, mas também pode refletir uma migração para ocupações mais acessíveis diante da dificuldade de inserção em setores mais estruturados.
Outras áreas apresentaram estabilidade, com pequenas oscilações. Depiladores, maquiadores e esteticistas passaram de 597 para 599 registros. Eletricistas residenciais tiveram leve variação, de 493 para 491. Cuidadores de idosos cresceram de 484 para 486, enquanto instrutores de cursos gerenciais foram de 393 para 401. Mecânicos de veículos também avançaram, de 299 para 304. Já os pintores de parede registraram queda discreta, de 465 para 458.
Nos nichos específicos, o levantamento revela variações expressivas em termos percentuais. Os adestradores de cães de guarda lideraram o crescimento proporcional, com alta de 200%, passando de um para três profissionais. Artesãos em cortiça e bambu, assim como fabricantes de brinquedos não eletrônicos, cresceram 50%, indo de dois para três registros. Até as lan houses demonstraram sobrevida, com aumento de 25%, passando de 12 para 15 unidades.
O setor de jardinagem também mostrou vigor, com a entrada de 15 novos empreendedores e total de 205 MEIs, crescimento próximo de 8%.
Por outro lado, alguns segmentos enfrentaram retrações acentuadas. O comércio de pescados caiu 50%, com redução de seis para três profissionais. A mesma taxa atingiu lavadeiros de roupas e toalheiros, que passaram de dois para apenas um registro. Entre as quedas mais relevantes, os guias de turismo recuaram de 13 para nove (-31%), os chaveiros de 32 para 25 (-21,8%), os adestradores de animais domésticos de 19 para 16 (-15,8%) e os instrutores de música de 32 para 28 (-12,5%).
O conjunto dos dados aponta para uma economia local em transição, na qual o comércio tradicional perde espaço gradualmente para atividades mais flexíveis e centradas na prestação de serviços. A dinâmica sugere um mercado que se reinventa, impulsionado tanto por novas demandas quanto pela necessidade de adaptação dos trabalhadores.