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Política
qui. 09 ago. 2018

Em MS, MDB Evita usar ‘tática’ de Lula

por Agência Estado

A questão jurídica que envolve o registro da candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado e preso na Lava Jato, quase se repetiu no Mato Grosso do Sul, onde o MDB assistiu à prisão do seu pré-candidato ao governo local, o ex-governador André Puccinelli, às vésperas da convenção realizada no último sábado. O partido, porém, seguiu um caminho diferente do PT. Sem conseguir soltar o ex-governador, decidiu escalar a senadora Simone Tebet para encabeçar sua chapa ao governo do Estado. Sem experiência numa eleição desse porte, ela terá pela frente o juiz aposentado Odilon de Oliveira (PDT), que ganhou fama ao combater o narcotráfico e acabou jurado de morte pelos traficantes. Odilon lidera as pesquisas de intenção de voto, seguido até então por Puccinelli.

“Ele tem votos cativos, que não serão transferidos para a Simone, mas o ideal seria que o Estado não passasse por esse constrangimento da prisão de um governador sob acusação de corrupção. Há um clamor popular pelo combate à corrupção e esse será um dos focos da minha campanha”, afirmou o juiz, que vê na prisão de Puccinelli um “constrangimento” para parte do eleitorado do MDB.

Puccinelli foi preso no último dia 20, na quinta fase da Operação Lama Asfáltica, da Polícia Federal. Ele já havia sido levado à prisão com outros agentes públicos em fase anterior da mesma operação, em 2017, mas acabou libertado. A investigação aponta desvios de recursos públicos que chegam a R$ 235 milhões por meio de fraudes em licitações, contratos e serviços prestados à administração estadual anterior. Na fase atual, a PF apura o uso do Instituto Ícone, do filho de Puccinelli, para o recebimento de propinas, ocultação de bens e lavagem de dinheiro Puccinelli Júnior foi preso junto com o pai. Ambos negam as acusações.

Embora sem a projeção nacional de Lula, o político sul-mato-grossense também é campeão de votos – se elegeu duas vezes governador no primeiro turno, em 2006 e 2010, e foi prefeito de Campo Grande em dois mandatos. Ele também caiu nas malhas da Justiça quando já estava fora do poder, mas, ao contrário de Lula, condenado em segunda instância no caso do triplex do Guarujá, ele ainda não sofreu condenação e continua elegível.

Pouco antes da convenção, peças publicitárias da campanha do MDB destacavam o perfil “tocador de obras” de Puccinelli e enfatizavam a falta de experiência administrativa do juiz, que nunca exerceu mandato. Questionado sobre isso, Odilon disse que pretende fazer uma gestão diferente no Estado. “Como juiz, também adquiri muito conhecimento da administração pública. Se for eleito, vou aplicar essa vivência, pois conheço bem o Estado, mas de maneira alguma vou admitir qualquer tipo de desvio”, disse ele, referindo-se ao antigo adversário.

‘Vaquinha’

Enquanto Simone Tebet vai concorrer em aliança com seis outros partidos, Odilon ainda encontra dificuldades para fechar apoios. Sem os recursos dos concorrentes, ele decidiu também criar uma vaquinha virtual para bancar a campanha. “Estou em desvantagem porque, enquanto o governador (Reinaldo Azambuja, do PSDB, candidato à reeleição) e o ex-governador já têm estrutura, quando não o peso da máquina, eu pago as viagens com o dinheiro de minha aposentadoria.”

O juiz disse que, por economia, viaja sem caravana, apenas com a sua segurança pessoal e dois assessores. “Na campanha, faremos uma ou duas viagens por semana a um custo de R$ 500 reais visitando quatro ou cinco cidades. No mês, dá uma despesa de R$ 7 mil. Terei um pouco de recurso do partido, mas coloco fé na vaquinha eletrônica”, disse.

A prisão de Puccinelli pode ter influência no resultado da eleição, segundo o analista político Eron Brum. “O MDB vai perder votos que podem migrar tanto para a reeleição de Reinaldo Azambuja, como para o juiz Odilon, que, embora menos conhecido do eleitor, se beneficia do fato de não ser político nos moldes tradicionais.” Ele lembra que Azambuja também é investigado pela Justiça após ser citado em delação da JBS. Azambuja afirma que ainda não teve a oportunidade de se defender.

Puccinelli e o filho tiveram negado na terça-feira passada pedido de habeas corpus apresentado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). Eles ainda aguardam a tramitação de um recurso no Supremo Tribunal Federal, cujo relator é o ministro Alexandre de Moraes. Para acompanhar esse recurso, foi contratado o advogado Cezar Bitencourt, que atuou na defesa do deputado federal Rodrigo Rocha Loures (MDB-RS), o parlamentar filmado com uma mala de R$ 500 mil em dinheiro. Segundo Bitencourt, a nova prisão se baseou em fatos antigos, já considerados na prisão anterior de Puccinelli, em 2017, que a Justiça entendeu como desnecessária.

‘Ilações’

A defesa alega que, apesar de a representação do MPF ser de 18 de maio, “a prisão só foi decretada bem próximo da convenção partidária, o que (pelo ineditismo da situação) acaba permitindo as mais diversas ilações, sendo ato no mínimo estranho, a exigir o controle judicial”. Preso no Centro de Triagem Anísio Lima, em Campo Grande, Puccinelli foi visitado no dia 31 pelo ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marun. Na saída, Marun disse que a prisão era arbitrária e estava relacionada à pré-candidatura de Puccinelli.

Defensores de Puccinelli afirmam que o juiz Odilon também teria sido atingido por denúncias, como a de favorecer um narcotraficante. Em julho, o jornal paraguaio ABC Color publicou suposta denúncia do ex-vereador de Ponta Porã César Mattoso, do MDB, de que Odilon teria recebido propina do narcotraficante Carlos Rubén Sánchez Garcete, o “Chicharõ”, para negar sua extradição para o Brasil. Após a publicação, Mattoso negou ter dado a entrevista ao jornal e disse que desconhecia o fato denunciado. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo

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