Em Marília, venezuelanos têm esperança com captura de Maduro

A notícia da captura do líder venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos repercutiu com intensidade entre os imigrantes venezuelanos que vivem em Marília. Mais do que um episódio da política internacional, a informação despertou sentimentos profundos: alívio, dor pelas perdas deixadas no caminho e, sobretudo, esperança de que o país de origem possa, um dia, reencontrar um horizonte de dignidade e reconstrução.
Para quem precisou deixar a Venezuela, o impacto vai além das manchetes. Trata-se da possibilidade simbólica de encerramento de um longo ciclo de sofrimento pessoal, familiar e coletivo.
Yemis Edegar Silva, de 61 anos, chegou a Marília em dezembro de 2025, depois de anos marcados por privações. Ao falar sobre o passado, sua voz carrega emoção. Ele perdeu a irmã e a esposa, segundo relata, em meio à escassez de medicamentos e à impossibilidade de acesso a tratamentos básicos, como diálise e quimioterapia.
“Eu fui obrigado a deixar meu país porque a situação já estava insustentável. Não tinha comida, não tinha remédio. Era uma repressão contra o cidadão comum. Faltava gasolina, frango, arroz. A gente acordava de madrugada para entrar em fila e, quando chegava a vez, o alimento já tinha acabado”, lembra.
Yemis afirma que adoeceu emocionalmente antes de migrar. Entrou em depressão, perdeu peso e precisou se afastar de familiares que permanecem na Venezuela. O contato, hoje, é restrito à internet, o que não diminui a saudade.

“Ser imigrante é sentir tristeza, solidão e muita falta da sua terra e da sua família. Dói estar longe. Só quem viveu isso sabe o que é sair do próprio país por necessidade, não por escolha”, desabafa.
Sahir Barreto, que vive há oito anos no Brasil — seis deles em Marília —, compartilha uma história semelhante. Para ela, a crise empurrou milhões de venezuelanos para fora de casa.
“Faltava tudo: comida, remédio, gasolina. O salário não dava para sobreviver e a inflação era muito alta. Não foi uma decisão fácil sair”, conta.
A notícia sobre Maduro chegou a Yemis após um turno de trabalho noturno em Marília. Ele descreve o momento como contraditório: um alívio misturado à cautela. “Me senti contente, mas também preocupado. A gente sabe que mudanças profundas não acontecem da noite para o dia”, afirma.
Familiares que permanecem na Venezuela relataram, segundo ele, um clima de incerteza e medo, com cidades tensas e pessoas tentando se proteger diante do cenário instável. Ainda assim, a esperança resiste.
“Eu sonho em voltar para passear, rever minha terra. A Venezuela tem potencial, é um país rico, bonito, cheio de gente trabalhadora. Mas só volto quando houver segurança e paz. Tenho fé de que isso pode acontecer”, acrescenta.
Apesar das marcas deixadas pela migração forçada, os venezuelanos em Marília buscam reconstruir a vida e olhar para o futuro. Sahir já se estabeleceu na cidade com a família e acredita que, com mudanças políticas e novos investimentos, a Venezuela pode se reerguer.
“O povo venezuelano é resiliente. A gente sofre, mas também encontra forças para sorrir e seguir em frente. Temos fé de que nosso país vai melhorar”, afirma.
Yemis trabalhou na construção do metrô em São Paulo antes de se mudar para Marília. Hoje, está casado com uma técnica de enfermagem brasileira, que atua no Hospital das Clínicas (HC). Ele fala com gratidão do acolhimento recebido no Brasil.
“O Brasil abriu as portas e o coração para nós. Fomos recebidos com respeito e humanidade. Isso faz toda a diferença para quem já perdeu tanto”, diz.
Entre lembranças dolorosas e expectativas cautelosas, a comunidade venezuelana em Marília segue construindo novos caminhos. A esperança, mesmo ferida, continua viva — tanto no desejo de um futuro melhor para a Venezuela quanto na gratidão por poder recomeçar no Brasil.