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sex. 13 fev. 2026
LITERATURA
RAMON BARBOSA FRANCO

Do Uruguai ao Canadá, a América em letras

A América é um canavial, um deserto e um sonho compartilhado.
por Ramon Barbosa Franco
Canavial no centro do mundo: Bad Bunny transforma o Super Bowl em um manifesto latino sob o sol de Porto Rico. García Máquez utilizou traje típico da Colômbia ao receber o Nobel, em 1982 (Foto: Reprodução da TV)

Recentemente, pelo menos 120 milhões de pessoas assistiram ao show do intervalo do Super Bowl, a grande final da liga profissional de futebol americano. Benito Antonio Martínez Ocasio, o Bad Bunny, levou para o gramado a sua essência porto-riquenha: uma plantação de cana-de-açúcar, uma casinha de periferia e o clamor pelos países que formam a América. Gritou EUA e Cuba. “A América são todos os países”, sentenciou.

Em cena, cortadores de cana — não os do Brasil, que já não ocupam o cenário de outrora e eram chamados de boias-frias — mas os de Porto Rico, com chapéus e trajes típicos. Foi um traje muito semelhante a estes, vistos na vitrine mais cara da TV mundial, que o colombiano Gabriel García Márquez usou em 1982 para ocupar o centro da Academia de Estocolmo e receber o Nobel de Literatura. Bad Bunny também gritou “Colômbia!”.

Instigado por esse show marcante — uma verdadeira crônica da miscigenação presente tanto nos Estados Unidos, onde o espanhol é o segundo idioma mais falado, quanto no Brasil — elaborei uma lista com obras de escritores do nosso continente. Incluí, claro, norte-americanos, entre eles um dos que mais amo: Ernest Hemingway. Mas a lista percorre o Brasil, o Uruguai, a Venezuela e o Paraguai — terra de um dos maiores de seu tempo, Augusto Roa Bastos.

Como o show remeteu ao corte de cana e ao universo sucroalcoleiro, tomei a liberdade de incluir uma obra minha; afinal, sou americano do Brasil, vindo de Paraguaçu Paulista e adotado por Marília. Canavial, os vivos e os mortos, obra que compus sob a vivência de observar os boias-frias da minha terra natal, traz a brasilidade interiorana que é parte indissociável do interior das Américas.

A seguir, apresento a lista, mantendo os títulos em suas línguas-mãe, como faz Bad Bunny com sua arte: A hora dos ruminantes (José J. Veiga — Brasil); Maleita (Lúcio Cardoso — Brasil); Porto Calendário (Osório Alves de Castro — Brasil); Sargento Getúlio (João Ubaldo Ribeiro — Brasil); The Handmaid’s Tale (Margaret Atwood — Canadá); El mundo es ancho y ajeno (Ciro Alegría — Peru); Hombres de maíz (Miguel Ángel Asturias — Guatemala); Capitães da Areia (Jorge Amado — Brasil); Madona dos Páramos (Ricardo Guilherme Dicke — Brasil); Yo, el Supremo (Augusto Roa Bastos — Paraguai); Canavial, os vivos e os mortos (Ramon Barbosa Franco — Brasil); Pedro Páramo (Juan Rulfo — México); Romance d’A Pedra do Reino (Ariano Suassuna — Brasil); Os abismos de Caraguatá (Adauto Elias Moreira — Brasil); La guerra del fin del mundo (Mario Vargas Llosa — Peru); Cien años de soledad (Gabriel García Márquez — Colômbia); The Old Man and the Sea (Ernest Hemingway — EUA); Doña Bárbara (Rómulo Gallegos — Venezuela); El Aleph e Ficciones (Jorge Luis Borges — Argentina); Cuentos de amor de locura y de muerte (Horacio Quiroga — Uruguai); La noche de los asesinos (José Triana — Cuba); Twelve Years a Slave (Solomon Northup — EUA); La casa de los espíritus (Isabel Allende — Chile) e O tempo e o vento (Erico Verissimo — Brasil).

A seleção passou pelo crivo da bibliotecária e mestra em Ciência da Informação Ana Laura, mediadora do clube de leitura Conta Logo (@contalogoclube). Ela não permitiu que o Chile e o nosso Sul ficassem de fora, resgatando um amor adormecido que sempre senti pela personagem Ana Terra. Penso que a lista é vasta, mas sempre aberta. Fica o desejo de, em breve, ler obras escritas originalmente nos idiomas nativos das Américas e no francês, que ecoa do Canadá à Guiana. A América, afinal, é um imenso continente que nunca termina de ser lido.

Dedico esta crônica ao professor espanhol Jorge Camilo, que nos deixou em 2025, e que me apresentou alguns dos títulos que apresentei aqui.

***

Ramon Barbosa Franco é escritor e jornalista, autor dos livros ‘Canavial, os vivos e os mortos’, ‘A próxima Colombina’, ‘Contos do Japim’, ‘Vargas, um legado político’, ‘Laurinda Frade, receitas da vida’, ‘Quatro Patas, a história de Pituco’, ‘Nhô Pai, poeta de Beijinho Doce’, ‘Dias de pães ázimos’, e das HQs ‘Radius’, ‘Os canônicos’ e ‘Onde nasce a luz’, [email protected]

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