Cicloviajante passa por Marília em jornada de liberdade, música e sobrevivência

Com um violão nas costas, uma bicicleta que já carrega muitas histórias e a cadela Chica como companheira inseparável, o músico uruguaio Maximiliano Héctor Fernandes Ferreira, o Max de 32 anos, teve a cidade de Marília como passagem nesta semana.
A travessia pan-americana mistura liberdade, arte, dores e saudades. Foram poucas horas no município, mas suficientes para uma pausa, um respiro e o registro de novos trechos de um diário no Marília Notícia.
Artista errante, natural de Montevidéu, Max vive na estrada há 14 anos. A viagem atual não foi a primeira ao Brasil, nem deve ser a última. Ainda assim, o desafio — que inicialmente previa mais de 10 mil quilômetros, de Montevidéu a Lima — tem sido especialmente exigente.

O roteiro original incluía Bolívia, Peru, Amazônia e retorno pelo litoral brasileiro, mas precisou ser redesenhado após um assalto em La Paz, na Bolívia. Na ocasião, Max perdeu a câmera, equipamentos essenciais de acampamento, parte dos recursos financeiros e um pouco da confiança.
O que não foi levado, faz questão de destacar, foram seus bens mais valiosos. “Fiquei com o violão, a vida e a Chica, o mais importante que eu tinha”, afirma. A cadela, que vivia em situação de abandono no Rio Grande do Sul, hoje divide com ele, a muitos quilômetros de distância, a jornada como cicloviajante.
Chica foi adotada em um posto de gasolina na fronteira com o Uruguai e é mais do que mascote: tornou-se suporte emocional. Quando se conheceram, ela estava magra, acorrentada e assustada.
Hoje, viaja em uma caixa adaptada à bicicleta, sua casa sobre rodas. Max conta que a relação é de proteção mútua. A cadela, inclusive, já o puxou para fora da água em uma situação que ele descreve como uma “brincadeira de afogamento”. O único medo assumido por Chica são os fogos de artifício.
Músico profissional no Uruguai, Max encontrou na arte de rua uma forma de subsistência e de conexão humana. No Brasil, segundo ele, o apoio financeiro direto ao artista de rua é mais escasso, o que o levou a diversificar as atividades. Além da música, confecciona pulseiras, que troca por alimento.
Entre acordes em espanhol e português, percebe que o público brasileiro se aproxima mais quando o ouve cantar em seu idioma de origem — uma prova de que a música, mesmo sem tradução, carrega sentimento suficiente para uma compreensão universal.

Perrengues nas estradas
Apesar de já ter sido assaltado no Rio de Janeiro e em São Thomé das Letras (MG), Max afirma sentir-se mais acolhido no Brasil do que em outros países por onde passou.
Ainda assim, evita buscar ajuda de autoridades públicas ou de serviços de assistência social. Relata experiências anteriores marcadas por arrogância e falta de empatia, o que o levou a confiar mais na solidariedade espontânea das pessoas comuns.
Por trás do viajante, há também o pai. Max é pai de Aroma, uma menina de sete anos, cuja saudade pesa tanto quanto os quilômetros percorridos. Rever a filha e cuidar da mãe são os principais motores de seu retorno ao Uruguai.
Lá, ele pretende se estabilizar, construir um quarto para a criança e trocar a estrada, ao menos por um tempo, por um endereço fixo.
Enquanto muitos veem apenas um andarilho de passagem, a história revela um profissional da música em um rito pessoal de travessia, praticando um nomadismo resiliente, sustentado pela arte, pela fé e pela companhia animal. Em Marília, Max seguiu viagem levando pouco na bagagem, mas deixando muito na memória de quem parou para ouvir.
Além da música, ele conta que gosta de cozinhar. Não sabe se poderia transformar esse prazer em uma nova alternativa profissional, mas acredita que a atividade combina com seu apreço por uma vida feita de encontros breves.
O cicloviajante uruguaio também tem buscado apoio para acelerar a volta para casa. Neste sábado (17), ele chegou ao Paraná, pela região do norte pioneiro, na divisa com Ourinhos. Contatos podem ser feitos pelas redes sociais, no perfil @bichitodeluzmusica.