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Brasil e Mundo
qui. 15 nov. 2018

CIA buscou um ‘soro da verdade’ para usar em terroristas

por Marília Notícia

Interrogadores da CIA buscaram um “soro da verdade” para usar em prisioneiros da Al-Qaeda, além de técnicas de tortura, para obter informações após os atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington, revelam documentos publicados na terça-feira.

Desesperados para obter informações sobre possíveis novos ataques por parte de Abu Zubaydah, que teria ajudado a planejar os ataques de 2001, os investigadores recorreram a experiências da agência na década de 50 com drogas que alteram a mente, como o LSD, e também ao programa russo para soros da verdade dos anos 80.

O relatório foi divulgado esta terça-feira pela American Civil Liberties Union depois de uma longa batalha judicial.

O documento agora divulgado, que analisa a participação da equipe de médicos da CIA nas operações da agência entre 2002 e 2007, revela que os profissionais de saúde tiveram um papel fulcral nos interrogatórios feitos aos suspeitos dos ataques do dia 11 de setembro de 2001.

Os médicos foram transportados em cerca de 120 voos e acompanharam vários suspeitos até instalações secretas da CIA, encarregaram-se de manter os indivíduos vivos e tinham a função de dar uma ideia de retidão profissional, tornando-se “indispensáveis” para garantir a “legitimidade do programa”.

O relatório descreve e detalha os interrogatórios de vários suspeitos associados aos ataques às Torres Gémeas e ao Pentágono e explica como é que os agentes da CIA torturaram durante vários dias os indivíduos detidos.

Segundo o jornal britânico The Guardian, que teve acesso ao documento, Khalid Sheikh Mohammed – que pertencia à al-Qaeda – foi sujeito a simulações de afogamento mais de 140 vezes que “ofereceram um alívio periódico da privação do sono em pé” a que estava obrigado. Já Abu Zubaydah, um palestiniano que também integrava o grupo terrorista, ficou fechado num compartimento com 70 centímetros de largura e 50 de altura como “solução para não tomar medidas severas”.

“Sem a participação dos médicos nada disto teria acontecido. Foram participantes essenciais e completamente coniventes”, afirmou ao The Guardian Dror Ladin, um advogado que integra o projeto de segurança nacional da American Civil Liberties Union. As técnicas de torturas aplicadas pelos agentes da CIA e apoiadas pelos médicos estavam aprovadas pela administração Bush, cujo Departamento de Justiça havia emitido três memorandos a autorizar medidas como o waterboarding ou a retenção de suspeitos em espaços minúsculos.

Abu Zubaydah, que foi capturado em Faisalabad em março de 2002, foi o primeiro a ser submetido a estas medidas. Ainda que o sítio onde o palestiniano esteve detido não esteja explícito no relatório, sabe-se que foi em “Detention Site Green”, na Tailândia, que Zubaydah foi torturado.

O centro de detenção era gerido pela atual diretora da CIA, Gina Haspel, ainda que esta só tenha chegado ao local quando a fase mais dura da tortura do suspeito já tinha terminado. Ficou decidido que o palestiniano não teria acesso a cuidados médicos diretos para não ficar com a impressão de que “poderia escapar sob a alegada necessidade de cuidados de saúde”. Recebia anti-séptico e compressas e tratava dos ferimentos sozinho.

No primeiro dia de interrogatório, 4 de agosto de 2002, Abu Zubaydah foi esbofeteado, atirado contra uma parede, fechado numa caixa minúscula e sujeito a waterboarding.

Os agentes pensavam que este processo iria quebrar física e psicologicamente o suspeito em poucos dias mas este acabou por se revelar “extraordinariamente resistente ao waterboarding” e estava a ficar “habituado às caixas”. “Ao contrário das expectativas, o processo iria demorar muito tempo”, detalha o relatório, que explica depois que a ausência de resultados e o impacto negativo que as técnicas de tortura estavam a ter nos próprios agentes levaram os médicos a propôr a utilização de um “desinibidor médico”, ou seja, um “soro da verdade”.

Contudo, a equipa legal da CIA achou que não era prudente avançar com o pedido de autorização ao Departamento de Justiça, já que a lei internacional proíbe a experimentação médica em prisioneiros e o uso de drogas psicotrópicas. Além disso, os advogados da agência de inteligência norte-americana consideraram que “um detido a falar sob influência de drogas poderia, contudo, reclamar total ignorância de tudo o que disse”.

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