‘As regras internacionais estão sendo rasgadas…’, comenta o pesquisador Marcos Cordeiro

Há uma piada recorrente entre estudiosos da China. Quem a conta é o professor livre-docente Marcos Pires Cordeiro, um dos marilienses mais lidos fora do Brasil. Articulista em um dos jornais de maior circulação no país asiático, ele costuma provocar:
“Um estudioso pergunta para um leigo quanto o Brasil vende de soja para a China. O leigo responde: ‘Milhões de toneladas’. Nós retrucamos: ‘O Brasil não vende um grão de soja para a China; é a China quem compra!’”.
A anedota resume uma lógica central da relação comercial. Segundo Cordeiro, o empresariado brasileiro não precisa fazer esforço de marketing para vender soja — nem outras commodities. A demanda chinesa é estrutural.
Pesquisador das relações entre China, Brasil e América Latina, Cordeiro é co-coordenador do Grupo de Pesquisa dos Brics (CNPq), membro do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais, coordenador do Latino Observatory e pesquisador do INCT-Ineu. Desde 2007, esteve 15 vezes na China, acompanhando de perto a transformação econômica e social do país.
Na Entrevista da Semana ao Marília Notícia, o professor começou falando sobre outro tema que sacudiu o cenário internacional: a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de barrar tarifas impostas pelo presidente Donald Trump. A China veio na sequência — e com um recado direto aos empresários do interior paulista: há espaço também para pequenos e médios negócios, desde que preparados para entender as especificidades do mercado chinês.
“A China possui o maior mercado do mundo em termos de paridade de poder de compra. Existe uma classe média de mais de 400 milhões de pessoas em busca de produtos diferenciados. Mas é preciso conhecer cultura de negócios, regulamentações, segmentação e gosto do consumidor”, afirmou.
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Marília Notícia – A Suprema Corte dos EUA barrou as tarifas de Donald Trump. Como o senhor avalia esse freio institucional?
Marcos Cordeiro Pires – A decisão foi uma surpresa não pelo mérito, já que as tarifas eram ilegais e deveriam passar pelo Congresso, mas porque, pela primeira vez neste mandato, houve enfrentamento direto ao presidente. Vale lembrar que Trump ajudou a formar a maioria conservadora da Corte, a mesma que validou políticas abusivas do ICE, com violações ao devido processo legal.
De certa forma, a Suprema Corte impôs a primeira trava a uma administração marcada por autoritarismo e personalismo. Trump testou o sistema ao limite — atacou oposição, imprensa, universidades e agora reage contra os próprios ministros que revisaram sua política tarifária.
Além disso, sua base começa a dar sinais de desgaste. Figuras da extrema-direita questionam sua política externa, especialmente em relação a Gaza, e há expectativa de dificuldades republicanas nas eleições de meio de mandato.
MN – A tensão entre EUA e Irã pode impactar o comércio global?
Marcos Cordeiro Pires – Um conflito direto envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã seria uma tragédia humanitária e econômica. O Irã tem 93 milhões de habitantes. Uma guerra aberta poderia gerar deslocamentos em massa de proporções inéditas.
No campo econômico, o Estreito de Ormuz é rota vital para o petróleo. Qualquer anúncio de guerra afetaria imediatamente os preços da energia, geraria pânico nos mercados e poderia provocar recessão global.
Há também o fator político: Trump prometeu não envolver o país em novas guerras. Como reagiria sua base? E qual seria a posição de países vizinhos ao Irã, como Turquia, Iraque e Paquistão? É um cenário extremamente delicado.

MN – Como o senhor vê o futuro da Venezuela e o papel do Brasil?
Marcos Cordeiro Pires – Ainda é cedo para projeções. O governo continua sendo de Maduro, mesmo sem Maduro. As forças governantes mantêm controle militar e apoio armado, o que torna qualquer solução dependente de pacto político — como ocorreu no Brasil em 1985.
O Brasil tem papel limitado. É potência diplomática, não militar. Num mundo em que as regras internacionais estão sendo rasgadas pelas grandes potências, resta torcer para que não haja guerra civil e agravamento da crise humanitária.
MN – O Brasil ainda depende excessivamente de commodities na relação com a China?
Marcos Cordeiro Pires – O comércio sino-brasileiro é vital. Saiu de pouco mais de US$ 2 bilhões em 2000 para mais de US$ 170 bilhões em 2025, com superávit brasileiro de US$ 29 bilhões.
Mas exportamos basicamente petróleo, minério, soja e proteína animal, enquanto importamos produtos industriais de maior valor agregado. Existe, porém, tendência de redução desse desequilíbrio com a instalação de empresas chinesas no Brasil, o que pode elevar a complexidade da relação.

MN – Pequenos empresários têm espaço real na China?
Marcos Cordeiro Pires – Existe uma piada entre estudiosos: o Brasil não vende soja para a China; é a China que compra. Não precisamos fazer esforço de marketing para commodities. Quem negocia esse setor são gigantes globais.
Para pequenos e médios empresários, a resposta é sim. A China é o maior mercado do mundo em paridade de poder de compra, com uma classe média de mais de 400 milhões de pessoas. Mas é preciso conhecer a cultura de negócios, regulamentações, segmentação e preferências do consumidor.
A China organiza a maior feira de importações do mundo, a CIIE. A Apex participa com estande brasileiro. É uma porta de entrada relevante.

MN – O que mais o impressionou ao longo das 15 visitas à China?
Marcos Cordeiro Pires – O ritmo de transformação. Em 2007 não havia trem de alta velocidade. Hoje são mais de 40 mil quilômetros de rede. Wuhan não tinha metrô; agora são mais de 500 quilômetros.
O mesmo vale para a indústria automotiva. A China produz quase 35 milhões de veículos por ano, mais do que a soma de várias grandes economias. É uma transformação difícil de resumir. Quem visita o país com frequência fica impressionado.
MN – Para 2026: cautela ou ousadia?
Marcos Cordeiro Pires – O cenário é desafiador. Tensões geopolíticas e risco de crise financeira estão no radar. Setores como Inteligência Artificial passam por rápida desvalorização de ativos.
Por outro lado, grandes crises também geram oportunidades. Quem tem criatividade e bom produto pode se beneficiar.
O eixo do desenvolvimento global já está na Ásia. Eu olharia para a China — e também para países da ASEAN, como Vietnã e Indonésia.

MN – Qual a importância da graduação em Língua e Cultura Chinesas da Unesp?
Marcos Cordeiro Pires – É estratégica. Trata-se do primeiro curso de graduação focado em língua, cultura e negócios com a China. Resultado da parceria entre Unesp e Universidade de Hubei, que também viabilizou o primeiro Instituto Confúcio do Brasil.
A possibilidade de dupla titulação e intercâmbio amplia horizontes. Se o eixo econômico está na Ásia, formar profissionais preparados para esse cenário é fundamental.
