Apreensões de ‘emagrecedores’ pela PRF em Marília crescem 280%

O início de 2026 desenha um cenário preocupante para a segurança e a saúde pública, com a explosão no número de apreensões de medicamentos contrabandeados, principalmente as conhecidas “canetas emagrecedoras”.
Dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) indicam aumento de 280% na apreensão desses produtos ilícitos. Enquanto a maior ocorrência registrada em todo o ano de 2025 somou 330 ampolas, apenas nos primeiros dias deste ano já foram contabilizadas 1.256 unidades.
Segundo o policial rodoviário federal Bruno Bernardo, as apreensões passaram a fazer parte da rotina. Em apenas duas ações recentes, foram recolhidas 1.176 e 80 ampolas.

Além da PRF, a Polícia Militar Rodoviária também tem registrado um volume elevado de flagrantes, o que aponta para a consolidação de uma rota de entrada desses medicamentos, geralmente vindos do Paraguai.
“A gente tem percebido um aumento muito grande. De agosto para cá, foram ampolas apreendidas de diversas formas. Encontramos escondidas no painel, no para-choque, dentro de caixa de celular. A forma de transporte tem sido bem diversificada. A pessoa que faz o contrabando e o descaminho, que já está acostumada, está trazendo agora também o medicamento, lembrando que é um crime contra a saúde pública”, afirmou Bernardo.
Um dos fatores que ajudam a explicar esse crescimento é a sensação de impunidade gerada por mudanças na legislação. O crime de contrabando de medicamentos, que antes previa penas de 10 a 15 anos de reclusão, passou a ter punição mais branda após novo entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF).
A Corte declarou inconstitucional o dispositivo do Código Penal que previa essa pena mais severa para a importação de medicamentos sem registro sanitário, por considerá-la desproporcional. No julgamento do recurso extraordinário (RE) 979962, em março do ano passado, o STF restabeleceu a redação anterior do artigo 273, § 1º-B, inciso I, que prevê pena de um a três anos de reclusão para esse tipo de crime, quando não há registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Na prática, isso faz com que muitos dos contrabandistas detidos não permaneçam presos. Após serem apresentados à Polícia Federal, costumam pagar fiança ou são liberados no dia seguinte, durante a audiência de custódia. Segundo as forças de segurança, essa dinâmica contribui para a reincidência e para o aumento do fluxo de mercadorias irregulares no país.

Busca pelo corpo magro
Um empresário de 33 anos, que pediu para não ser identificado, relatou ter recorrido às canetas emagrecedoras por conta própria. Ele pagou R$ 1 mil para adquirir o produto de forma clandestina, vindo do Paraguai, sem nota fiscal e ciente dos riscos.
“Eu quis cortar caminho da academia. Decidi pela forma mais fácil de emagrecer. Paguei R$ 1 mil e apliquei oito doses, em dois meses. Consegui reduzir 10 quilos. Eu estava com 92 quilos e cheguei aos 82. Era o que eu buscava. Agora parei de tomar a medicação e estou me controlando para manter esse peso. Sei dos riscos que corri, mas estou contente com o resultado”, contou.
O perigo invisível
Apesar de possíveis resultados satisfatórios, o uso destas canetas também representa risco direto à saúde – além do impacto no combate ao crime de contrabando/descaminho. O endocrinologista Sérgio Nechar Junior alerta que a Anvisa proíbe a importação e a comercialização desses produtos por falta de comprovação de segurança, eficácia e qualidade.

O principal problema, segundo o médico, é a incerteza sobre o que realmente compõem as ampolas.
“Esses produtos não possuem registro no Brasil e, portanto, não têm segurança, eficácia e qualidade comprovadas. O uso dessas canetas contrabandeadas preocupa porque podem conter substâncias diferentes das anunciadas, ter dosagens incorretas ou impurezas. Além disso, o transporte clandestino, muitas vezes sem controle de temperatura e higiene, compromete ainda mais a segurança e a eficácia”, pontua.
Efeitos colaterais e contraindicações
Sérgio Nechar Junior ressalta que a automedicação pode gerar consequências graves. Entre os efeitos colaterais mais comuns estão náuseas, vômitos e diarreia, que podem evoluir para quadros de desidratação. A perda de peso acelerada também eleva o risco de formação de cálculos na vesícula biliar e pode agravar sintomas de refluxo gastroesofágico.
“As canetas emagrecedoras são indicadas para pacientes com diabetes tipo 2, obesidade ou sobrepeso associado a complicações, como a esteatose hepática, conhecida como gordura no fígado. São situações em que a perda de peso é necessária por motivos de saúde e faz parte de um tratamento crônico, não apenas estético”, explicou.
O especialista reforça que o uso desses medicamentos deve ocorrer somente com prescrição e acompanhamento médico rigoroso. Diante do cenário atual, as autoridades alertam que a compra de produtos ilícitos não apenas alimenta o crime organizado, como expõe o consumidor a riscos legais e, principalmente, à própria vida.