Saúde mental é prioridade clínica, não opção

Ainda persiste a ideia de que o cuidado em saúde mental pode ser adiado. “Depois eu procuro o psiquiatra.” “Não é tão grave.” “É só uma fase.”
Essa lógica é perigosa.
Na medicina, utiliza-se a expressão “tempo é cérebro” para situações como o AVC. Na psiquiatria, o princípio também se aplica: quanto maior o tempo de sofrimento não tratado maior o risco de prejuízo funcional, cronificação e impacto social.
Transtornos mentais não são fraqueza, falta de fé ou incapacidade de lidar com a vida. São condições clínicas reconhecidas em classificações internacionais como a CID-10 e a CID-11.
Depressão maior não tratada pode evoluir com risco de suicídio e perda significativa de funcionalidade. Transtornos de ansiedade podem se tornar incapacitantes. O transtorno bipolar, quando não acompanhado adequadamente, tende a apresentar recaídas progressivas. Em quadros psicóticos, a intervenção precoce está diretamente associada a melhor prognóstico.
Há evidência científica consistente demonstrando que diagnóstico correto e tratamento adequado reduzem recaídas, preservam autonomia e melhoram qualidade de vida.
O papel do psiquiatra não é medicalizar a existência, mas tratar sofrimento clinicamente significativo com critério técnico. E tratamento não significa uso permanente de medicação. Em muitos casos, significa acompanhamento estruturado, tempo definido e possibilidade real de alta qualificada.
Alta qualificada é quando o paciente recupera funcionalidade, compreende seu diagnóstico, reconhece sinais de alerta e mantém estratégias de prevenção.
Para isso, são necessários três pilares: cuidado contínuo, constância terapêutica e confiança na ciência.
A saúde mental não pode ocupar o último lugar na agenda. Ela sustenta trabalho, vínculos, produtividade e autonomia.
Adiar o tratamento não fortalece ninguém.
Priorizar o cuidado é responsabilidade consigo mesmo.
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Dra. Fernanda Simines Nascimento
Médica Psiquiatra