A história da psiquiatria é, em muitos momentos, a história de como a sociedade lidou com aquilo que não conseguia compreender.
Os manicômios surgem, sobretudo a partir dos séculos XVIII e XIX, como espaços de isolamento. Mais do que tratamento, cumpriam uma função de contenção social: retirar do convívio aqueles que destoavam da norma — pessoas com sofrimento psíquico, mas também indivíduos considerados “inadequados” à ordem vigente.
O filósofo Michel Foucault descreve esse movimento como parte de um processo maior de controle e organização social. A loucura, nesse contexto, não era apenas uma questão médica, mas também moral e política.
Com o tempo, tornou-se evidente que o modelo manicomial, centrado no isolamento e na institucionalização prolongada, produzia mais exclusão do que cuidado. Foi nesse cenário que surgiram propostas de reforma.
Na Itália, o psiquiatra Franco Basaglia liderou um movimento que propunha o fechamento dos hospitais psiquiátricos e a substituição por uma rede comunitária de cuidado. A chamada Reforma Psiquiátrica Italiana defendia que o tratamento deveria ocorrer em liberdade, com foco na reinserção social e no respeito à dignidade do paciente.
A proposta era, sem dúvida, revolucionária — e necessária.
Mas sua implementação revelou um ponto fundamental: desinstitucionalizar não é, por si só, cuidar.
Sem uma rede estruturada, com serviços territoriais robustos, equipes capacitadas e políticas públicas consistentes, o risco é substituir o isolamento institucional por um outro tipo de abandono — mais silencioso, porém igualmente grave.
No Brasil, a luta antimanicomial trouxe avanços importantes, como a valorização dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e a tentativa de construir um modelo mais humanizado de cuidado. No entanto, a realidade ainda está distante do ideal proposto.
Em muitos contextos, os serviços são insuficientes, as equipes estão sobrecarregadas e a demanda ultrapassa a capacidade de acolhimento.
E é nesse ponto que surge uma confusão perigosa.
Defender o fim dos manicômios não significa negar a gravidade dos transtornos mentais. Não significa abrir mão de tratamento, de medicação ou de acompanhamento especializado.
Pelo contrário.
Na prática clínica, o que se observa é um desejo constante — por parte dos profissionais de saúde mental — de oferecer cuidado de qualidade: pacientes estabilizados, bem medicados, acompanhados e, sempre que possível, reinseridos em suas rotinas e vínculos sociais.
Mas isso não se constrói apenas com boa vontade individual.
Exige estrutura.
Exige políticas públicas consistentes.
Exige serviços bem organizados.
Exige equipes suficientes para sustentar o cuidado ao longo do tempo.
Sem isso, a desinstitucionalização corre o risco de se transformar em desassistência.
Entre o hospital e a liberdade, existe um caminho que precisa ser construído com responsabilidade.
A saúde mental não se sustenta em extremos.
Ela exige equilíbrio entre cuidado, técnica e presença.
Entre excluir e abandonar, a psiquiatria precisa sustentar o cuidado.
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Dra. Fernanda Simines Nascimento
Médica Psiquiatra
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