Colunas

Justiça Restaurativa e as consequências

Todos sabemos que o crime, além de ser uma violação às normas que regem a paz social, condensados e consolidados em códigos e leis especiais, deixa também, depois de sua prática, traumas e feridas profundas assim como sequelas de toda ordem nas vítimas ou, em sentido mais amplo, na sociedade que vem a sofrer, por via de consequência, os reveses da prática incriminada.

Do exame de tais condutas e suas consequências surgiu primeiramente no Canadá e na Nova Zelândia e depois   nos Estados Unidos, os primeiros movimentos sociais da chamada Justiça Restaurativa, vindo a ser adotada pela ONU, pela resolução 2002/12 que, conceitualmente se define como “ qualquer processo no qual a vítima e o ofensor, e, quando apropriado, quaisquer outros indivíduos ou membros da comunidade afetados por um crime, participam ativamente na resolução das questões oriundas do crime, geralmente com a ajuda de um facilitador”.

Segundo a definição mais objetiva do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios, “é um método que busca, quando possível e apropriado, realizar o encontro entre vítima e ofensor, assim como eventuais terceiros envolvidos no crime ou no resultado dele, com o objetivo de fazer com que a vítima possa superar o trauma que sofreu e responsabilizar o ofensor pelo crime que praticou.”

Em outras palavras, busca-se, com esse mecanismo, a aproximação de ofensor e ofendido e, eventualmente outros participantes do contexto criminoso, visando minimizar as consequências da infração, com a possível composição dos danos causados, a reabilitação do infrator, com ênfase em seu comportamento diante dos danos causados à vítima e à sociedade, evitando-se a reincidência, sem que tais medidas impliquem em anulação da censura penal respectiva.

Em termos funcionais e objetivos, a aplicação da Justiça Restaurativa funciona sob a orientação de um mediador, em ambiente adequado, com a convocação dos envolvidos, apoiando-se o ofensor na possibilidade da reparação dos danos e, eventualmente e dependendo do caso, visando a obtenção do perdão da vítima como solução emocional, sem deixar para o caso resquícios de ódio ou de mágoa.

Importante acrescentar que a modalidade em questão não afasta a punição do criminoso e nem o exime da responsabilidade penal, limitando-se a neutralizar, como já dito, as consequências do crime e os efeitos emocionais que dele decorrem.

Embora nos pareça que tais medidas estejam longe de nossos meios, a Justiça Restaurativa vem sendo aplicada no país há mais de dez anos, sobretudo no Rio Grande do Sul e nos Estados da Bahia e do Maranhão. A novidade (não tão nova assim) vem ganhando corpo nos meios extrajudiciais com razoável sucesso. Oxalá essa nova tentativa, de caráter social, venha a frutificar em nível nacional, afastando, quando possível, a intervenção judicial pura e simples.

Décio Mazeto

Ex-juiz da 3ª Vara Criminal de Marília, Décio Divanir Mazeto atuou por 34 anos na magistratura

Recent Posts

Homem morre depois de ser atingido por viga de madeira em Marília

Vítima estava internada na Santa Casa de Marília (Foto: Alcyr Netto/Marília Notícia) A Polícia Civil…

3 horas ago

Novas imagens mostram perseguição antes de homicídio em Marília

Imagens mostram perseguição que culminou em esfaqueamento (Reprodução: Câmera de Segurança) A investigação sobre a…

4 horas ago

Candidato a deputado, Rogerinho é autor de lei que fortalece a causa animal

Proposta que garantiu a UBS Animal reforça a aproximação de Rogerinho com defensores da causa…

4 horas ago

Capital Inicial vem a Marília e promete noite de clássicos do rock nacional

Show é promovido pela BR Eventos (Foto: Divulgação) O Capital Inicial vai retornar a Marília…

4 horas ago

Após luta pela vida, motoboy deixa UTI dois meses depois de acidente em Marília

Motoboy de 21 anos segue internado e ainda passará por novos procedimentos cirúrgicos.

4 horas ago

Santa Casa promove live com foco em saúde, McDia Feliz e apoio da comunidade

Transmissão nesta quinta-feira terá programação sobre Dia dos Pais, McDia Feliz e campanha de doações…

5 horas ago

This website uses cookies.