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4, abr / 2025, 3:16h Bom dia
Promovida pela Igreja Católica no período quaresmal – que compreende os 40 dias entre o Carnaval e a Páscoa -, a 9ª Campanha da Fraternidade dedicada ao meio ambiente tem atravessado as águas de uma epidemia de dengue em Marília.
Pelo menos oito pessoas, fiéis ou não, já morreram pela doença na cidade, segundo última atualização divulgada pela Secretaria Municipal de Saúde na última quarta-feira (26). Outras nove mortes seguem em investigação.
A coincidência de tempo entre a campanha e a epidemia tem exigido a providência da Igreja no esclarecimento aos fiéis sobre a importância de atitudes, além da fé, para conter a perda de mais almas em Marília.
“Precisamos trabalhar a conscientização. Talvez eu não possa salvar o mundo, mas se fizer a diferença onde estou, isso já é uma atitude cristã que salva vidas. Eliminar focos da dengue é praticar a fraternidade”, frisou o padre Marcos Cesário da Silva.
Atual coordenador do Centro Diocesano de Pastoral (CDP) da Diocese de Marília, o sacerdote fala ao Marília Notícia sobre atitudes e omissões dos fiéis e da própria Igreja no cuidado com o meio ambiente, chamado de “casa comum” pelo papa Francisco.
Pároco há apenas três meses da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, na Vila Coimbra, zona oeste, padre Marcos comenta o contraste entre a vegetação nativa e a degradação que já conheceu, provocada pelas mãos humanas naquela região da cidade.
Nascido em Garça, onde viveu a primeira infância entre hortas e pomares da zona rural, Marcos Roberto Cesário da Silva, tem 43 anos, dos quais dedicou a maioria dos últimos 13 na evangelização em áreas urbanas da Diocese de Marília.
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MN – A ecologia é o tema mais recorrente da Campanha da Fraternidade desde o início, em 1961. Por quê?
PADRE MARCOS – É preciso dizer, inicialmente, que a questão da ecologia não está vinculada apenas ao papa Francisco. O termo ecologia integral, sim, vem dele, mas outros papas retomaram a esse tema por necessidade. Papa São João Paulo II já falava da conversão ecológica. Ele dizia que a ecologia é um problema moral. A Igreja, no seu papel de mãe, mestre e formadora de consciências, quer despertar a sociedade a olhar para a realidade da casa comum, onde gradativamente temos percebido e sentido as destruições climáticas, fruto desta falta de cuidado, de zelo com a criação. Por isso, as abordagens da Campanha da Fraternidade à água, à terra, à Amazônia, ao índio. Apesar de estarmos falando sobre isso há tanto tempo, a sociedade ainda não reconheceu sua importância.
MN – O papa Francisco tratou do tema ainda no início de seu pontificado, em 2015, através da encíclica Laudato Si. Quais novas contribuições foram acrescentadas para análise social sobre o meio ambiente?
PADRE MARCOS – Nós celebramos esse ano 10 anos deste documento. É um momento importante de reflexão. A carta é a encíclica social da igreja. O papa trabalha essa questão da casa comum por entender que tudo está interligado. Ele pensa na ecologia integral como um cuidado com a natureza e com a pessoa humana. É o todo. Não dá para pensar a pessoa humana sem pensar a ecologia, não dá para pensar a ecologia sem pensar a pessoa humana. O papa contribui de uma forma muito clara, porque até então nós temos falado de coisas específicas. Nós temos pensado apenas em alguns aspectos, e não no todo. Daí a importância deste documento para a Igreja e o mundo.
MN – A Campanha da Fraternidade tem sido criticada por grupos católicos que acusam a Conferência Nacional dos Bispos de Brasil (CNBB) de militância em vez de promover um tempo de espiritualidade na Quaresma. Por quê?
PADRE MARCOS – A Igreja tem documentos sociais que são muito claros. A CNBB não inventa nada além do que já está ali. Falta conhecimento ao católico sobre a própria doutrina. Vivemos um tempo em que nos preocupamos só com a dimensão espiritual. Mas só ela não basta. O próprio Cristo disse que estamos nesse mundo. E se aqui estamos, devemos contribuir para que ele melhore. A doutrina social é a contribuição. A Campanha da Fraternidade extrapola os muros da igreja através de temas sociais para que a sociedade reflita. Nos últimos anos, todos foram vinculados ao cotidiano da vida. Quando se cria essas oposições, é porque, de fato, não se conhece a doutrina social. Em alguns aspectos, a campanha tem sido muito mais acolhida fora do que dentro da própria igreja.
MN – Falta mais catequese sobre a doutrina social na Igreja?
PADRE MARCOS – De fato, nós precisamos divulgar esse conhecimento. Existe uma lacuna nesse sentido, quanto aos documentos que não tornamos mais visíveis na formação dos fiéis. O Encontro de Casais com Cristo (ECC), por exemplo, tem uma dimensão que faz com que se reflita sobre a doutrina social. Poucas pessoas sabem, mas o papa Leão XIII já abordava a questão social no começo do século passado. Precisamos retomar a história e pensar em como fazer com que essa doutrina chegue a todos. A crítica vem de pessoas que analisam a doutrina social da igreja com motivos ideológicos.
MN – O que a Igreja tem feito para que as reflexões propostas pela Campanha da Fraternidade não fiquem restritas a 40 dias?
PADRE MARCOS – Nós estamos tentando achar um processo. O problema da nossa igreja é a mentalidade curta do povo. Todo mundo assume um compromisso, a Campanha de Fraternidade acaba e cai no esquecimento. É um problema de memória, mas qual o tipo de um compromisso possível? O que nós temos pedido é que as paróquias assumam, de fato, a realidade. Inclusive porque nós estamos em pleno ano jubilar, para que o compromisso seja um sinal de esperança. Temos paróquias que estão pensando em abolir algumas práticas, outras já implantaram energia solar. São gestos concretos alinhados com a Campanha da Fraternidade.
MN – De Garça a Panorama, onde a Diocese de Marília tem suas paróquias, há rios poluídos, desmatamentos e outros crimes ambientais contra fauna e flora. Como a Igreja tem se posicionado sobre isso?
PADRE MARCOS – Não temos feito isso. Existem algumas questões práticas, pontuais, aqui e ali, em que a comunidade vai, conversa com os gestores, mas nós não temos algo concreto como diocese. Por isso, a ideia de montar uma comissão que possa acompanhar essa questão ambiental e venha se tornar um curso e aí possamos ajudar em alguns aspectos. Precisamos começar por uma concepção do próprio povo. Veja a dengue que temos enfrentado. Há quem não cuide do seu quintal, do seu terreno. Precisamos trabalhar a conscientização. Talvez eu não possa salvar o mundo, mas se fizer a diferença onde estou, isso já é uma atitude cristã que salva vidas. Eliminar focos da dengue é praticar a fraternidade.
MN – O senhor assumiu neste ano a Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, cujo entorno é cercado de itambés e vales na zona oeste. Que realidade socioambiental encontrou por lá?
PADRE MARCOS – Na verdade, eu não consegui conhecer muita coisa ainda por lá em apenas três meses (risos). Estou dando os primeiros passos na comunidade. Aquela região é dividida por matas. No entanto, em alguns lugares vi que o pessoal está jogando lixo. Existe a responsabilidade do Poder Público, mas também de toda sociedade civil. Eu que moro ali tenho que cuidar. Tenho falado na paróquia sobre a conscientização sobre cuidados com os espaços públicos.
MN – Além da orientação de zelo nos espaços físicos, como tem sido a higienização ambiental de consciências pela fé na Igreja?
PADRE MARCOS – Eu tenho dito que a conversão implica numa decisão. Nós temos que decidir mudar de vida fazendo coisas diferentes. Quando nós estamos no meio ambiente, não basta achar que seja lindo, que tem alguém que cuide. Eu tenho que decidir fazer junto. É através de minha conversão pessoal que começo a economizar água que eu fico varrendo, lavando a calçada, elimino banho de 40 minutos. A conversão não é algo tão simples. É muito mais fácil na infância do que de quem já tem a cabeça fechada. Estamos trabalhando essa higienização como uma decisão pessoal para que se torne uma atitude coletiva, comunitária.
MN – Como tem sido o trabalho de orientação da Igreja ao próprio clero quanto à importância dos cuidados ambientais?
PADRE MARCOS – Nós, padres, ainda precisamos de conversão ambiental. Nós vemos as realidades e, muitas vezes, não assumimos a responsabilidade de ajudar o povo a pensar em coisas práticas nas paróquias de que somos obrigados a cuidar. Por exemplo, selecionar o lixo. Podemos diminuir o desperdício nas nossas igrejas e capelas. É muito fácil ter à mão um calendário, mas ele pode ser digital. Nosso povo consegue ver isso no celular. Alguém que tenha dificuldade, vamos ajudar.
MN – A digitalização de documentos, por exemplo, seria a redenção ao desperdício que ainda persiste na Igreja?
PADRE MARCOS – Sim, é um caminho. Veja nosso Guia Diocesano, por exemplo. Já não imprimimos tanto quanto antes. Já está disponível no site da Diocese. Assim, economizamos árvores, papéis e tantas outras coisas envolvidas nas impressões.
MN – Em sua caminhada como padre, o senhor chegou a se deparar com questões ambientais das quais interferiu, em busca de solução?
PADRE MARCOS – Pontualmente, não. Já trabalhei em paróquias em que nós desenvolvemos alguns trabalhos práticos, mas não grandiosos. Em Garça, plantamos árvores com jovens na beira da nascente porque havia um problema assoreamento.
MN – Depois de tantas campanhas e informações acessíveis além da própria Igreja, é possível crer que haja salvação ao Meio Ambiente?
PADRE MARCOS – Se nós tomarmos uma posição, nós ainda podemos recuperar muita coisa. A natureza tem essa beleza de regenerar. Muitas coisas nós já perdemos. Temos animais em extinção, nascentes já secaram já. Ainda dá tempo. Só depende de cada um e de todos nós.